Soft power da China no Brasil

A República Popular da China tem apresentado um grande crescimento econômico desde sua abertura econômica em 1978, antes disso seu desenvolvimento era limitado pelos negócios nacionais. Ela é atualmente a maior potência econômica do mundo, além de ocupar um papel importante no cenário político mundial: é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, membro do G20 e entrou para Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001.

 

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Xi Jinping ocupa o cargo de presidência da China desde 2013 e tem altos índices de satisfação entre a população chinesa. Sendo o soft power uma estratégia política, ele é o responsável pela disseminação da cultura chinesa para outros países.

 

Todas estas características têm possibilitado à China uma boa conjuntura para realização de seu soft power. O termo é utilizado para descrever a capacidade de um corpo político de influenciar o comportamento e os interesses de outros corpos políticos. O conceito de “soft power” foi formulado por Joseph Nye, fazendo referência à habilidade de influência de uma nação através da inspiração e atração, por meio da propagação de uma dada identidade cultural, política e ideológica, em contraposição à coerção ou poder militar, o chamado “hard power”. Resumindo: soft power é o contrário de hard power, onde se usa a força.

Assim, para o sucesso do “soft power” de um país, que é apontado pelo autor como sendo de característica mais duradoura e efetiva,  seria de extrema importância a relação de admiração e curiosidade em plano internacional por seus valores, seu idioma, suas instituições e cultura. Durante anos os Estados Unidos aumentaram sua influência mundial através do soft power, transmitido em seus filmes de Hollywood (conhecidos mundialmente) e até mesmo suas franquias de fast-food.

 

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A globalização ajudou a aumentar o poder do soft power para os países. Hoje, essa estratégia é essencial para quem quer desenvolver sua economia. Fonte: Racontour

 

Soft power na China

A China exerce o chamado “soft power” em âmbito global para aumentar seu poder de influência política, sendo um de seus enfoques a América do Sul, onde constitui uma alternativa aos interesses estadunidenses.

Para ficar mais claro como esse influência ocorre, faça um exercício: olhe ao seu redor. Quantas pessoas têm produtos de marcas estadunidenses? Esses produtos se tornaram moda em todo o mundo, fortalecendo o soft power dos EUA em outros países. O resultado disso são pessoas que sonham e almejam conquistar o sonho americano, ou american way of life.

No que diz respeito à propagação do idioma, uma das maneiras de atuar com soft power, a maior economia do mundo atua com grande relevância através do chamado Instituto do Confúcio inaugurado no ano de 2004. Com sede em Pequim e sendo uma instituição criada pelo governo, a função principal do Instituto não lucrativo está na promoção e ensino da língua chinesa, ao mesmo tempo em que divulga a história e cultura da nação em outros países. Com mais de mil unidades espalhadas ao redor do globo, os Institutos são implementados a partir de parcerias entre universidades chinesas e estrangeiras, com professores chineses aprovados pela matriz do Instituto, atendendo às normas do Ministério da Educação da China.

 

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Fonte: UFRGS

 

As formas do soft power da China no Brasil

Outro método de exercer do “soft power” chinês é através da cultura. No caso do Brasil, Marta Suplicy, ministra da Cultura, teve um encontro de trabalho com o ministro da Cultura da China, Cai Wu em setembro de 2013, onde foi sugerido que se fizesse um Ano Novo Chinês no Brasil em Copacabanaa celebração do Ano Novo Chinês em São Paulo já se tornou um evento cultural importante, onde centenas de milhares de pessoas participam.

 

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Ano novo chinês no bairro da Liberdade, na região central de São Paulo. Fonte: SP AGORA

 

O evento inclui atrações musicais, exposições de arte, apresentações de artes marciais e dança, além de festivais gastronômicos – mostrando o interesse do Brasil por esta cultura. Além disso, a ministra também sugeriu que os chineses investissem na tradução de seus autores para o português. A leitura de autores de determinado país também é uma forma de soft power, tanto nas leituras acadêmicas quanto de lazer. 

Outra forma que pode ser visualizada como uma consequência do “soft power”chinês no Brasil é a crescente presença da culinária chinesa, com estabelecimentos espalhados por todas as regiões do país. O uso de ingredientes atípicos às tradições brasileiras não constituiu um fator de limitação do consumo dos pratos chineses, que se mostram cada vez mais aceitos pela população. Existe uma grande dificuldade em encontrar um cidadão brasileiro que nunca provou ou conhece o Yakissoba, o Frango Xadrez ou os Rolinhos Primaveras. Restaurantes com essas especialidades não se concentraram apenas em grandes capitais, como no famoso bairro da Liberdade em São Paulo: local que emana cultura oriental, e no qual a culinária chinesa convive com outras asiáticas, como a japonesa e a coreana. Atualmente, os pratos típicos da China são facilmente encontrados também em pequenas e médias cidades, sendo bastante apreciados no maior país da América Latina, o Brasil.

A milenar Medicina Tradicional Chinesa (MTC), que trabalha com variadas técnicas como a acupuntura, tuiná e exercícios provenientes do tai chi chuan, por exemplo, visando à busca pelo equilíbrio do organismo do paciente, vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil. Já existe no país uma revista especializada em medicina chinesa, além também da chamada Associação de Medicina Chinesa e Acupuntura Tradicional do Brasil (AMCT), entidade sem fins lucrativos cujo principal objetivo é a divulgação da MTC no país e na América Latina.

 

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Cada vez mais brasileiros aderem a acupuntura como forma de terapia.

 

Outra forma de “soft power” chinês é a realização de empréstimos a outras nações. Um caso brasileiro de relevância foi o financiamento em US$ 10 bilhões, proveniente de acordo firmado em 2009, à brasileira Petrobras, para os investimentos na exploração de petróleo do pré-sal. No quesito financeiro, também marca presença no Brasil o chamado Banco da China, inaugurado no ano de 2009, com profissionais de ambos os países, com enfoque nas relações bilaterais entre os dois países, facilitando o comércio e atividades das empresas clientes.

Outro importante enfoque econômico são os investimentos chineses realizados no Brasil, que são fruto, principalmente, da modernização da China, de seu desenvolvimento tecnológico e da aproximação comercial dos dois países. A China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, sendo o principal destino das exportações brasileiras, além de um dos principais países do qual o Brasil importa. O Brasil fornece/exporta produtos básicos (as chamadas commodities) para as indústrias e fábricas e chinesas e depois compramos/importamos seus produtos manufaturados.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a corrente de comércio entre Brasil e China, no período de janeiro a setembro de 2013, totalizou US$ 63,715 bilhões, o que refletiu em um aumento de 11%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Nesta mês de novembro de 2019 durante a Cúpula dos BRICS que ocorreu em Brasília, os presidentes Xi Jinping e Jair Bolsonaro se reuniram e anunciaram um aumento de parcerias comerciais entre China e Brasil.

 

Trajetória do soft power da China no Brasil

Na virada do século XX para o XXI, as corporações chinesas se fortaleceram e inauguraram um ciclo de internacionalização por meio de uma combinação de reforma com capacidade e suporte estatais. No caso do Brasil, os investimentos chineses tiveram um grande crescimento. As grandes empresas chinesas já têm instalações no Brasil, sendo que podemos citar como exemplo a SVA, a Huawei, a GREE, a Midea, entre outras; além do importante setor automobilístico em que temos como exemplo a Chery e a Jac Motors, demonstrando mais uma das formas com que a China exerce seu “soft power” no país, no caso, através da expansão de suas multinacionais.

Mais recentemente, a gigantesca da tecnologia, Xiaomi, inaugurou uma loja física no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. A AliExpress, queridinha dos brasileiros, inaugurou também um estande de compras online no Brasil, que inclusive vende smartphones de Xiaomi.

Concluímos que são várias as maneiras como a China exerce sua influência no Brasil, seja no âmbito econômico: com investimentos diretos e indiretos e na compra e venda de mercadorias brasileiras; seja no âmbito cultural: expandindo seus costumes para o país, além da própria língua, que muitos brasileiros já se interessam em aprender. Diversas escolas de mandarim têm surgido nas capitais brasileiras.

Com a ascensão econômica cada vez mais significativa da China nos últimos anos, são mais comuns as consequências do “soft power” chinês em outros países do globo. No caso brasileiro, que detêm parcerias de relevância com o país asiático, esse “poder brando” torna-se cada vez mais visível, gerando maior aproximação entre as duas nações e suas culturas.

E você, leitor? Em quais aspectos do seu cotidiano a cultura chinesa está presente?

 

Por Camila Sakamoto Juvêncio e Karen Priscila Anselmo, diretamente de Marília, SP – Brasil

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