Chega de lixo! China decide não mais importar resíduos do mundo

O início de 2018 possui uma palavrachave para a China: chega de lixoO país decidiu, em uma manobra interessantíssima do ponto de vista ambiental, dizer não para a importação de resíduos do mundo ocidental ao optar pela sua proibição. Essa é a decisão tomada no ano de 2017 e colocada em prática no ano de 2018: a China não mais será o depósito de lixo do planeta. A nação reciclava cerca de metade dos produtos plásticos e de papel do globo. Tal prática gerava diversos problemas de degradação ambiental ao gigante asiático. 

 

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Chega de lixo! Proibição chinesa visa diminuir importação de resíduos.

 

Foi no dia 1º de janeiro que entrou em vigor uma norma que proíbe a entrada de 24 tipos de resíduos na China. No entanto, após conversas com a Organização Mundial do Comércio, a China aceitou adiar o início real de tal proposta para o dia 1º de março de 2018. É um movimento interessante, uma vez que uma considerável parte do lixo mundial encontra seu fim na China. No entanto, esse “fim” nem sempre significa um real fim. Dentre os principais tipos banidos estão o plástico, os papéis não triados, a escória de determinados minérios e produtos têxteis.

 

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Degradação ambiental é grande no gigante asiático.

 

A declaração oficial do Ministério do Meio Ambiente chinês demonstra a grande preocupação chinesa: é preciso combater a degradação ambiental causada pela poluição no país. Nos últimos anos, esse é um problema que assola de forma intensa o gigante asiático. Desde 2014, o país já havia declarado guerra contra a poluição, visto a tomada de medidas contra o fechamento de fábricas, e inspeções mais rigorosas. 

Isto deve-se tanto às condições precárias nas quais diversas fábricas de reciclagem atuavam no país, quanto pela condição nas quais os produtos chegavam do exterior. De acordo com representantes oficiais chineses, muito do lixo proveniente dos países estrangeiros, chamado por eles de “yang laji”, não chegavam à China apropriadamente limpos, ou, em outros casos, estavam misturados com materiais não recicláveis 

 

Histórico da importação de lixo: e agora? 

A China importava estes tipos de produtos devido à sua grande demanda interna. Desde os anos 1980, o país é o maior importador de lixo do mundo. Essa elevada carga é como uma faca de dois gumes: de um lado, processar estes tipos de resíduos era uma garantia ao gigante asiático de uma barata fonte de produção para uma economia em ascensão. De outro lado, no entanto, o agravamento da poluição tóxica ambiental é nítido, gerando diversos problemas para a saúde pública nacional.  

Dados da Organização das Nações Unidas apontam uma estimativa de importação de mais de 7 milhões de toneladas de plástico para reciclagem em 2016. A origem desta quantidade imensa de resíduos está, principalmente, localizada nos países ricos, entre eles os Estados Unidos, o Japão e os países europeus; montante equivalente a 70% de todo o plástico descartado no mundo naquele ano. 

 

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Desse modo, o movimento chinês de proibição deixou os países ocidentais em um estado de mal-estar, quase em pânico. Diversos deles ainda estão repensando o que fazer agora que a China apostou na proibição da importação de lixo, para contornar a manobra do gigante asiático. Os países da União Europeia, por exemplo, estão planejando colocar maiores impostos sobre as sacolas de plásticos e pacotes, com a premissa de que será necessário devido à proibição chinesa. Outros pensam em simplesmente encontrar novos mercados no sudeste asiático, com a premissa de “enviar o lixo para onde quer que seja”. 

 

Degradação gerada pelo excesso de lixo 

Elevar a restrição quanto à importação gera uma nova esperança para a China. Esperança que visa uma melhor forma de lidar com a resolução de problemas causados pela degradação. Este tamanho colossal de lixo em solo chinês transformou diversas cidades em totais indústrias de reciclagem. Contudo, as condições em que se encontram são muito longes de serem ideais para tal atividade. Ambiente de trabalho desfavorável, utilização de força de trabalho infantil, e ausência de equipamentos de proteção (como máscaras e luvas) são comuns nestes centros.  

 

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Indústria de reciclagem de lixo na China está sobrecarregada.

 

Ademais, outro problema que é enfrentado é o do excedente de material não reaproveitado, que termina descartado em áreas a céu aberto em regiões rurais. Isso não só compromete a cultura agrícola e a criação de animais, que acabam por ingerir este lixo ao confundi-lo com comida, como também faz com que muitos agricultores usem uma solução nada ecologicamente correta: ateiem fogo nas pilhas de plástico, liberando altas doses de fumaça tóxica que polui tudo ao seu redor: água, terra e ar. 

 

Pensar em alternativas é necessário 

Na recente História global, a poluição e a degradação ambiental, decorrente de resíduos plásticos, e, de forma mais genérica, resíduos de lixo, tem sido uma preocupação proeminente. A situação é muito séria e perpassa as fronteiras nacionais, tornando-se, não somente uma grande ameaça à segurança global internacional, como também um problema de responsabilidade mútua entre os países do globo 

 

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Resíduos em níveis colossais na China.

 

A situação atinge múltiplos níveis: desde poluição do ar até a poluição das águas, rios e mares, bem como a poluição sonora e visual. Consequentemente, afeta a diversidade biológica do nosso ecossistema, uma vez que muitos desses resíduos são descartados nos oceanos, matando os peixes, tartarugas e outros tipos de vida marinha. Não só isso, agrava a saúde pública, proliferando diversos tipos de doenças e contaminação devido aos componentes químicos deste lixo descartado.  

Por essa razão, pensar em alternativas é necessário. Contudo, é preciso levar a reflexão para além da simples premissa de “encontrar outros mercados”, como é a vontade de países europeus. A simples ideia de “exportar para onde quer que seja” é alarmante, já que estes países desenvolvidos agora miram destinar os resíduos de lixo a países como a Indonésia, a Malásia, o Vietnam e a Índia.  

 

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Pensar em alternativas é necessário.

 

É preciso, deste modo, levar a questão para a fonte do problema. Parafraseando o coordenador do Greenpeace Ásia, o mundo não pode continuar com o atual modelo de consumo de desperdício baseado no crescimento infinito em um mundo finito. Em vez de encontrar novos lugares para exportar resíduos, os governos e o setor privado devem encontrar maneiras de simplesmente reduzir a quantidade de resíduos que estamos criando”. É preciso, portanto, gerar menos lixo e reciclar, além da cautela no consumo. Estes são princípios que podem constituir a espinha dorsal de um possível novo plano ambiental internacional. 

 

Por Rafael Nascimento, diretamente de Marília, SP, Brasil 

Fontes: BBC, CNN, El País, Exame Abril, G1 Globo, New York Times, ONU, Reuters, The Economist 

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