Eleições em Taiwan e a Reação da China

As eleições em Taiwan consagraram Tsai Ing-wen no último sábado (16/01) como a primeira mulher presidente da ilha. A vitória da candidata do pró-independência Partido Democrático Progressista (PDP) já era prevista e preocupava os interesses chineses, que nos últimos anos tinha um ambiente favorável de aproximação com Taiwan através do então presidente Ma Ying-jeou, do conservador Partido Kuomintang (KMT). O que não era prevista era a larga vantagem que Tsai demonstraria de fato nas eleições: durante as pesquisas previamente realizadas, a até então candidata demonstrava uma vantagem de 20 pontos percentuais, mas consagrou-se com 56% dos votos, cerca de 6,89 milhões, quase o dobro dos índices de Eric Chu, do KMT, que atingiu apenas 31% dos votos, de acordo com a Comissão Eleitoral Central. Além disso, o PDP, pela primeira vez na história, também alcançou uma grande vitória no âmbito legislativo, conquistando mais da metade das vagas do Parlamento taiwanês.

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Tsai Ing-wen, presidente eleita nas recentes eleições em Taiwan

Tsai Ing-wen também havia sido candidata à presidência nas eleições em Taiwan de 2012, quando adotou uma postura firme na defesa da identidade própria da ilha, separada da China. Dessa vez, preferiu um discurso mais ameno, assegurando o planejamento de dar continuidade às relações com o país, ressaltando que manterá o “status quo” em Taiwan: nem a unificação com a China, nem a independência. Por outro lado, o Partido Comunista Chinês (PCC), aparece mais relutante, defendendo que somente continuará a dialogar com a ilha caso o novo governo aceite o Consenso de 1992, que versa sobre a existência de uma só China, e, portanto, a ideia de unificação. Os resultados das eleições em Taiwan, entretanto, demonstram que tal condição muito provavelmente não se solidificará.

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Chiang Kai-shek ao lado de Mao Tse Tung

As declarações do governo chinês frente aos resultados das eleições em Taiwan demonstraram um teor levemente ameaçador, que evidencia as claras preocupações da China com a nova administração progressista do principal opositor de seus interesses na ilha, o PDP. O aliado chinês KMT, após a derrota eleitoral, ressalta sua situação de crise profunda, com necessidade urgente de uma intensa remodelação tendo em vista sua impopularidade entre a população taiwanesa. Assim, os chineses se verão no futuro próximo sem sua principal porta de entrada de seus interesses em Taiwan. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hong Lei, afirmou na última segunda (18/01) que a postura do país em relação a Taiwan não irá mudar após as eleições e que continuará “se opondo a qualquer atividade independentista”. Por fim, ainda adicionou: “só há uma China no mundo e Taiwan pertence a essa China”.

China e Taiwan: conflito histórico

O conflito entre China e a ilha, tão evidenciado nas repercussões acerca das eleições em Taiwan não é um problema atual, sendo fruto de um conflito histórico que remonta à Guerra Civil Chinesa, cujo término se deu no ano de 1949. O episódio foi responsável por dar início a um processo de ruptura, que resultou na criação de “duas Chinas”: a República Popular da China e a República da China, comumente conhecida como Taiwan. A segunda, localizada em território insular, foi o destino de Chiang Kai-shek e dos demais nacionalistas do partido Kuomintang (KMT) após a derrota para o exército comunista comandado por Mao Tse Tung.

Somente em 1992 ocorre o consenso entre ambas as partes resultando no chamado “Consenso de 1992”, que aborda a ideia da existência de uma única China. O documento que dá margem a diferentes interpretações de seu conteúdo é alvo de intensas críticas até hoje pelos separatistas, e ainda é citado nas argumentações chinesas para edificar seu objetivo de unificação.

O reconhecimento de Taiwan como um Estado de fato somente se dá por 22 países do globo, cuja maioria localiza-se na América Central, enquanto para Pequim, a ilha é considerada apenas como uma província rebelde que deveria ser novamente anexada. Entretanto, mesmo diante da questão da falta de reconhecimento, na prática, Taiwan não se apresenta em uma situação de isolamento internacional, tendo relações de caráter extraoficial com diversos países do globo, inclusive com o Brasil e os Estados Unidos, além de demonstrar índices que a apontam em posicionamento de destaque no quesito de desenvolvimento humano de sua população.

  • China e Taiwan: reaproximação

As relações entre Pequim e Taipei foram melhoradas a partir de 2008, com a chegada ao poder do governo do então presidente taiwanês Ma Ying-jeou, do KMT, alcançando níveis inéditos de reaproximação. Em novembro de 2015, depois de 66 anos, os presidentes de Taiwan e da China se encontraram pela primeira vez em Cingapura para discutir assuntos bilaterais. O encontro foi celebrado por ambos os governos como um evento amigável e promissor de melhorias nas relações futuras entre as duas partes. Entretanto, diante de tal evento, a população taiwanesa demonstrou sua oposição e a reunião ainda foi considerada como uma tentativa de manobra política de Ma, por ter sido organizada tão próxima às eleições em Taiwan. Na época, a candidata Tsai declarou que “o povo taiwanês perdeu a confiança nesse governo e não quer ver outra política esboçada secretamente”.

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População comemora os resultados das eleições em Taiwan

 

Eleições em Taiwan e o Desejo por Independência

Com a reaproximação com a China, que envolveu importantes relações comerciais, a ilha se tornou cada vez mais dependente da economia chinesa. Com a desaceleração do gigante chinês em 2015, Taiwan foi prejudicada no próprio crescimento econômico: apresentou um crescimento de apenas 1% durante o ano passado, além da queda do setor tecnológico, dos salários e o aumento do desemprego. Assim, criou-se um dos principais motivos para o descontentamento da população taiwanesa, elevando a impopularidade da administração de Ma Ying-jeou e do partido KMT. No final de seu mandato, pesquisas apontaram que o presidente somente contava com o apoio de 14% da população.  Em sua candidatura, Tsai Ing-wen reforçou a necessidade de novas medidas para alavancar a economia taiwanesa, cujo crescimento para 2016 é previsto entre 2,7% a 2,32%.

Assim, a atual conjuntura econômica da ilha foi um fator decisivo para os resultados das recentes eleições em Taiwan. O partido da presidente eleita, o PDP, é historicamente marcado por posicionamentos independentistas, contrários, portanto, aos anseios chineses de anexação. Os principais benefícios de uma reaproximação com a China, vinculados à economia, não são vistos pelos taiwaneses como devidamente efetivos: além da desaceleração chinesa afetando a ilha, as riquezas provenientes dessas relações comerciais não estariam sendo devidamente repartidas com a população, concentrando-se, em sua maioria, nas grandes empresas.

Logo após a divulgação dos resultados das eleições em Taiwan, durante uma coletiva de imprensa,  Tsai Ing-wen realizou declarações direcionadas à China. Afirmou que “nosso sistema democrático, nossa identidade nacional e nossa integridade nacional devem ser respeitados. Qualquer violação, qual seja o modo, afetará a estabilidade das relações entre ambos lados do estreito”. A presidente eleita, que tomará posse no dia 20 de maio, ainda declarou o interesse de manter relações com a China, através de laços “consistentes, previsíveis e sustentáveis”, mas afirmou que a opinião da população taiwanesa será a base para o estabelecimento dessas relações.

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Manifestações em Taiwan pró- independência

 

  • A Opinião Popular refletida nas Eleições em Taiwan

Algumas pesquisas realizadas em Taiwan demonstraram que atualmente cerca de 61% da população é a favor da independência, com um forte apoio das camadas mais jovens da sociedade. As opiniões populares na ilha acerca das relações com a China foram marcadas por demonstrações públicas durante o governo de Ma, através de protestos contrários à aproximação tão intensamente promovida pelo presidente taiwanês. Em março de 2014, milhares de estudantes contando com apoio de grupos civis e membros do PDP protestaram contra um pacto de serviços da ilha com a China, deixando feridos e presos. Em fevereiro de 2015, uma pesquisa do centro de estudos Taiwan Braintrust apontou que 90% da população da ilha se considera preferencialmente taiwanesa frente à nacionalidade chinesa, caso tivesse que eleger uma das duas opções. Durante o encontro entre os presidentes Ma e Xi, em novembro, cidadãos taiwaneses demonstraram sua oposição à reaproximação por meio de protestos no Parlamento e no Aeroporto de Taipei. O caráter favorável à independência que emana da maior parte dos cidadãos taiwaneses nos últimos anos, portanto, acabou sendo confirmado através das recentes eleições em Taiwan, com a vitória do PDP.

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Tsai Ing-wen, recém-eleita nas eleições em Taiwan, encontra William Burns (segundo à esquerda)

 

Eleições em Taiwan, China e os Estados Unidos

O governo chinês demonstrou seu descontentamento com a repercussão internacional dos resultados das eleições em Taiwan através da declaração acerca do primeiro encontro de Tsai com o primeiro enviado estrangeiro à ilha após sua eleição. A visita foi de William Burns, o ex-subsecretário de Estado dos Estados Unidos na última segunda-feira (18/01). Washington qualificou oficialmente o encontro como rotineiro, relembrando que já havia enviado ex-funcionários do alto escalão do governo após eleições taiwanesas também em anos anteriores. Burns afirmou que a esperança dos Estados Unidos é que seja realizada uma “transição sem problemas ao novo governo, com maior interação e intercâmbios”. Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hong Lei, demonstrou preocupação com a visita, aconselhando os Estados Unidos a vigiarem “suas palavras e ações” e salientando que o país americano não deve interferir em assuntos internos, mas sim atentar-se a relações bilaterais. Pelo lado taiwanês, a presidente eleita afirmou que planeja dar continuidade a estreitas relações com os Estados Unidos, com destaque às esferas econômica e industrial.

As divergências entre a China e os Estados Unidos em relação a Taiwan já vinham sido acentuadas no último mês de dezembro, após a autorização do país americano da venda de armamentos à ilha. O acordo foi o primeiro dessa natureza a ser estabelecido entre as duas partes há quatro anos, ocorrendo em uma conjuntura de intensa movimentação militar na região, onde o investimento na expansão chinesa já causa preocupação aos vizinhos asiáticos e ao próprio Estados Unidos. Diante do acordo, o governo chinês criticou o posicionamento estadunidense, levantando que o país estaria prejudicando “a soberania, a segurança e os interesses da China”. Além disso, fez ameaças através de sanções a empresas envolvidas na comercialização desses armamentos, solicitou o abandono dessas trocas militares, além de salientar como inadmissível a ingerência externa em assuntos domésticos.

O clima de tensão após os eventos e as eleições em Taiwan deve tentar ser minimizado ainda nesse mês através das visitas previamente agendadas do subsecretário de Estado  estadunidense Antony Blinken a Pequim nessa semana (20/01 e 21/01), e de John Kerry, o Secretário de Estado, em 27 de janeiro.

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Eleições em Taiwan e o Futuro com a China

As declarações de Tsai Ing-wen tanto nos períodos de campanha eleitoral quanto após o resultado das eleições demonstra um conteúdo não agressivo, mas firme em relação ao posicionamento de seu futuro governo em relação ao gigante chinês. A importância comercial da China para a economia taiwanesa, juntamente com o perigo de sua superioridade militar crescente, podem influenciar na escassez de sinais efetivos de um corte de relações entre as duas partes em um futuro próximo. O poder do sentimento de identidade da população taiwanesa, ainda mais intensificado com a conjuntura de desestabilidade econômica da região, acaba por tornar como claro que o desejo popular estará intimamente ligado à busca maior por autonomia e por uma não integração à China. A ascensão do PDP, tanto à presidência como na maioria parlamentar após as recentes eleições em Taiwan, acaba por criar um cenário político nunca antes tão propício para o aumento de um poder de voz da ilha frente a sua não submissão ao gigante chinês.

A intensidade das relações entre a China e Taiwan provavelmente sofrerá uma desaceleração quando comparada à administração de Ma, tendo em vista que o “status quo” buscado pela futura presidente declara suas bases na vontade popular taiwanesa e no respeito chinês a certa autonomia da ilha. Nas primeiras declarações oficiais, entretanto, o solo oferecido pela China se mostrou ligeiramente pantanoso, mas muito provavelmente não se dissolverá verdadeiramente. Caberá aos esforços mútuos solidificar a melhor base possível para a manutenção das relações entre as duas partes nos próximos anos. Um fato é inegável: Tsai terá um grande desafio pela frente para retomar a força econômica do Tigre Asiático e atender às demandas da população taiwanesa, ao mesmo tempo em que precisará construir os novos capítulos da complicada relação com a China.

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: BBC, El País, Exame, Globo, Taipei Times, The Washington Post

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