Protestos em Hong Kong: entenda porque

Protestos em Hong Kong

pelo voto universal

O presente ensaio tem o objetivo de analisar os protestos em Hong Kong e o movimento Occupy Central with Love and Peace, atuante em Hong Kong desde 2013. As manifestações e protestos por ele organizados objetivando a liberdade do direito ao voto, abriram as portas para um movimento ainda maior: a Revolução dos Guarda-Chuvas, tendo como grande facilitador e como uma forma de ampliar ainda mais esse cenário o uso das redes sociais para a difusão das ideias.

protestos em hong kong

As manifestações em Hong Kong contrárias à reforma da Lei eleitora da ilha

 

INTRODUÇÃO

Buscando relacionar o conceito de democracia representativa com os acontecimentos do dia-a-dia e os meios de comunicação, decidimos abordar o movimento “Occupy Central with Love & Peace”, que atua em Hong Kong desde o ano de 2013. A análise do movimento faz-se relevante, pois se insere no tema liberalismo e a busca pela democracia em conjunto com a utilização das redes sociais como instrumento de luta. Podemos evidenciar, neste caso, o Facebook, o Youtube, o Twitter e o Weibo como meios de comunicação indispensáveis para o movimento.

Dessa forma, inicialmente faremos uma contextualização histórica. Posteriormente, falaremos sobre o movimento, evidenciando as causas que levaram às manifestações, qual o objetivo, quem são as peças-chave do protesto e o que pensou a China sobre o assunto. Por fim, demonstraremos de que forma as redes sociais auxiliaram na propagação e fortalecimento do movimento “Occupy Central with Love & Peace” e seus desdobramentos na mídia internacional.

 

CONTEXTO HISTÓRICO DOS

PROTESTOS EM HONG KONG

A ilha de Hong Kong foi, em 1842, cedida à Grã-Bretanhã por meio do Tratado de Nanquin, visando objetivos comerciais e servindo como entreposto comercial de trocas entre mercadorias internacionais e o mercado interno chinês. No entanto, com o passar dos anos e através da Revolução Industrial, Xangai destacou-se com seu desenvolvimento. Com a Primeira Guerra Mundial, a luta entre nacionalistas e comunistas, a invasão da China pelo Japão e a Guerra do Pacífico, banqueiros e empresários de Xangai deslocaram-se para Hong Kong, inserindo a ilha no jogo financeiro global segundo as regras do Ocidente (OLIVEIRA, 1997).

A ilha fora escolhida desde o início como ícone do processo de reunificação da China, juntamente com Taiwan e Macau. Em 1997, Hong Kong retornou à soberania chinesa, embora nunca tenha realmente perdido a sua influência, pois segundo Oliveira (1997, p. 8): “Uma pesquisa feita em 1986 mostrou, por exemplo, que menos de 25% da população de HK falava inglês” . Portanto, Hong Kong ligava o território chinês com o resto do mundo e, hoje em dia, tem importância por ser considerada uma cidade global (OLIVEIRA, 1997).

Além disso, a ilha é considerada pela China como uma Região Administrativa Especial, possuindo autonomia para gerenciar seus negócios internos. No âmbito político, “De acordo com a Declaração Conjunta, o chefe de governo será escolhido pelo caminho de uma eleição ou de urna consulta localmente organizada e a Lei Básica estipula que será eleito por um grande colégio eleitoral, composto por 400 membros” (OLIVEIRA, 1997, p.10), sendo que a decisão final cabe à China. O Gabinete Ministerial também tem seus membros indicados, mas são definitivamente aprovados pela China. O legislativo elege 25% de seus membros por meio da eleição direta e o restante cabe ao Colégio Eleitoral decidir. O judiciário exerce suas funções com independência e imunidade desde que esteja de acordo com a Lei Básica da China. (OLIVEIRA, 2012) De maneira geral, Hong Kong possui a liberdade de tomar decisões desde que estejam de acordo com os interesses chineses.

No entanto, desde o início do ano de 2014, Hong Kong passou por uma convulsão social devido à luta por reformas políticas e eleições democráticas que estivessem de acordo com as normas internacionais.

 

OCCUPY CENTRAL E A REVOLUÇÃO

DOS GUARDA-CHUVAS

O movimento Occupy Central foi criado em 2013 pelo professor de Direito Benny Tai Yiu-ting da Universidade de Hong Kong. O principal objetivo era a elaboração “de um movimento não-violento, de ação direta e que exigia o sufrágio universal, em conformidade com o direito internacional, e particularmente o direito ao voto direto e o direto a concorrer e ser eleito sem nenhum tipo de restrição” (OCCUPY CENTRAL WITH LOVE AND PEACE, 2014, on-line).

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Os protestos em Hong Kong que ficaram conhecidos como Revolução dos Guarda-Chuvas

Em 2014, Hong Kong foi palco de uma grande quantidade de protestos. Todas essas movimentações começaram quando, em setembro do referido ano, a Federação dos Estudantes de Hong Kong e o Scholarism, ambos movimentos estudantis, saíram às ruas para protestar contra diversos boicotes sofridos por eles, invadindo a Praça Cívica no centro da cidade e atraindo uma multidão de apoiadores dos movimentos. Foi nesse momento que o Occupy Central fez o anúncio oficial de sua campanha “Occuppy Central With Love and Peace” – Ocupar o Centro com Amor e Paz – dando início a todo o cenário dos protestos pró-democracia que ocorreram na ilha. Além disso, o anúncio da resolução do governo chinês que limitava o número de candidatos que concorreriam ao cargo de administrador da ilha e que os escolhidos deveriam ser aprovados por Pequim antes de estarem entre os três concorrentes definitivos ao cargo agravou ainda mais a situação (EL PAÍS – BRASIL, 2014, on-line; ZH-Notícias, 2014, on-line).

Nesse contexto, o principal precursor e catalisador das manifestações foi o movimento Occupy Central With Love and Peace que, em conjunto com os estudantes de universidades, buscou organizar protestos mais centralizados, mas que tomaram proporções gigantescas ao irem ganhando cada vez mais seguidores e participantes. Após atingirem tamanha amplitude, os protestos ficaram conhecidos como a Revolução dos Guarda-Chuvas, em referência, não só aos guarda-chuvas usados para proteção dos manifestantes contra o spray de pimenta e o gás lacrimogêneo utilizados pela polícia, mas também, ironicamente, ao fato de a China ser detentora de 70% da fabricação mundial desses objetos. Além disso, as manifestações também foram intituladas de Primavera Chinesa referindo-se à Primavera Árabe, exigindo o direito ao voto durante as eleições que estão marcadas para o ano de 2017 (EL PAÍS – BRASIL, 2014, on-line; WIKIPÉDIA, 2014, on-line).

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Manifestantes usando guarda-chuvas durante os protestos em Hong Kong

Os protestos e manifestações em Hong Kong ocorreram não somente pelo fato de a resolução publicada pela China ter limitado o número de candidatos às eleições, mas sim porque o sistema político de Hong Kong sempre foi subordinado às vontades do governo chinês, quadro que se mostra destoante do que foi acordado com o Grã Bretanha durante o processo de transferência da ilha para o comando da China em 1997. Após todo o processo, a implementação da Lei Básica hongkoniana, aceita tanto pelos chineses quanto pelos ingleses, propôs que, ao completar 20 anos de unificação, seriam realizadas eleições democráticas para a escolha do novo presidente e que os dois sistemas – o de Hong Kong e o da China – serão mantidos até 2047 e que, após esse tempo, caberá a chineses a decisão de se manter ou não essa duplicidade (EL PAÍS – BRASIL, 2014, on-line; G1, 2014, on-line; BBC – BRASIL, 2014, on-line).

A conjuntura vivida por Hong Kong desde 2007 é o de uma promessa por parte da China de que a população teria direito ao sufrágio universal, ou seja, todos poderiam votar e escolher o candidato de sua preferência. Porém, a realidade desde então é a de que os eleitores de cada região só podem escolher e votar em um candidato de uma lista previamente elaborada por Pequim. Isso se deve ao fato de que os governantes chineses acreditam que exercer uma democracia representativa de fato, ou seja, possibilitar um cenário em que a população tenha voto aberto e direto para escolher quem os representaria, difere do sistema político vigente na China continental.

 

 AS REDES SOCIAIS EM AÇÃO DURANTE

OS PROTESTOS EM HONG KONG

O movimento alcançou uma grande repercussão mundial na época, sendo alvo de matérias de grandes jornais da imprensa internacional. Pode se dizer que isto aconteceu devido uma estratégia que combina o engajamento político da sociedade hongkoniana e, principalmente, o uso massivo das redes sociais para a articulação.

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Utilização massiva das redes sociais nos protestos em Hong Kong

Foi utilizado um variado leque de sites de comunicação social para a articulação e divulgação do movimento, como um site e um blog próprio da Occupy Central with Love & Peace, além da página no Facebook, o Instagram, o Twitter, o Youtube e o Weibo, uma espécie de “Twitter” bastante utilizado pelos orientais. Na conta do Youtube, por exemplo, há vídeos curtos e animados mostrando de maneira bastante fácil a compreensão do que é o movimento e pelo o quê ele luta, levando a informação a pessoas de todas as faixas etárias. No site, há bastante foco em instruções para que o movimento seja pacífico, divulgação de informações a respeito do direito perante algum ato da polícia. Já o Twitter, mais dinâmico, tem a característica de reunir pequenas análises de setores diferentes de comunicação que mostram desde as consequências do movimento, até números de relatos de abusos e censura.

Devido ao fato de o Facebook e outras mídias sociais não serem permitidos na China, o Instagram e a ferramenta de compartilhamento de fotos do Facebook, por exemplo, enfrentaram algumas dificuldades no seu uso durante os dias dos protestos em Hong Kong. O mesmo aconteceu com diversos tipos de mensagens com hashtags que tinham ligação com protestos. Assim, a população de Hong Kong teve de encontrar uma outra forma de se comunicar. A alternativa foi o aplicativo FireChat, programa que realiza conexões feitas entre dispositivos que estão próximos fisicamente, com uma margem de 60 metros entre um usuário e outro, e que tem esse raio ampliado conforme mais pessoas estejam usando a rede nas proximidades. Em lugares com muita gente, como no caso dos protestos de Hong Kong, o alcance da tecnologia chega a ser de quilômetros. O uso foi tanto que, segundo a empresa desenvolvedora do aplicativo, a Open Garden, o aplicativo teve mais de 100 mil novos usuários cadastrados durante os movimentos e registrou cerca de 33 mil pessoas usando-o simultaneamente (UOL, 2014 – online).

Essa mobilização toda dividiu as opiniões da imprensa. Por um lado, todo o esforço e barulho causado, aparentemente não resultou em nada. O governo de Hong Kong não se mexeu uma polegada e as manifestações parecem ter tido pouco efeito numericamente mensurável sobre a opinião pública. Por outro lado, as ocupações chegam a ser denominadas pela revista inglesa Varsity como um “despertar cívico”. Além disso, o governo chinês se mostrou mais receptivo ao diálogo do que esperavam alguns, e sentou para discutir os protestos com o líder do grupo Occupy Central.

O que podemos concluir é que, claramente, uma articulação bem construída de ideias através do uso da Internet e de grupos e redes sociais pode causar bastantes mudanças, tanto políticas, quanto sociais, além de trazer à tona discussões e debates sobre problemas antigos e novos de uma sociedade ou de várias. Certamente, como pontuou a revista “Varsity”, podemos enxergar o Occupy Central with Love & Peace como um marco cívico, que alterou e contribuiu para a história e desenvolvimento da democracia de Hong Kong.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BBC, Brasil. Hong Kong é palco de protestos pró democracia. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/09/140929_hong_kong_entenda_pai>. Acesso em: 13 dez. 2015

 

EL PAÍS. As chaves para entender a mobilização em Hong Kong. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/01/internacional/1412152243_464839.html>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

EL PAÍS. Essa China. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/01/internacional/1412187988_918975.html>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

EL PAÍS. Conheça os protagonistas da revolta dos Guarda-Chuvas em Hong Kong. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/02/internacional/1412265151_694293.html>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

EL PAÍS. Hong Kong realiza uma grande manifestação para pedir mais democracia. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/30/internacional/1404147230_070749.html>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

FERNANDES, Jorge Almeida. A Revolução do Guarda-Chuva. Disponível em: <http://www.publico.pt/mundo/noticia/a-revolucao–do-guardachuva-1671683>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

GLOBO NEWS, Entenda os protestos em Hong Kong, a primavera chinesa. Disponível em: <http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2014/10/entenda-os-protestos-em-hong-kong-primavera-chinesa.html>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

NOTÍCIAS, Zh. O que motiva os protestos em Hong Kong. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/o-que-motiva-os-protestos-em-hong-kong-4610469.html>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

OBSERVADOR. Grupo pró-democracia ocupa centro de Hong Kong. Disponível em: <http://observador.pt/2014/08/31/grupo-pro-democracia-ocupa-centro-financeiro-de-hong-kong/>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

(OCLP), Occupy Central With Love And Peace. Occupy Central with Love and Peace. Disponível em: <https://oclphkenglish.wordpress.com/occupy-central-with-love-and-peace/>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

OLIVEIRA, Amaury Porto de. Hong Kong: Metrópole Chinesa e Cidade Global. 2012. Disponível em: <http://www.iea.usp.br/publicacoes/textos/oliveiracidadeglobal.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

OLIVEIRA, Henrique Altemani de. A Região Administrativa de Hong Kong: Aspectos estruturais no pós-97. 1997. Disponível em: <http://www.iea.usp.br/publicacoes/textos/oliveirahongkong.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

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UOL. Com internet paralela, protestos em Hong Kong driblam censura chinesa. Disponível em: <http://gizmodo.uol.com.br/protestos-hong-kong/>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

WIKIPÉDIA. Occupy Central with Love and Peace. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Occupy_Central_with_Love_and_Peace>. Acesso em: 11 dez. 2015.

 

WIKIPÉDIA. Protestos em Hong Kong em 2014. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_em_Hong_Kong_em_2014>. Acesso em: 12 dez. 2015.

 

YOUTUBE. Occupy Central with Love and Peace. Disponível em: <https://www.youtube.com/user/OCLPHK>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

FACEBOOK. Occupy Central with Love and Peace. Disponível em: <https://www.facebook.com/OCLPHK/>. Acesso em: 11 dez. 2015.
ZH NOTÍCIAS. O que motiva os protestos em Hong Kong. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/o-que-motiva-os-protestos-em-hong-kong-4610469.html>. Acesso em: 13 dez. 2015.

 

Por Lara Aguiar Fernandes, Letícia Martins de Osti e Thiago Ribeiro Vieira, diretamente de Marília, SP, Brasil

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