As Mulheres na China e o Feminismo

Em março, é destacado o chamado Dia Internacional da Mulher, uma data que deveria ser considerada para relembrar a necessidade da luta por direitos iguais entre homens e mulheres. E, como na maioria dos países do mundo, o dia é considerado anualmente nos calendários chineses. Mas você conhece quais os problemas enfrentados na sociedade pelas mulheres na China? Sabe como funciona o movimento feminista no país? Conheça mais abaixo sobre algumas dessas questões:

 

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As mulheres na China enfrentam vários desafios em sua busca por igualdade

 

O Dia Internacional da Mulher

Anualmente, o dia 8 de março é tido como o Dia Internacional da Mulher, sendo uma data reconhecida na maioria dos países do mundo. A ideia de se estabelecer um Dia Internacional da Mulher teve origem no século XIX, mas foi no século XX que vários acontecimentos marcantes fortaleceram tal planejamento. Um dos mais simbólicos foi o incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, em março de 1911, quando 149 pessoas morreram ( em sua maioria mulheres), revelando as duras condições de trabalho a quais as mulheres eram submetidas no local.

 

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Protesto sobre o incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, nos EUA, um dos marcos para o movimento feminista

 

A data de 8 de março começou a ser estabelecida poucos anos depois, com movimentações sociais e protestos na Rússia que, em 1917, foram realizados entre 23 de fevereiro a 8 de março. Tais manifestações culminaram na abdicação do czar russo na época e no estabelecimento de um governo provisório, que estabeleceu o direito ao voto às mulheres no país. Assim, o 8 de março foi sendo incorporado por outras nações com o passar dos anos, sendo oficializado em 1975 pela ONU como o dia representativo para a luta por direitos iguais às mulheres, além de relembrar que tal igualdade ainda não foi alcançada.

 

 

O 8 de Março na China

O Dia Internacional da Mulher é celebrado de maneiras diferentes ao redor do mundo. Na China, o 8 de março foi incorporado no calendário nacional no ano de 1922, e o dia acabou ganhando um peso comercial muito grande, servindo como uma espécie de instrumento de marketing para aumentar a venda de produtos voltados às mulheres.  Assim, é muito comum que os homens chineses comprem presentes às suas mães, companheiras e filhas nessa data. Além disso, as mulheres chinesas geralmente têm um feriado de meio período, onde estão dispensadas de trabalharem durante metade do dia.

 

 

 

As Mulheres na China

De acordo com os dados demográficos mais recentes referentes ao ano de 2016 ( mas excluindo as regiões de Hong Kong, Macau e Taiwan), a população chinesa era estimada em 1,38 bilhão de pessoas. Desse total, cerca de 708,15 milhões eram homens, enquanto 674,56 milhões eram mulheres. Estima-se que, para cada 100 mulheres na China, há aproximadamente 105 homens. Esses dados apontam um problema relevante acerca da proporção de gênero no país, que teria sido construído muito devido a antigas questões culturais, que se mostram ainda presentes na sociedade chinesa atual, além de medidas governamentais.

Na China, a preferência por um filho homem é uma tradição bastante arraigada na sociedade. Isso porque, no país, a linhagem de sangue é repassada pela parte do homem, enquanto as mulheres, ao se casarem, passariam a “pertencer” à família de seus maridos, tendo o “dever” de cuidar de seus sogros, e não mais de seus próprios pais. Por isso, o nascimento de uma filha, em geral, não é tão celebrado quando o de um filho.  Nas últimas duas décadas, com o surgimento de novas tecnologias, como o ultrassom, a prática do aborto seletivo aumentou ainda mais: muitos chineses decidem interromper a gravidez ao terem conhecimento de que seu bebê é uma menina. Os efeitos dessa tradição de preferência por filhos homens foram agravados ainda mais diante da política do filho único, em 1979, que gerou uma maior disparidade demográfica entre homens e mulheres na China.

 

 

O Impacto da Política do Filho Único

 

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A política do filho único impactou na demografia chinesa

 

Na década de 1970, a população chinesa já se aproximava cada vez mais da marca do 1 bilhão de pessoas, o que passou a gerar preocupação governamental sobre seus efeitos acerca dos objetivos de crescimento econômico do país. Assim, no ano de 1979, a chamada Política do Filho Único passou a valer em toda a China, estabelecendo às famílias chinesas o limite de terem apenas um único filho. Com isso, o governo oferecia medidas como incentivos financeiros e profissionais para aqueles que cumprissem a política, além de fornecer contraceptivos e multar quem desrespeitasse as regras.

Entretanto, medidas coercitivas também ocorreram, sendo vistos casos de aborto forçado e esterilização em massa. A tradição chinesa da preferência pelo filho homem teve um impacto ainda maior sobre a população quando aliada à política do filho único. Foram registrados uma elevada taxa de abandonos de meninas em orfanatos, abortos seletivos de acordo com o sexo do bebê e até mesmo casos de infanticídio feminino. A controversa política gerou debates sobre a questão não só na China, mas internacionalmente, e, de acordo com ativistas, tais regras representaram uma forma de violação aos direitos humanos e das liberdades reprodutivas.

A política do filho único gerou um grande desequilíbrio entre o número de homens e mulheres na China, e, de acordo com estatísticas do governo, as medidas teriam impedido cerca de 400 milhões de nascimentos durante o período de vigência. A polêmica política foi abandonada oficialmente somente em 2015, devido, principalmente, aos impactos sobre a demografia chinesa. Atualmente, estima-se que até 2050, a China apresentará um quarto de sua população acima dos 65 anos e a taxa de fertilidade já é muito abaixo do necessário para substituir a população a cada geração. Assim, com menos jovens, e, portanto, menos pessoas em idade ativa, a economia do país poderia conhecer uma desaceleração nas décadas seguintes.

Assim, o governo chinês mudou seu tom, estabelecendo regras mais flexíveis, agora não só permitindo, como incentivando o segundo filho. Mas, mesmo assim, ainda percebe-se uma baixa taxa de natalidade no país, que acaba prolongando a disparidade numérica entre os sexos e as preocupações demográficas.

 

 

As “Mulheres que Sobraram”

 

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“Nós somos solteiras, mas não “mulheres que sobraram” – Mulheres chinesas se recusam a serem pressionadas a casar

 

A China é um país de características sociais ainda bem patriarcais, e as figuras da família e do casamento ainda são vistas com muita importância em sua população. E, com os problemas demográficos, o gigante asiático vivencia um número cada vez maior de chineses solteiros, o que acarreta situações como os vilarejos de solteiros e os mercados de noivos. Mas, entre as mulheres, a pressão para o casamento e constituição de família é ainda maior. No país, utiliza-se inclusive uma expressão, “sheng nu”, que seria algo como “as mulheres que sobraram”, para designar as mulheres na China com mais de 27 anos e que estão solteiras.

A necessidade de respeito aos pais é algo muito forte na cultura chinesa, e não se casar depois de atingir certa idade, é visto por muitos como uma forma de desrespeitar sua família. Acredita-se que uma mulher que não se casou ainda é vista como “incompleta”.  E, de certa forma, o próprio governo chinês, que busca medidas que resultem no aumento da taxa de natalidade do país, tem contribuído com o aumento dessa pressão sobre as mulheres na China. Para incentivar o aumento demográfico de sua população, o governo não só vem investindo em medidas de incentivo ao segundo filho, como também tenta influenciar sobre a pressão de as mulheres chinesas priorizarem mais o casamento, o que fortalece e veicula a ideia das “sheng nu”.

 

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A importante tradição do casamento para os chineses cria uma pressão sobre as mulheres solteiras

 

A questão é que, com a modernização da sociedade, as mulheres na China estão cada vez mais priorizando suas carreiras e o sucesso profissional, deixando em segundo plano a tradicional ideia de constituição de família e casamentos. Entretanto, a ideia de receber o rótulo de uma “mulher que sobrou” não passa despercebida pelas chinesas, que sofrem com uma injusta pressão social e notam que ainda há muito que se percorrer para desarmar certas pressões influenciadas pelas tradições do país.

Mesmo assim, a ideia de as mulheres na China verem como opções viáveis continuarem solteiras e desejarem ser independentes, são vistas como uma tendência a crescer ainda mais nos próximos anos, sendo um sinal de que a passividade frente às tradições e pressões sociais não será bem o caminho escolhido por muitas delas.

 



A Segunda Mulher

Outra questão que dialoga com a situação das mulheres na China e tradições antigas é a das chamadas  “er nai”, ou, “segunda mulher”.  São as ainda conhecidas como “concubinas modernas”,  as amantes de um homem já casado, uma prática que era comum entre os antigos imperadores chineses, mas banida por Mao Zedong em 1949. Ter uma segunda mulher retratava um significado de “poder” dos homens, já que, mantê-las, era visto como um sinal de riqueza, pois essas mulheres ganhariam muitos presentes e despesas pagas pelo amante.

 

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As “concubinas” eram uma tradição dos imperadores chineses

As esposas desses homens geralmente sabem da existência das segundas esposas e das despesas que seus maridos têm com elas, mas, em sua maioria, elas tendem a manter seu casamento. A retomada dessa prática entre os homens na China é relacionada ao crescimento econômico do país, que, portanto, resultou em mais chineses com condições financeiras para manter uma segunda mulher. O fenômeno, ainda, pode ser visto como mais um símbolo de desigualdade entre homens e mulheres na China.

 

Padrão de Beleza

O que é bonito para você? Na China, assim como nos demais países do mundo, há certo padrão de beleza que costuma ser veiculado nas mídias como sendo o ideal, e que sofrem algumas mudanças ao longo do tempo. E, com as mulheres, esse padrão de beleza é visivelmente mais exigente, o que acaba por acarretar diversas transformações de comportamento, podendo levar a riscos à saúde e mudanças corporais preocupantes.

 

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Um padrão de beleza chinês é imposto principalmente às mulheres

 

Se durante séculos os pés muito pequenos e deformados, os chamados pés de lótus, adquiridos durante um longo e doloroso processo, eram tidos como os ideais para as mulheres, hoje em dia a imagem do que é imposto como belo é outra.
padrão de beleza chinês para as mulheres atual demonstra preferência por um rosto oval, uma pele mais branca possível e cabelos lisos. Já o corpo imposto como ideal é visto como o extremamente magro e fino (muitas vezes abaixo do peso considerado como saudável de acordo com as métricas do IMC), e, ainda, há a questão dos quadris estreitos.
Além disso, a influência ocidental trouxe a busca por pessoas mais altas e olhos maiores. Por isso, principalmente entre as mulheres na China, intervenções estéticas estão cada vez mais comuns quando o quesito é a busca pelo padrão de beleza, o que também acaba influenciando na movimentação bilionária (e crescente) dessa indústria no país. Cirurgias nas pálpebras para aumentar os olhos, cremes clareadores para atingir um tom de pele pálido e até cirurgias para crescer alguns centímetros estão entre as opções escolhidas por muitas mulheres na China como uma forma de tentar se “adequar” ao que é imposto a elas quando o quesito é a aparência física.

 

Feminismo na China

Primeiramente, você sabe o que é feminismo?

Em poucas palavras, o feminismo seria um movimento social e político cujo objetivo é alcançar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres.

 

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Ato público contra a violência doméstica contra as mulheres na China

 

E como é esse movimento na China?

Como já retratamos anteriormente, o feminismo na China não é um movimento recente, tendo suas raízes durante a Revolução Comunista de Mao Zedong, em 1949. O Partido Comunista Chinês, ao chegar ao poder, se viu movido pelo objetivo de desenvolvimento econômico do país, e, por isso, mostrou práticas de incentivo à emancipação das mulheres na China e a seu ingresso no mercado de trabalho. Mas, com as reformas posteriores de Deng Xiaoping, a competição com os homens no âmbito profissional escancarou desigualdades e retrocessos, evidenciando salários inferiores aos dos homens, casos de violência, abuso sexual e tráfico de mulheres na China. Assim, surgia uma nova guinada no movimento feminista no país, com uma diferente consciência de emancipação feminina. Com uma diferente abordagem, o movimento feminista passou a incomodar o governo chinês, o que acarretou em casos considerados como de repressão estatal e trouxe ainda mais à tona as polêmicas relacionadas aos direitos das mulheres chinesas.

 

As “Cinco Feministas” da China

 

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Campanha realizada na internet para a libertação das “5 feministas” da China

 

Em 2015, cinco chinesas ativistas, já famosas por suas campanhas para chamar a atenção para questões de desigualdade de direitos das mulheres na China, foram presas por planejarem uma panfletagem contra o abuso sexual a mulheres em transportes públicos, que ocorreria no Dia Internacional da Mulher, naquele mesmo ano. Uma semana antes da data prevista, as mulheres, que ficaram conhecidas como as “cinco feministas” da China, foram detidas sob a acusação de “provocar confusão e criar problemas”, mesmo antes de darem início à campanha. As ativistas foram liberadas após o pagamento de fiança e a repressão estatal chinesa ganhou lugar nas manchetes ao redor do mundo, recebendo inclusive pressão internacional de países e ONGs acerca da necessidade do respeito aos direitos humanos e à igualdade de direitos para as mulheres na China.

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O movimento feminista repaginado e mais ativo vem fornecendo uma nova roupagem à luta pelos direitos iguais às mulheres na China. O gigante asiático que despontou como uma imensa potência econômica mundial é também conhecido por ser um país onde a tradição e a modernidade andam lado a lado. Mas essa características não são visíveis apenas nas atrações turísticas de suas cidades: nas entranhas de sua sociedade, tal característica de dualidade também é perceptível, e em relação às mulheres, é bem evidente. Seja na repaginada herança das “er nai” dos antigos imperadores, na busca pela independência que esbarra na ideia das “mulheres que sobraram”, ou nas imposições não tão invisíveis dos padrões de beleza, essas arcaicas amarras da sociedade chinesa ainda criam certas barreiras para o empoderamento feminino. Entre as mais modernas tecnologias e um espantoso progresso econômico, ainda há algo de anacrônico: uma visão do passado que tenta persistir por meio de tradições que até mesmo são influenciadas por algumas políticas governamentais.

Com as transformações políticas, econômicas, sociais e tecnológicas, é visível que as mudanças de posicionamento das mulheres na China em relação às suas realidades e anseios vêm atingindo novos patamares nos últimos anos, e cuja tendência é a de continuar crescendo nos próximos. Há muito mais que cinco feministas entre as mulheres na China; há muito mais pessoas que vêm pontuando a necessidade de mudanças para que seja alcançada uma maior igualdade entre homens e mulheres.

Mas as desigualdades existentes entre gêneros não são exclusividade da China e se mostram presentes em todo o restante do globo, nas formas mais visíveis e nas quase imperceptíveis. O Dia Internacional da Mulher é apenas uma data escolhida para representar a necessidade pela igualdade de direitos que, em sua realidade, é incessante. E o caráter essencial de mudanças nessas questões não deve ser exaltado apenas uma vez ao ano. É preciso entender que, entre as 5 e o 8, a representatividade buscada pelas mulheres como a mais importante não é a numérica. A luta é diária e continuará sendo constante.

E você, o que pensa sobre os desafios das mulheres na China?

Fontes: El País, BBC, CNN, The Telegraph, Independent, The Guardian, The Economist, China Daily, Estadão, Notícias Terra, China Highlights, Shaghaiist e What’s on Weibo.

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