Crescimento Chinês: qual o hormônio do desenvolvimento na China?

Sabemos que o crescimento chinês vem transformando o mundo e alguns fatores cruciais contribuíram para o milagre econômico da China. Vamos examinar como esses fatores levaram o PIB da China a níveis sem precedentes e sua estratégia para mantê-lo nas alturas.

 

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Shanghai, a capital financeira da China

 

Para compreender a atual conjuntura econômica e política da China, é preciso conhecer a trajetória de Xi Jinping, presidente da República Popular da China, e os tais fatores cruciais mencionados anteriormente. São eles: uma população gigantesca, uma produção eficiente e intensa, e o capital, ou seja, seu fator total de produtividade (TFP). A combinação destes três fatores é o que impulsiona o supreendente crescimento chinês.

Considerando que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de um país refere-se ao PIB do país dividido pela sua população, é um indicador de desempenho econômico em relação ao tamanho do crescimento de um determinado país. Desde as reformas econômicas da China em 1978, sua taxa anual de crescimento per capita do PIB foi estável em torno de 9%, um desempenho notável, dado que os Bancos Mundiais já consideram excelente uma taxa de crescimento de PIB per capita de 2%.

 

 

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Gráfico do potencial de crescimento chinês

 

 

No gráfico acima, é possível analisar, entre 2000 e 2012, como o estoque de capital físico representou mais da metade da taxa de crescimento chinês. O fator total de produtividade da China contribuiu para um terço do seu crescimento, enquanto a força de trabalho foi vital durante o período anterior.

 

Processo de Industrialização

Antes da infame política chinesa de filho único em 1979, a China tinha uma taxa de natalidade incrivelmente alta. Isto eventualmente levou a população em idade ativa da China (15-64 anos) a atingir um bilhão em 2014. Esta grandiosa força de trabalho foi uma combinação perfeita para a industrialização, que atende um bilhão de trabalhadores.

Na primeira etapa de uma economia pré-industrial, concentra-se na agricultura, por exigir uma mão-de-obra pouco qualificada, mas muito intensiva. A China seguiu adequadamente o modo asiático de desenvolvimento econômico, passando para a manufatura, que demandava maior qualificação, mas ainda um trabalho intensivo. Dessa forma, a força de trabalho maciça da China passou dos campos para as fábricas. Além disso, as habilidades dos trabalhadores, também conhecidas como capital humano, evoluíram ao mesmo ritmo das fases de desenvolvimento. Os investimentos chineses em capital humano dispararam e fizeram a economia progredir com sua enorme força de trabalho e com as habilidades necessárias.

No início da década de 1990, a demanda por funcionários qualificados aumentou quando os investimentos estrangeiros aumentaram. Investir nas habilidades de uma população e educação beneficia não apenas o indivíduo, mas também a indústria. A produtividade dos trabalhadores aumenta e eles produzem produtos mais avançados, com maior valor agregado. O gráfico abaixo mostra o aumento das admissões em universidades chinesas, particularmente nas áreas urbanas.

 

 

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Gráfico referente as taxas de admissão em universidades chinesas

 

 

A princípio, o serviço de fabricação chinês foi impulsionado pela cultura da “cópia”. Durante a década de 1990 e início dos anos 2000, a China rapidamente se estabeleceu como a casa de produção mundial simplesmente reproduzindo marcas bem conhecidas. Os países desenvolvidos se aproveitaram disso e começaram a terceirizar a produção para a China. Foi dessa forma que o conhecimento técnico entrou no país. O aprendiz logo se tornou o mestre. Com o conhecimento recentemente adquirido, a China conseguiu produzir produtos mais sofisticados e com uma tecnologia de ponta. Os fabricantes chineses rapidamente se tornaram empresas modernas, inovadoras e de alta tecnologia.

Em 2009, a industria pesada japonesa Kawasaki foi designada para construir um sistema ferroviário de alta velocidade na China. Os governos chineses locais pressionaram o japonês a ensinar suas principais tecnologias aos engenheiros chineses. Pouco tempo depois, as empresas chinesas usaram essas mesmas tecnologias para projetos ferroviários terrestres em todo o mundo, o que eliminou a vantagem competitiva que a Kawasaki tinha. Forçar as empresas estrangeiras a compartilhar sua tecnologia se quiserem operar na China é muito normal. Se eles obedecem, seu processo de aprovação regulamentar é muito mais fácil.

Como um camaleão muda de cor, a economia chinesa também muda constantemente. Hoje em dia, os investimentos já não são usados para aumentar a escala, mas sim para suportar alta tecnologia. A nova tecnologia da China produz menos unidades, mas produz maiores lucros. Essa mudança para o setor de tecnologia exige menos mão-de-obra e espera-se que a economia continue crescendo. Novas indústrias como comércio eletrônico com Alibaba; equipamento médico; eletrônica e pagamento móvel com Tencent, maior e mais utilizado portal de serviços de internet da China, estão em ascensão.

O hormônio do crescimento chinês deve-se a uma estratégia de desenvolvimento da nação e a implementação de ações que tem promovido o aumento da participação chinesa no comércio internacional e no desenvolvimento tecnológico, suscitando também um sentimento de empreendedorismo na China.

A transição da China para a tecnologia torna-se evidente quando se dá uma olhada nas enormes despesas do país em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A China gastou 1 bilhão de RMB (US $ 160,6 bilhões) em P&D em 2012. Esse é o segundo maior gasto de P&D no mundo e representa um quinto dos gastos totais em P&D do mundo. A China conseguiu transformar-se em um verdadeiro centro de ciência e tecnologia (S&T). O principal motor para isso foi o 12º plano quinquenal do partido que destina-se a uma economia impulsionada pela inovação no futuro.

 

Capital

O capital também foi um fator importante para sustentar o crescimento da China. A China aceitou com prazer cerca de US $ 170 milhões em investimentos diretos estrangeiros. A maioria desses investimentos entrou no setor de fabricação e serviços.

Entre 2008 e 2014, o crédito da China continuou aumentando, o que gerou lucro e crescimento. Enquanto isso, outro país do modelo asiático de desenvolvimento de capital (ACD), o Japão, restringiu seus empréstimos. Isso resultou em um crescimento do PIB caindo praticamente zero.

No momento, a China está tentando realinhar sua economia. Desde o ano 2000, a parte do setor de serviços do PIB da China cresceu 8% e o setor industrial continua a perder terreno; o governo vai querer manter essa tendência, porque os serviços oferecem melhores oportunidades de crescimento e emprego.

O gráfico abaixo mostra as composições setoriais como uma porcentagem do PIB. Observe a semelhança da composição da China em 2010 com a do Japão em 1980.

 

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Gráfico das composições setoriais da China, EUA e Japão em relação ao PIB

 

Conjuntura atual do crescimento chinês

A China é, desde 2009, o maior parceiro comercial do Brasil. Entre 2006 e 2016, a corrente de comércio triplicou, de US$ 16 bilhões para mais de US$ 58 bilhões. Atualmente, a China já representa um terço do crescimento econômico mundial, com um PIB de 6,9% em 2017, dando sinais de uma conjuntura mais favorável. Essa é a primeira vez desde 2010 que o crescimento chinês acelera em relação ao ano anterior, ultrapassando todas as expectativas.

Então, é possível compreender como a China é capaz de sustentar seu incrível crescimento, através de enormes quantidades de capital, uma força de trabalho aparentemente infinita e em constante desenvolvimento, e um processo de produção eficiente, que adquiriu conhecimento de empresas estrangeiras.

O gigante asiático parece imparável em sua busca por manter o crescimento e superar os obstáculos. Em constante transformação, desloca-se para o setor de alta tecnologia e serviços, que oferecem maiores margens e, portanto, maiores retornos. Trazendo preocupações para os rivais no nordeste asiático, como o Japão e a Coréia do Sul.

Uma das lições da estratégia chinesa para os países em desenvolvimento é a possibilidade de se desenvolver economicamente sem utilizar o receituário do Consenso de Washington através de estratégias alternativas ao Ocidente. Para isso, é preciso identificar os agentes econômicos e, considerando-os, definir objetivos de curto, médio e longo prazo e promover ações efetivas para alcançá-los.

Diante disto, o crescimento econômico chinês não pode ser mais explicado, exclusivamente pelos fundamentos tradicionais – baixo custo da mão-de-obra, abundância de recursos, produção sem valor agregado, etc. -; agora notamos condicionantes que sustentam esse longo ciclo e justificam a segunda colocação da China no quadro de PIB’s mundiais.

 

Por Jéssica Mensalieri Amaral, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: Forbes, G1, Santa Cruz.

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