Vaticano: como são as relações diplomáticas com a China?

Até o ano de 1949, ano em que se deu a Proclamação da República Popular da China, conduzida pelo Exército de Libertação Popular e liderado por Mao Tsé-Tung, o Vaticano e a China mantinham relações saudáveis, com as Igrejas Católicas chinesas sendo totalmente administradas pela Santa Sé.

 

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Papa Francisco demonstra grande interesse em negociar com Pequim sobre união das Igrejas Católicas.

 

Porém, os católicos perceberam-se em risco quando o Vaticano e a China cortaram relações diplomáticas em 1951, deixando o catolicismo descredibilizado no país. Foi só em 1957, com a criação da Associação Patriótica Católica Chinesa, que o Partido Comunista Chinês (PCCh) tentou institucionalizar a fé cristã no território nacional, porém o novo órgão estatal não contou com o reconhecimento do Vaticano e isso dividiu os católicos chineses em dois grupos.

 

O Cristianismo na China

A China tem cerca de 12 milhões de católicos, mas as manifestações católicas no país são apenas permitidas no âmbito da Associação Patriótica Católica Chinesa, a igreja aprovada pelo PCCh e independente do Vaticano. Por conta disso, os católicos que se recusam a seguir o modelo estatal (cerca de 5,1 milhões) participam das chamadas igrejas “subterrâneas”, que são igrejas que funcionam clandestinamente por toda a China. Seus representantes são bispos nomeados pelo Vaticano, mas não são reconhecidos pela Associação Patriótica Católica Chinesa, por isso muitos são perseguidos pelo governo, tendo até relatos de tortura nos primeiros anos.

 

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O catolicismo cresceu muito pouco na China desde o rompimento das relações diplomáticas.

 

O Vaticano tem grande interesse em renovar a fé católica em toda China, e isso é evidente com os grandes esforços que já vinham desde João Paulo II e Bento XVI. Agora, cabe ao Papa Francisco dar continuidade a missão diplomática que vem se estendendo por muitos anos.

Francisco tem falado de sua admiração pela cultura chinesa. Ele saudou uma delegação da China, aceitando uma impressão de seda de uma antiga inscrição sobre o Cristianismo. Ele ainda tirou fotos com um bispo chinês na Praça de São Pedro no ano passado. Agora, ele parece estar considerando uma ação mais significativa: um grande compromisso com os líderes comunistas da China para curar a fenda amarga de décadas atrás, que dividiu as gerações de católicos chineses e impediu o Papa de exercer abertamente sua autoridade no país mais populoso do mundo.

 

A diplomacia do Vaticano

O Vaticano, particularmente sob o Papa Francisco, tem desejado chegar a um acordo com o governo chinês e unir as igrejas. Um ponto crítico nas negociações secretas é se Santa Sé ou Pequim tem a palavra final sobre as nomeações dos bispos, e é este o ponto que é mais delicado nas conversações.

Em 2007, Bento XVI deu um passo importante para a reconciliação das relações diplomáticas ao reconhecer a celebração dos sacramentos dentro das igrejas oficiais do Estado. Ele também escolheu o cardeal Pietro Parolin, então arcebispo, para liderar as negociações com Pequim, embora as negociações estivessem paralisadas. Quando Francisco tornou-se Papa, em 2013, chamou o arcebispo Parolin como seu secretário de Estado e, mais tarde, elevou-o a cardeal. Em 2014, a China permitiu que o Papa voasse sobre o seu espaço aéreo em uma viagem à Coreia do Sul e o Papa enviou funcionários com sede em Roma, liderados pelo arcebispo Claudio Maria Celli, para reiniciar as negociações.

No entanto, em um voo recente de volta a Roma de uma viagem a Bangladesh, o Papa Francisco reiterou o desejo de ir para a China. “As conversações com a China estão em níveis elevados”, disse ele, acrescentando: “Eu acredito que será bom para todos realizar uma viagem à China. Gostaria de fazer uma”.

Em um movimento que aborreceu muitos na Igreja Católica Romana, o Vaticano pediu a dois bispos “subterrâneos” na China para entregar seus cargos a indivíduos aprovados pelo governo autoritário do país, incluindo um que o Vaticano havia excomungado. A decisão, em dezembro, ocorreu em meio ao que os observadores descrevem como um esforço extraordinário do Vaticano para avançar nas negociações para restaurar os laços com Pequim.

O diretor de pesquisa do Ferdinand Verbiest Institute, na Bélgica, Dr. Chen Tsung-Ming, que estuda religião e sociedade na China moderna, acredita que o cenário para negociações em retomar as negociações diplomáticas é promissor. De acordo com o Dr. Chen, um dos motivos dos esforços do Vaticano é de que a fé católica cresce relativamente mais lenta em comparação com outras religiões na China. Enquanto o número de protestantes cresceu de um milhão, em 1949, para, pelo menos, 50 milhões hoje, o número de católicos acompanhou em grande parte o crescimento populacional, passando de três milhões, nesse mesmo período, para cerca de 12 milhões hoje; em parte devido à problemática relação da Igreja Católica chinesa.

 

Críticas ao acordo: O Vaticano está vendendo o catolicismo à China?

Restaurar a diplomacia e regularizar a vida religiosa católica na China tem sido uma prioridade para o Papa Francisco. As negociações começaram há mais de 18 meses, mas acredita-se que tenham parado sobre a delicada questão de quem nomeia bispos no país. Pequim nomeou sete bispos que Roma se opõe, enquanto estima que 30 a 40 bispos subterrâneos com a benção do Papa operam sem a aprovação do governo chinês.

 

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Arcebispo Joseph Zen, o maior crítico às recentes negociações entre o Vaticano e a China.

 

O arcebispo emérito de Hong Kong, Joseph Zen, é o maior crítico a esse acordo entre o Vaticano e a China. Para ele, ceder a nomeação dos bispos para o governo seria um grande erro no que tange a liberdade religiosa no país. Zen acredita que ceder muito poder para Pequim colocaria os seguidores católicos do país em uma grande “gaiola”, deixando-os nas mãos da Associação Patriótica Católica Chinesa, com pouca influência da Santa Sé.

Embora o Vaticano tenha reivindicado a ordenação dos bispos como certo, ambos os lados tiveram um acordo não escrito que permitiu que Pequim escolhesse os candidatos que a Santa Sé consideraria e, em seguida, poderia ou não endossar. Sobre isso, Zen diz que se o Papa usar seu veto com muita frequência, “o governo chinês dirá: diga ao mundo inteiro que o Papa não é razoável”.

Ficou claro que o Vaticano está disposto a abrir mão de parte de seu poder para que ele possa voltar a atuar no país mais populoso do mundo. A nomeação dos bispos é um grande impasse para a confirmação deste acordo, tendo em vista que o governo chinês regula todas as instituições religiosas no país. A crítica surge no momento em que a fé católica fica comprometida no sentido de seguir estritamente as regras e valores estabelecidos pelo Vaticano, o que descredibilizaria a prática no território chinês. Por isso Joseph Zen se opõe ao acordo e defende a forma pura da prática religiosa no país, sendo até mesmo a favor do distanciamento dos dois Estados.

O Papa Francisco, um dos benevolentes, acredita que o importante é não perder a fé em Cristo e professar o Cristianismo apesar de tudo, portanto, não vê problema em dar a última palavra à Pequim no quesito da escolha dos bispos. Cabe agora a seus negociadores em Pequim finalizarem o acordo, retomarem as relações diplomáticas e institucionalizarem os seguidores que hoje ainda são vistos como clandestinos.

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Por Vinicius Silvestre, diretamente de Limeira, SP, Brasil

Fontes: New York Times, The Washington Post, DN, Hoje Macau

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