Estado Islâmico e sua ameaça à China

Em setembro de 2015, o grupo Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês) realizou anúncio na revista digital Dabiq, mantida pela própria organização radical, colocando à venda dois prisioneiros sequestrados: o chinês Fan Jinghui, de 50 anos, e o norueguês Ole Johan Grimsgaard-Ofstad, de 48 anos. Dois meses depois da publicação, o grupo notificou o assassinato de ambos, divulgando fotos de cadáveres sob a legenda: “executados depois de terem sido abandonados pelas nações e organizações infiéis”.

estado islamico

Embora em fevereiro de 2015 tenha sido veiculado na mídia que três militantes chineses, após ingressarem ao EI e tentarem fugir, teriam sido executados por membros do grupo radical, as informações foram tidas como imprecisas e não comprovadas, tornando o consultor aposentado Fan Jinghui o primeiro nacional chinês assassinado pelo grupo radical e oficialmente confirmado por Pequim. O terrorismo e seu combate, cujo caráter de protagonismo em questões internacionais se deu após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, obteve uma retomada de atenção e destaque a partir da intensificação da ofensiva do Estado Islâmico, em 2014.

Acerca do assunto, a China demonstrava, até então, um envolvimento relativamente distante com a temática, levando em consideração sua pouca relação direta com os desdobramentos e ameaças do grupo radical em questão. Foi a partir da execução comprovada de Jinghui, que o governo chinês passou a veicular publicamente de maneira mais incisiva seu posicionamento de contrariedade ao EI, reafirmando seu plano de combate à figura do terror internacional.

Embora a 23ª Cúpula do Fórum de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), realizada em novembro de 2015 em Manila (Filipinas), tivesse como objetivo central a discussão de medidas para potencializar o comércio na região da Ásia-Pacífico, o terrorismo e seu combate acabou por ser um dos temas de maior destaque durante o encontro, em uma conjuntura internacional marcada por atentados recentes em Paris, Beirut e ao avião comercial russo que sobrevoava o Sinai, todos de autoria reivindicada pelo Estado Islâmico. Durante a Cúpula em questão, o presidente chinês Xi Jinping veio a declarar que “O terrorismo é o inimigo de todos os seres humanos. A China se opõe firmemente a todo tipo de ideologia terrorista e combaterá toda atividade terrorista que desafie a humanidade”.

De acordo com informações do Global Times, tabloide chinês cuja administração cabe ao jornal oficial do Partido Comunista, seria estimada a participação de cerca de 300 chineses integrando o EI. No início de dezembro do presente ano, o website Jihadology, um dos instrumentos de propaganda virtual do Estado Islâmico, teria veiculado uma canção em mandarim visando à maior inserção em território chinês e aumento do recrutamento desses nacionais. A música, com duração de cerca de quatro minutos, apresentaria versos de incentivo às causas do grupo extremista, como “Pegue suas armas para se revoltar” e “nenhuma força poderá nos parar de seguir em frente”. Tal instrumento demonstraria o relevante interesse do EI na expansão de sua influência sobre a população do país.

A presença de grupos radicais e simpatizantes ao Estado Islâmico na Indonésia, Malásia e Filipinas acabaria por alavancar a preocupação com um suposto avanço de práticas consideradas como terrorismo no continente asiático. Apesar da afirmação pública do presidente Xi Jinping que associaria a China a uma maior atuação no campo de combate ao terrorismo internacional, ainda não foram realizadas ações mais rígidas ou incorporação do país em coalizões internacionais, como a liderada pelos Estados Unidos e que conta com a participação de países como a Turquia e Arábia Saudita.

 

O Estado Islâmico e o ambiente doméstico

Essa aparente tentativa de um reposicionamento mais intenso do discurso chinês na questão do combate ao terrorismo e de sua necessidade para a garantia de segurança internacional acaba por aparentar efeitos mais incisivos, na prática, sobre seu âmbito doméstico. As disputas com a etnia muçulmana uyghur, que se estende desde 1949, localizada predominantemente na região autônoma de Xinjiang, envolvem em sua base seus objetivos de independência. As ações dos separatistas, como as do chamado Movimento Islâmico do Turquestão do Leste, já vêm sido intituladas como terroristas pelo governo chinês desde os atentados de 11 de setembro de 2001, havendo, entretanto, divergências acerca da ampla aceitação internacional do uso da nomenclatura nesse caso.

Diante disso, Pequim insiste na crítica de que o combate ao terror ainda está restrito a uma visão muito limitada, de acordo com a qual somente seriam consideradas internacionalmente como terrorismo ações voltadas contra países do ocidente. O governo chinês procura, ainda, reafirmar sua preocupação doméstica, através da existência de supostas associações de alguns membros do Movimento Islâmico do Turquestão do Leste ao Estado Islâmico, que utilizariam a rota através da Turquia para se deslocarem entre as regiões e integrarem o grupo radical na Síria e no Iraque.

As divergências existentes entre certos conflitos nacionais chineses ainda parecem ser dotadas de um caráter perene na realidade do país, inserida em uma conjuntura internacional favorável ao protagonismo do combate ao terror envolvendo questões políticas. O avanço do Estado Islâmico e de suas atuações de extrema violência, que demonstra a ausência de fronteiras e alcance de influência sem limites de nacionalidades, atingiu um patamar capaz de criar uma oportunidade de atuação mais sólida da China na luta contra o terrorismo. Enquanto ainda é indefinida e cautelosa a atuação internacional chinesa no combate ao Estado Islâmico, o uso do terrorismo como antagonista em questões domésticas aparece de maneira mais presente e intensificada. O fato é que o Estado mais populoso do mundo representa uma inegável fonte de atenção de extremistas do grupo, e não está isento dos efeitos de sua expansão internacional.

Fontes: BBC Brasil, Global Times, G1, El Pais, Estadão, Exame, Notícias Terra

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, São Paulo, Brasil

Gostou desse artigo? Então veja muito mais em nossa página do Facebook


Veja Também


Deixe seu comentário