Efeitos do Brexit para a China

Brexit: termo para a abreviação inglesa de “Britain Exit”, em português literal, “Saída Britânica”.  A expressão foi a escolhida para tratar do plano de saída do Reino Unido da União Europeia, decisão associada ao marco histórico dos resultados do referendo realizado em 23 de junho, que levou cerca de 30 milhões de pessoas para a votação. Tensões políticas, econômicas e sociais transpassaram as fronteiras do Reino Unido, bem como dos membros da União Europeia (UE), para demonstrar uma situação de incerteza em outros continentes, causando preocupação também na Ásia, principalmente na China. Mas quais os efeitos do Brexit para a China?

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Em junho, referendo decide que o Reino Unido deixará a União Europeia

 

Brexit: a saída do Reino Unido da União Europeia

Em 24 de junho, um dia após a votação, era divulgado que, com 51,9% dos votos contra 48,1%, o referendo popular nos países que compõem o Reino Unido apontava o desejo de sua saída da União Europeia. Essa decisão, representa o primeiro passo de um longo processo de negociações – que deve durar dois anos – para a ocorrência do desligamento efetivo. Mesmo que o desligamento e as grandes mudanças decorrentes não sejam imediatos, o resultado do referendo já representou um abalo não somente no plano doméstico, mas também no internacional.

As reações frente ao Brexit foram imediatamente sentidas nos mercados: a libra esterlina desabou ao menor nível desde o ano de 1985, as perdas acionárias atingiram toda a Europa, chegando até às quedas das bolsas asiáticas. Logo após a divulgação dos resultados do plebiscito, no Japão, o choque do mercado foi comparado à quebra do Lehman Brothers em 2008. No mesmo dia, os efeitos do Brexit para a China foram vistos na queda de 3% da bolsa de Hong Kong e de 1,19% na de Xangai.

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Os efeitos do Brexit para a China foram sentidos na queda imediata das bolsas de valores logo após o resultado do referendo

 

Menos de um mês após a votação, o então primeiro ministro do Reino Unido, David Cameron, renuncia oficialmente ao cargo, repassando para Theresa May a responsabilidade de colocar em prática as consequências do Brexit. Desde sua nomeação, as bolsas europeias apresentaram certa melhora, mas que não foram suficientes para acabar com as preocupações e instabilidades, tanto no Reino Unido, quanto no restante do globo.

Além das preocupações econômicas, os efeitos do Brexit reacenderam também as questões nacionalistas. No Reino Unido, os votos do referendo já demonstraram as divergências entre os países: enquanto a Inglaterra e o País de Gales majoritariamente votaram a favor do Brexit, a Escócia e a Irlanda do Norte desejavam sua permanência. Esses posicionamentos diferentes já foram suficientes para a primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, afirmar planos de um novo referendo sobre a saída do país do Reino Unido. Na Irlanda do Norte, movimentações citavam o desejo pela votação da união das Irlandas, o que foi negado, entretanto, pelo primeiro ministro irlandês, Enda Kenny.

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Protestos contrários ao Brexit demonstram que a decisão gerou preocupações

 

Reações Internacionais

As reações internacionais do Brexit foram quase unânimes, demonstrando uma onda de preocupação com a decisão da saída do Reino Unido da União Europeia. A maioria dos países do globo afirmou acreditar que as consequências dessa mudança trarão efeitos negativos às suas próprias economias.

O Brexit acaba por abalar a Europa em um dos piores momentos para as maiores tensões no continente, que já vinha se preocupando com tensões sobre crises monetárias acumuladas, a questão dos refugiados, o terrorismo internacional e problemas de fronteiras com a Rússia.

Segundo uma pesquisa da Pew Research Center, realizadas em dez países membros da UE, é majoritária a opinião negativa internacional frente a decisão do Reino Unido. Na Itália, por exemplo, 57% dos entrevistados viam o Brexit como prejudicial para a União Europeia, sendo o menor índice registrado pela pesquisa. Na Suécia, entretanto, a porcentagem chega a 89%.

Já a Rússia não viu o Brexit com maus olhos, posição compreensível para o país, que tem certo interesse em ver o enfraquecimento da União Europeia.

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Os efeitos do Brexit para a China: a perda do principal aliado dentro da União Europeia


Efeitos do Brexit para a China

Os efeitos do Brexit para a China representaram algumas preocupações ao país asiático. Na economia chinesa, as consequências foram sentidas imediatamente, através das quedas das bolsas asiáticas, logo após a divulgação do referendo. Além disso, o mercado já sentiu o clima de incerteza que paira sobre o setor exportador chinês, essencial para a economia do país, em relação a parceiros comerciais tão importantes como o Reino Unido e a União Europeia. Com o clima de insegurança criada pelo Brexit, a maior preocupação chinesa é com a possibilidade de queda da demanda do continente europeu. Para atingir a Europa como um todo, a China agora deve estudar novos caminhos de entrada.

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Xi Jinping e David Cameron: a “era de ouro” das relações entre China e Reino Unido

 

Efeitos do Brexit para a China: o fim da “era de ouro”?

Desde o ano passado, o presidente chinês Xi Jinping já demonstrava qual seria a opinião do país asiático frente ao Brexit. Em uma visita a Londres em outubro, o líder afirmava o desejo por uma União Europeia “próspera e unida”, salientando a importância do Reino Unido para a promoção de um maior desenvolvimento entre China e UE. Xi chamava a atenção para a ocorrência de uma nova “era de ouro” na relação chinesa com o Reino Unido.

Realmente, o Reino Unido era visto pelo gigante asiático como a principal “porta de entrada” para os mercados da União Europeia. Os líderes britânicos sempre afirmavam seu protagonismo na aproximação da China com a UE. Agora, com a saída do bloco a caminho, os investimentos no parceiro já não são vistos pelos chineses como tão atrativos, e é inegável a necessidade de uma reorganização dos antigos planos do país nessa relação internacional.

O Reino Unido era visto, por exemplo, como o único representante europeu que oferecia apoio incondicional ao mercado chinês. De fato, o Velho Continente é marcado por posições preocupadas através da visão de muitos críticos europeus que veem a China como praticante de atividades comerciais “injustas”. Eles reclamam de uma maior dificuldade no acesso de firmas estrangeiras ao país asiático, além de medidas de dumping de aço e outros materiais vendidos a preços baixos pelos chineses.

Outros dois grandes aliados da China na UE, a Alemanha e a França, por exemplo, ainda não são vistos no momento como desempenhando o mesmo papel do Reino Unido dentro do bloco no que condiz com o apoio aos interesses comerciais chineses. Assim, com o Brexit, a China fica órfã de um parceiro tão disposto dentro da União Europeia, precisando estudar outras alternativas que não deixem enfraquecer o importante relacionamento comercial entre os europeus e os chineses.

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O Brexit representa novos desafios e a necessidade de reformulação do mercado chinês


Brexit para a China: necessidade de reformulação

É evidente que importantes mudanças ocorrerão após a decisão da saída do Reino Unido da União Europeia, que serão agravadas nos próximos anos, quando esse “divórcio” europeu realmente irá se concretizar. A relevância do Reino Unido para o mercado chinês na Europa é indiscutível, o que gera uma inevitável onda de preocupação do gigante asiático sobre o que ocorrerá no futuro.

Para o Ministro de Finanças da China, Lou Jiwei, o Brexit “lança uma sombra sobre a economia global. As repercussões vão emergir durante os próximos cinco e dez anos.” Para ele, ainda é difícil prever exatamente os desdobramentos futuros a tão longo prazo. O Ministro ainda afirma que as reações imediatas do mercado foram exageradas e que é necessária muita calma e uma visão objetiva do que há por vir.

Os efeitos do Brexit para a China envolverão questões de investimento, comércio e capital, o que exigirá uma maior atenção e cautela dos empresários chineses. Entretanto, os impactos dessa decisão britânica não deverão ser tão intensos, tendo em vista que planos de contingência do governo chinês já estão sendo preparados.

A chamada “era de ouro” nas relações entre o Reino Unido e a China sofreu abalos diante dos efeitos negativos do Brexit, que mergulha não somente a Europa, como o mundo, em uma situação repleta de incertezas e dificuldades. A China, como o restante dos países, deverá compreender tal situação, buscando reconstruir os moldes de suas relações internacionais visando à sua melhor adaptação aos novos tempos que virão. A “sombra” existe e provavelmente se estenderá nos próximos anos, mas o gigante chinês têm tudo para se reorganizar e recriar uma nova “era dourada”.

 

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: El País, Washington Post, Forbes, Época, O Globo, Folha de São Paulo

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