Nova Versão de Mulan e sua Importância

As cenas iniciais da animação apresentava a protagonista ao som de uma canção em que outras personagens entoavam a necessidade de Mulan “honrar a todas nós”, referindo-se às ações da garota dentro da sociedade chinesa. Mas, ao longo do filme, a personagem mostrou uma diferente forma de cumprir essa “missão” e se tornou um símbolo capaz de honrar o poder feminino, além de representar a cultura de uma nação em uma grande produção cinematográfica ocidental. Recentemente, a nova versão de Mulan foi anunciada pela Disney para 2018, mas criou intensos debates sobre racismo e representatividade. Mas por que os chineses estão tão preocupados? E qual a importância de Mulan? Saiba mais a seguir:

 

nova versão de Mulan
Nas cenas iniciais do filme, Mulan enfrenta as pressões da sociedade da época

 

História do Filme

Mulan é um filme estadunidense, da categoria de animação, lançado em 1998 pelos estúdios Disney. Muito bem recebido pela crítica, arrecadou mais de 300 milhões de dólares em bilheteria em todo o mundo. O enredo do filme se passa na China durante a Dinastia Han (206 a.C a 220 d.C). Quando seu pai doente é recrutado para a guerra, Mulan decide se disfarçar de homem, para lutar em seu lugar no exército chinês exclusivamente masculino. Após uma grande transformação e intensos treinamentos, Mulan acaba conseguindo não somente salvar a vida de seu pai, mas toda a China.

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A guerreira Mulan quebrou estereótipos das protagonistas das animações da Disney

 

Importância da Personagem

Mulan é constantemente lembrada como uma das mais importantes personagens da Disney, indo contra os estereótipos das princesas que protagonizavam os principais desenhos dos estúdios até então. Um dos debates criados pelo filme é justamente sobre a temática do contexto social da época na China e o “papel” das mulheres dentro dessa sociedade extremamente tradicional do período retratado. Desde o início da animação, Mulan demonstra a falta de adaptação às imposições sofridas: ela não se adequa às expectativas criadas para ser uma mulher submissa ou para desempenhar o modelo visto como o de uma esposa “perfeita” no país. Com o desenrolar da história, ela se consagra por sua força, sabedoria e sua personalidade corajosa, sacrificando-se em nome de sua família e se tornando uma representação de empoderamento feminino.

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Mushu, companheiro de Mulan, é um dragão – um símbolo da cultura do país

A importância de Mulan ainda pode ser associada à sua representatividade racial: uma protagonista chinesa dentro de um hall de personagens tomados majoritariamente por padrões ocidentais. O filme é permeado, então, por importantes símbolos chineses, desde suas paisagens a costumes – como exemplo, o fiel companheiro da personagem é Muchu, um dragão que traz à tona essa importante figura da cultura chinesa. E a importância  dessa representatividade é uma das questões que gerou intensos debates sobre a nova versão de Mulan de 2018.

 


“A Balada de Mulan”

A história do filme é baseada na lenda chinesa de Hua Mulan, uma heroína que teria se disfarçado de homem para entrar em um exército militar exclusivamente masculino. Essa lenda é descrita na famosa cantiga chinesa chamada “A Balada de Mulan”, datada do século VII. Discutiu-se muito sobre a real existência de Hua Mulan ou apenas seu caráter fictício, mas até os dias atuais, não foi possível comprovar se a personagem e a canção foram baseadas em fatos. Mesmo assim, “A Balada de Mulan” continuou sendo entoada no país e fez com que a história fosse repassada ao longo dos séculos.

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A canção de Hua Mulan inspirou a personagem da animação

 

Abaixo, um  pequeno trecho da canção:

“(…) Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,
Khan está convocando muitos soldados.

Uma dúzia de listas rascunhadas,
cada uma com o nome de seu pai.

O pai não tem um filho crescido,
Mulan não tem irmão mais velho.

Ela decide adquirir um cavalo e sela,
e alistar-se em lugar de seu pai.

No mercado leste, ela compra um cavalo,
no mercado oeste, uma sela.

No mercado norte, ela compra um freio,
e, no mercado sul, um longo chicote.

À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe,
ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo (…)”

 

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Uma produção chinesa de 2009 contou a história de Hua Mulan

 

A Nova Versão de Mulan: live action

No último dia 4, a Disney confirmou oficialmente que está produzindo uma nova versão de Mulan em live action, ou seja, uma versão da animação de 1998 com atores reais. Também foi informada a data prevista de estreia do filme: seria em 2 de novembro de 2018. Sobre a equipe do longa, Rick Jaffa e Amanda Silver ( de Jurassic World) foram confirmados para reescrever o roteiro. A revista “The Hollywood Reporter” afirmou que o estúdio planeja um filme mais sutil e elaborado, que consiga combinar tradições chinesas e elementos utilizados na trama da animação original.

A decisão para a produção da nova versão de Mulan pode ser atribuída ao fato de que os estúdios Disney vêm investindo cada vez mais em adaptações em live action nos últimos anos. Mulan agora se juntará ao cada vez maior grupo de versões com pessoas reais de filmes clássicos da Disney como: Cinderela (2015), Mogli- o Menino Lobo (2016), Alice no País das Maravilhas (2010),  Malévola (2014), e o já anunciado “A Bela e a Fera” (2017), além de pelo menos mais sete filmes em fase de projeto.

 

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A nova versão de Mulan reacendeu o debate sobre representatividade no cinema

 

Repercussão na China: e a representatividade?

Quando as informações sobre a o projeto para a nova versão de Mulan começaram a ganhar força, a notícia deveria ser recebida com grande entusiasmo entre os fãs do filme, não somente por poderem reviver uma das principais histórias de animações de todos os tempos, mas também pela versão live action trazer a oportunidade de tornar ainda mais palpável a experiência de estar em contato com as paisagens, tradições e culturas chinesas. Entretanto, a repercussão não foi tão positivamente unânime no início.

Isso porque, juntamente com a notícia do projeto da nova versão de Mulan para os cinemas, chegaram as especulações de que a atriz que viveria o ícone chinês Mulan, poderia não ser, na verdade… chinesa!

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Matt Damon é protagonista de ” A Grande Muralha”(2017)

Essa informação foi resultado do comunicado oficial da Disney ao anunciar a adaptação, onde afirmava que a nova versão de Mulan seria “na sua maior parte” formada por um elenco chinês. Ou seja, mostrava a existência de uma brecha para que os estúdios não fossem tão fieis aos personagens da trama original, podendo contratar atores estrangeiros e até mesmo, não orientais. Com medo de um “embranquecimento”, os chineses movimentaram a internet e realizaram uma petição que protestava sobre a necessidade da correta representação do filme, ou seja, com atores chineses interpretando personagens chineses. A petição contra o “embranquecimento” da nova versão de Mulan juntou até o momento mais de 105.000 assinaturas!

O assunto levou ainda à intensa discussão sobre o que os chineses classificaram como uma postura racista de Hollywood, que frequentemente escala atores ocidentais para viver personagens orientais. Um dos casos mais recentes citados foi o do filme “ A Grande Muralha”(2017), no qual o protagonista que defende esse importante Patrimônio da Humanidade chinês é vivido por Matt Damon, um dos mais conhecidos atores estadunidenses.

 

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Os chineses criaram petição para a nova versão de Mulan nos cinemas

 

Vai ter Mulan oriental?

A petição chinesa para a nova versão de Mulan reacendeu o debate sobre o racismo em Hollywood e tornou as discussões um tema de repercussão mundial. Não foi à toa que a Disney anunciou que já está na busca por uma atriz de traços orientais que representará a protagonista. São especulados na mídia nomes como Katie Leung (britânica, mas de descendência chinesa), Jamie Chung (estadunidense, descendentes de coreanos) e Zhang Ziyi (chinesa). Entretanto, ainda não há nenhuma confirmação sobre o elenco.

A China é atualmente o segundo principal mercado cinematográfico no mundo e os estúdios que se preocupam com o sucesso de suas produções devem estar muito atentos às demandas chinesas. Ainda mais com Mulan, uma personagem tão icônica e representativa, seria extremamente incoerente optar por um “embranquecimento” do filme na versão em live action. A petição online ainda está aberta a assinaturas e pode ser considerada como um reflexo de um público que não está sendo agradado pela falta de representatividade nas produções cinematográficas ocidentais.

Em 2018, poderemos conferir se as expectativas serão cumpridas e se a nova versão de Mulan irá repetir nas telas uma personagem capaz de “honrar a todas nós”.

 

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

FONTES: Shanghaiist,Epoch Times, G1, IMDB, Disney.

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