China e Taiwan – Relações comerciais nos tempos de 2015

          “Um país, dois sistemas”. A política do governo chinês que permite a Hong Kong e Taiwan adotarem sistemas capitalistas, enquanto que o resto do país segue o modelo comunista, tem permitido à China manter relações pacíficas, ou ao menos não conflituosas, com ambos os territórios nas últimas décadas. A esse respeito, as relações entre China e Taiwan merecem um estudo mais aprofundado, já que a ilha desempenha um papel importante no jogo político envolvendo os países da região e os Estados Unidos. Mas, principalmente, dado o atual contexto político interno taiwanês.

China e Taiwan

Tsai Ing-wen, favorita nas pesquisas para a presidência taiwanesa. Possível melhora no relacionamento entre China e Taiwan?

          O Kuomintang (KMT), partido atualmente no poder, tem adotado uma política mais favorável ao estreitamento de relações com a China nos últimos anos, particularmente no que se refere ao comércio, às questões econômicas e aos negócios em geral. Como resultado dessa política, há alguns anos atrás a China se tornou o principal parceiro econômico da ilha, ao mesmo tempo em que esta passou para o ranking dos dez maiores parceiros do gigante asiático. O número de visitantes chineses permitidos diariamente em Taiwan também aumentou, assim como os voos diários de um lado a outro.

          Entretanto, receios de que essas boas relações possam se deteriorar a partir do ano que vem têm aparecido recentemente. Às vésperas da próxima eleição presidencial, a popularidade do KMT, e também do atual presidente, Ma Ying-jeou, encontra-se extremamente baixa. E nada parece indicar que isso vai mudar no curtíssimo prazo, já que foi justamente nos últimos meses que o apoio da população ao governo sofreu queda mais acentuada. Nesse contexto, quem vem ganhando cada vez mais força é o partido de oposição, o Partido Progressista Democrático (PPD), favorito para o pleito que se aproxima, e liderado pela independentista Tsai Ing-wen.

          Nos últimos meses, Pequim vem alertando, em várias ocasiões, para a possibilidade de uma crise no Estreito de Taiwan, caso ela realmente vença as eleições. Isso porque o PPD busca, como um de seus principais objetivos, fazer com que Taiwan se torne um país independente da China. Além disso, muitos de seus integrantes não aceitam a validade do “Consenso de 1992”, acordo pelo qual tanto a China quanto Taiwan reconhecem que existe apenas uma China, embora as definições de “China” sejam diferentes de cada lado do Estreito. Mas para entender melhor como as relações China – Taiwan se desenrolam, é necessário que compreendamos os fatos que levaram ao atual contexto político e diplomático entre os dois territórios.

 

O contexto histórico

          Corria o ano de 1949. A China vivia uma guerra civil que, ao final, terminou com a vitória comunista sobre os nacionalistas do Kuomintang. Os derrotados, liderados por Chiang Kai-shek, sem outra alternativa, fugiram para Taiwan, onde se mantiveram no poder até o ano 2000. Na maior parte desse tempo, governaram com mão-de-ferro, sob uma lei marcial que perdurou até 1987, e cujo término permitiu o aparecimento do Partido Progressista Democrático. A principal diferença entre os dois partidos, consiste no fato de que o KMT considera Taiwan como sendo parte da “China Única” propugnada pelo Consenso de 1992. Por outro lado, o PPD luta por uma Taiwan politicamente independente da China. O período em que governou a ilha, de 2000 a 2008, foi um período relativamente tenso entre os dois territórios, graças a essa postura do partido.

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Chiang Kai-shek, general que liderou o Kuomintang em sua fuga para Taiwan

No âmbito externo, as relações entre China e Taiwan têm sido tradicionalmente ásperas. Embora também adotasse o conceito da “China Única”, o KMT reclamava para si o controle da China continental, não reconhecendo o governo comunista de Pequim. Esse ideal se viu frustrado quando, na década de 1970, os Estados Unidos iniciaram uma política de aproximação com Pequim, que culminou no seu reconhecimento formal em 1979.

Uma década mais tarde, porém, com o aparecimento do PPD na arena política taiwanesa, o governo chinês foi gradualmente mudando sua visão a respeito do KMT. Isso porque as diferenças entre os dois ainda eram preferíveis à uma Taiwan independente, como queria e ainda quer o PPD. Daí decorre o fato de o Partido Comunista se preocupar com a possível eleição de Tsai Ing-wen no ano que vem. Mas por que as relações entre China e Taiwan têm chamado tanta atenção recentemente? Entenda agora as razões.

 

As relações geoestratégicas internacionais

envolvendo China e Taiwan

Taiwan foi uma colônia do Japão de 1895 a 1945. Após a 2ª Guerra Mundial, passou para domínio dos Estados Unidos, até a chegada de Chiang Kai-shek, em 1949. Assim sendo, historicamente a ilha tem recebido influência das três maiores economias do mundo atualmente. Além disso, sua localização geográfica a torna um componente extremamente importante no jogo de poder travado por essas superpotências, jogo esse que afeta claramente os países da região, nos momentos em que atritos se tornam mais frequentes.

O exemplo mais claro desse jogo é a relação mantida pelos Estados Unidos com a ilha. Os norte-americanos são o país que mais vende armamento militar a Taiwan, o que frequentemente gera desconforto por parte de Pequim. Para contrabalançar essa “intromissão” americana, o governo chinês invariavelmente realiza demonstrações de força bélica no Estreito de Taiwan, e constantemente melhora sua capacidade militar, através de mísseis balísticos e outros aparatos bélicos.

Os EUA dificilmente quererão envolver-se em um conflito entre China e Taiwan, caso isso realmente ocorra. Numa região do mundo cada vez mais armada e politicamente tensa, o mais provável é que mantenham sua política de hora pesar a balança para um lado, hora para o outro. A China, por sua vez, não se importa com quem será o(a) próximo(a) presidente de Taiwan, desde que ele(a) respeite o Consenso de 1992 e o conceito de “China Única”. Caberá a ele(a) a difícil tarefa de evitar atritos com o governo chinês, sem perder apoio popular dentro de Taiwan. É esperar pra ver.

 

Fontes: Economist, CFR, Washington Post, The Diplomat, China Org

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