Fazendas de cliques e o mercado de popularidade digital

O quanto as avaliações online de produtos influenciam nas suas escolhas? No competitivo mercado do século XXI, onde grande parte da imagem de empresas e produtos é construída pelo marketing digital, as avaliações online de produtos e serviços são uma ferramenta importante para consumidores e empresas. Porém, no mês passado, uma denúncia da existência de fazendas de cliques na China colocou em cheque a confiabilidade dessas avaliações e gerou debates sobre ética e legalidade. Mas você sabe o que são as fazendas de cliques? Leia este artigo e fique por dentro do que é considerada uma das práticas mais misteriosas da internet.

Devido aos mistérios envolvidos nesta prática, as fotos e vídeo são escassos e de qualidade não tão boa, mas não falham em capturar a essência desses obscuros ambientes de trabalho na Ásia.

 

Fazendas de cliques na Ásia

As chamadas fazendas de cliques (click farms, em inglês) são empresas cujo serviço oferecido não poderia ser mais moderno: o engajamento nas redes sociais. Empresas de todo o mundo têm buscado esse serviço para aumentar sua popularidade nas plataformas digitais através de likes, shares e avaliações em massa, que dão evidência às suas páginas em muito menos tempo e com um baixo custo.

Não é difícil ver o uso das redes sociais ser monetizado atualmente. Todas os influenciadores da internet, no fundo, trocam o engajamento que recebem por dinheiro. E essa influência digital pode ter consequências profundas quando manipuladas em massa.

 

acontece na china

Um única moça controla dezenas de celulares em uma fazenda de cliques. Fonte: Equedia Investment Research

 

Localizadas em países como a China, Bangladesh, Índia, Paquistão e Filipinas, as fazendas parecem contar com uma estrutura padrão: milhares de smartphones com acesso às redes sociais posicionados em fileiras e manuseados por um trabalhador, cuja tarefa é simplesmente dar likes e fazer avaliações positivas para seus clientes.

 

fazenda de cliques
Novas imagens mostram celulares ligados por cabos a computadores de onde seriam controlados.

 

Apesar desse modelo ter sido visto em flagrantes anteriormente, imagens da denúncia mais recente indicam que o negócio tenha se modernizado e agora conte com o auxílio de um computador para controlar os smartphones, tornando o processo ainda mais rápido e massivo.

 

Denúncia de fazenda de cliques na China

Um vídeo filmado clandestinamente mostrou supostamente o interior de uma fazenda de cliques na China. Nas imagens, vemos dezenas de smartphones conectados através de cabos a alguns computadores, dos quais os funcionários controlam os aparelhos celulares. Desse modo, cada empregado pode controlar dezenas deles de uma vez e o trabalho é muito mais eficiente.

 

fazenda de cliques
Telefones organizados em fazenda de cliques. Fonte: Key4biz

 

Segundo a fonte, cerca de 10 mil telefones são utilizados somente nessa fazenda, indo de smartphones intermediários a iPhones. Nas imagens, vemos que estão executando aplicativos como o Twitter, Youtube e Spotify. Alguns deles exibem janelas de lojas de aplicativos, como a Play Store e a App Store, o que indica que o comércio de popularidade se aplica também aos aplicativos à venda nessas lojas.

 

Popularidade “importada” de Bangladesh

Apesar do flagrante recente, esta não foi a primeira denúncia de negócios desse nicho de que já tivemos notícia. Em 2013, o canal de televisão britânico Channel 4 denunciou a existência de fazendas de cliques na cidade de Dhaka, em Bangladesh, onde os funcionários trabalhavam em condições extremamente precárias.

Segundo a fonte, os trabalhadores passavam dia e noite em cubículos individuais, com paredes brancas e laterais fechadas por barras de ferro, dividindo apenas com o computador utilizado no trabalho.

Além do ambiente precário, os funcionários recebiam em torno de R$30 para dar 1000 curtidas em determinadas páginas do Facebook, ou seguir 1000 pessoas em contas do Twitter, embolsando, no máximo, R$250 por ano. A denúncia foi praticamente esquecida pela mídia mas o tema às vezes aparece quando o assunto é marketing digital, e-commerce e avaliações online.

Páginas fake, reais ou com temas e figuras absurdas, são utilizadas para potencializar ainda mais os resultados dessas fazendas de cliques.
O programa de TV Dispatches, responsável pela denúncia, também expôs o site Shareyt.com, registrado em Dhaka. O site afirma tratar-se de uma plataforma de crowd-sourcing, com perfis reais, agindo como intermediário na conexão de empresas que desejam impulsionar as suas páginas no Facebook, Twitter, Youtube, Google+, LinkedIn e Instagram e melhorar suas posições nos mecanismos de pesquisa. Mas Sharaf al-Nomani, dono do site Shareyt, disse ao programa, sigilosamente, que “cerca de 30% ou 40% dos cliques viriam de Bangladesh”, indicando que trata-se de mais uma fábrica de falsa popularidade.

 

Grandes empresas e as fazendas de cliques

A página do filme Sir Billi, animação britânica dublada por Sean Connery, contava com mais de 65 mil likes no Facebook, ultrapassando vários filmes de Hollywood. Dados do Facebook indicavam que a cidade de Dakha era a fonte do terceiro maior número de likes, fato bastante curioso já que o filme só havia sido lançado na Coreia do Sul. Procurada, a produtora do filme admitiu ter pago £271.40 para anunciá-lo no Shareyt.com em agosto de 2012 por seis meses, como uma parte “muito pequena” de sua campanha de marketing.

O site Shareyt.com também contava com um link para a propaganda da Coca-Cola do Super Bowl de 2010, Hard Times, onde o personagem dos Simpsons,Mr. Burns, aprendia a viver com menos – mas sem abrir mão de sua Coca-Cola. Em declaração oficial, a empresa afirmou “não aprovar falsos fãs” e logo após tornou o vídeo privado (com 6 milhões de visualizações).

 

Negócio genial ou ilegal?

A retomada dessa questão obviamente reanimou discussões polêmicas na internet. A prática ainda não é considerada ilegal, mas é, certamente, eticamente controversa. O engajamento gerado para os clientes é um engajamento falso, tornando as avaliações falsas como uma espécie de propagandas enganosa. O cliente não tem como saber se aquelas avaliações são verdadeiras e acaba tendo sua opinião manipuladas.

 

fazendas de cliques

Centenas de smartphones geram milhares de likes e avaliações falsas de uma só fazenda.

 

Atualmente, o engajamento nas redes sociais ou a avaliação de determinado produto funcionam como termômetro para as empresas avaliarem sua popularidade e a de concorrentes, assim como a principal referência de confiabilidade para o consumidor. Interações falsas originadas em fazendas de cliques criam uma imagem virtual destoante da realidade e prejudicam ambos – empresas e clientes.

Procurado pelo The Guardian, Sam DeSilva, advogado especializado em TI e lei de terceirização em Oxford, comenta a utilização desse serviço: “Potencialmente, várias leis estão sendo violadas – a proteção do consumidor e os regulamentos comerciais injustos. Efetivamente, está enganando os consumidores individuais”.

O Facebook, particularmente, tem investido na tentativa de banir todas as contas potencialmente falsas nos últimos anos: em 2016, o número caiu para 18,6 milhões, significantemente menor que o do ano anterior, de 31,8 milhões. Em declaração sobre o assunto, a empresa de Zuckerberg respondeu: “Um like que não venha de alguém realmente interessado em se conectar com a marca não beneficia ninguém. Se você gerencia uma página no Facebook e alguém te oferece um ‘boost’ na contagem de fãs em troca de dinheiro, nosso conselho é se afastar – não menos importante, isso é contra as nossas regras e há uma grande chance de esses likes serem excluídos pelos nossos sistemas automáticos.”

“Nós investigamos e monitoramos ‘vendedores de likes‘ e, se descobrimos que estão vendendo likes falsos, ou gerando conversas de perfis falsos, nós rapidamente os bloquearemos da nossa plataforma”, finalizou a empresa.

E você, o que achou do novo negócio que parece estar ganhando a atenção das grandes empresas? Deveria ser proibido, ou é um meio honesto de alcançar a popularidade na internet?


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Por Laís Barbosa, diretamente de Andirá, PR – Brasil

Fonte: Business Insider, Daily Mail, Folha de São Paulo, Olhar Digital, TecMundo, The Guardian

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