May 02 2017

Shenzhen : a Cidade da Inovação

Posted by Camila Sakamoto

Se, no passado, a China era vista como o país especializado em apenas “copiar” grandes empresas estrangeiras, hoje em dia, essa ideia não podia estar mais ultrapassada. E  em meio a esse boom de inovação tecnológica chinesa, Shenzhen se consagrou como o principal pólo produtor mundial quando o quesito é tecnologia e hardware. Mas como a cidade chinesa se transformou em um exemplo de sucesso tão grande? Entenda os motivos que levam  Shenzhen a ser considerada como o centro mundial dos avanços tecnológicos do futuro!

 

O Crescimento de Shenzhen

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Shenzhen foi a primeira Zona Econômica Especial da China

 

Em maio de 1980, Shenzhen foi transformada na que seria a primeira Zona Econômica Especial, uma consequência das políticas de abertura econômica orquestradas pelo governo de Deng Xiaoping. Era o pontapé inicial das reformas que transformaram a China na potência econômica atual. A cidade, que até então contava com cerca de 30.000 habitantes, distribuídos em pequenos aglomerados com características rurais, se tornou um local onde investimentos estrangeiros e empresas privadas passaram a ser permitidos. E, assim, tal mudança trouxe uma chuva de investimentos chineses e estrangeiros em Shenzhen, atraindo milhares de novos habitantes e impulsionando a construção de empresas e moradias.
Atualmente, Shenzhen abriga por volta de 11 milhões de pessoas, fazendo parte do que é chamado de Delta do Rio das Pérolas : a maior área urbana contínua com população acima de 60 milhões de habitantes.  Essa região, formada por 9 grandes cidades chinesas, inclusive, é prevista para se tornar, até 2030 uma enorme megalópole ultra-conectada.

 

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Investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento garantem a inovação em Shenzhen

 

Shenzhen ainda é uma cidade que coloca poucos limites para a liberdade de deslocamento, imposições mais brandas no quesito de contratação de empregados e não faz discriminações com pessoas que vêm de fora – as pessoas são consideradas a fonte principal do sucesso da cidade chinesa em seu boom como pólo de inovação no país.
Entre os anos de 1980 a 2016,o PIB de Shenzhen cresceu de maneira impressionante: aumentando 22% a cada ano. Presume-se que, atualmente, o seu PIB gire em torno dos 3 trilhões de yuans! Somente o distrito de Shenzhen, chamando Nanshan, abriga cerca de 125 empresas, tendo um valor de mercado de, aproximadamente,  400 bilhões de dólares, além de uma renda per capita acima da registrada, por exemplo, em Hong Kong.

 

A Cidade da Inovação

 

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Até mesmo o aeroporto de Shenzhen tem uma arquitetura futurista

 

Mesmo com o crescimento econômico e industrial inegável de Shenzhen desde sua transformação em uma ZEE, ainda há cerca de 10 anos, muitos especialistas do setor tecnológico reclamavam da falta de mão de obra realmente criativa na China. Existiam muitas empresas bastante rentáveis de alta tecnologia no território, mas a inovação não parecia ser o ponto forte delas – que acabavam por se limitar a “copiar” os gigantes do Vale do Silício dos Estados Unidos. Por exemplo: o Baidu era a versão chinesa do Google; o Tencent, uma cópia do Yahoo; e a JD, uma réplica da Amazon.

Mas a onda de prosperidade econômica, principalmente entre os jovens chineses, pareceu incentivar uma maior ousadia dessas novas mentes. Se, em 2000 apenas 4% da população da China pertencia à classe média, 12 anos depois, essa fatia já representava dois terços dos chineses. Criou-se uma grande leva de profissionais empreendedores, que gostavam de arriscar e que passeiam no campo da inovação tecnológica. Era hora de começar a investir em ideias inéditas. Além dessa característica progressista, os visionários locais contavam ainda com certa vantagem: estavam em contato com as necessidades dos consumidores chineses e conheciam suas particularidades.

 

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Hotel em Shenzhen onde os funcionários são robôs

 

Assim, não tardou para que essas novas mentes alcançassem o sucesso. O fundador do Alibaba, Jack Ma, é um desses exemplos. Atualmente considerado o segundo homem mais rico da China, o bilionário chinês soube o que a gigante americana eBay ignorou ao tentar dominar a China anos antes. Com uma estratégia diferenciada, o Alibaba soube atingir os pequenos empresários do país, bem como inovou ao lançar uma plataforma própria e diferente de pagamentos, o Alipay, que superou a concorrente Paypal ( de propriedade do eBay). Formava-se a primeira grande leva de milionários chineses do ramo da tecnologia – algo como a Microsoft produziu nos anos 1990 nos Estados Unidos. E essa era apenas o início.

 

De onde vem o sucesso?

Ao contrário da capital Pequim, que abriga as universidades mais conceituadas do país, Shenzhen tem algumas instituições de ensino superior, mas não tão notáveis. Entretanto, a concentração de graduados é muito elevado: muitas pessoas saem de boas universidades em Pequim, por exemplo, para compor o intenso fluxo de mão de obra especializada em Shenzhen.

Os investimentos de Shenzhen na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) abocanham cerca de 4% do PIB da cidade, o dobro da quantia média registrada para a China continental. Em Nanshan, ainda,  essa porcentagem chega a superar os 6%! E muito desse investimento é proveniente da iniciativa de empresas privadas. As companhias localizadas na cidade, ainda, detêm mais patentes internacionais quando comparada a países considerados desenvolvidos, como França e Grã-Bretanha.

Especialistas afirmam que o valor médio que a China adiciona aos produtos exportados é de cerca de 76%, um valor não tão distante quando se compara à União Europeia, que somaria um aumento de 87%.  O Banco Mundial conclui números bastante similares. Ou seja, já ficou bem no passado a ideia de que a China não é capaz de inovar e agregar valor em seus produtos.

 

 

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Shenzhen abriga as principais empresas de tecnologia do mundo

 

Frequentemente, o sucesso de Shenzhen é muito apontado como sendo resultado de lideranças políticas corajosas e políticas visionárias. Mas, para entender melhor as mudanças que trouxeram a Shenzhen um boom de crescimento e inovação nas últimas décadas, seria importante também observar como fator o comportamento das empresas que lá se estabeleceram.
Muitas firmas locais optaram por transformações importantes: se antes costumavam importar  know- how  ou algumas peças, passaram a investir cada vez mais em suas próprias invenções e métodos. Assim, muitos empreendedores foram atraídos a Shenzhen, como uma maneira de investir em suas próprias inovações. Até mesmo empresas estrangeiras localizadas na cidade mudaram suas formas de atuar no local : muitas multinacionais têm procurado se estabelecer em Shenzhen como uma forma de estar mais próximo do que está em alta no mercado. Ou seja, a cidade acaba por ser um ímã de empreendedores não somente de todas as partes da China, mas também, do mundo.

 

O Vale do Silício de Hardware

 

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Apresentação de robôs dançarinos em Shenzhen

 

Apontada como a principal fábrica de hardware do mundo, não é à toa que Shenzhen é conhecida através do apelido de Vale do Silício de Hardware – uma alusão à famosa região dos Estados Unidos, que é o lar das maiores empresas de tecnologia conhecidas.

Assim como a região localizada no estado da Califórnia, Shenzhen “acolheu” muito bem várias startups – provenientes de vários locais do mundo, inclusive. Como exemplo, a startup canadense Revols, cuja premissa é produzir fones de ouvido customizáveis e acessíveis, não estava encontrando sucesso quando tentou se estabelecer em Montreal : os fundadores achavam que a cidade no país natal era muito cara e pouco dinâmica para os seus negócios. Por isso, mudaram-se para Shenzhen, onde encontraram fornecedores mais baratos e empresas de protótipos que produziam as peças desejadas de maneira bem mais rápida. E tal diferença encontrada na cidade chinesa é totalmente explicável: a região Huaqiangbei, de Shenzhen, é considerada como o maior mercado do mundo de fornecimento de eletrônicos. É onde está localizada, por exemplo, a gigante Hax, uma empresa que se descreve como “aceleradora” de hardware. Um dos parceiros da Hax, Benjamin Joffe, inclusive, afirma que o Vale do Silício original está, quando o assunto é hardware, cerca de ” seis a sete anos desatualizado” quando comparado à cidade chinesa.

 

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Novo teclado apresentado em Shenzhen – o paraíso de Hardware

 

Shenzhen é conhecida como a maior produtora de celulares do mundo. Em 2016, estimava-se que a cidade era responsável por produzir cerca de 1 bilhão de aparelhos a cada ano. Esse número se torna ainda mais impressionante quando se considera a estimativa total de celulares que seriam produzidos anualmente em todo o mundo : algo que gira em torno de 1,7 bilhão a 1,8 bilhão. Estima-se que somente Shenzhen apresenta aproximadamente 6.000 empresas relacionadas à produção de celulares e seus acessórios. E engana-se quem pensa que esses números elevados se resumem apenas ao fato de Shenzhen abrigar a Foxconn, que produz os iPhones comercializados pelo mundo, por exemplo.

categoria de smartphones pode ser vista como uma das que mais simbolizam a nova fase como pólo de inovação tecnológica que a China, como um todo, vem vivenciando nos últimos anos. As principais marcas chineses desse mercado, como a Xiaomi, não somente vêm mostrando aparelhos de qualidade equivalente às gigantes estrangeiras do ramo – como Samsung e a Apple – como ainda são capazes de oferecer tais produtos a um preço menor que suas concorrentes. Dentro da China, os inventores nacionais ainda são beneficiados pelo fato de estarem em contato direto com o maior mercado consumidor do mundo. Mas não pense que os planos de expansão se limitam ao território do país mais populoso do mundo. A Xiaomi, por exemplo, deu início a sua primeira grande expansão internacional com uma diferente estratégia-  focou na Índia, a segunda maior população do planeta.

 

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A China conta com empresas produtoras dos mais inovadores celulares do mundo

 

Mas, mesmo assim, os estrangeiros também acabam se beneficiando dessa nova onda inovadora do mercado chinês. Hoje em dia, está muito mais fácil se mudar para a China, trabalhar no país e buscar aliados locais. E Shenzhen é a capital mundial para os empreendedores: reúne o que há de mais inovador não só entre os chineses, mas entre as mentes provenientes dos mais variados países do mundo.

Ou seja, se a China antigamente era conhecida pelo rótulo de fazer ” boas cópias” de produtos estrangeiros, atualmente, é mais do que claro que essa ideia está bem ultrapassada.  E, se inovação se tornou um substantivo que resume o que de melhor é produzido na China hoje em dia, muito dessa transformação de visões se deve a Shenzhen. E, não é à toa que especialistas veem essa cidade chinesa como um “estande” do futuro: é por aqui que o avanço tecnológico mundial não só passa, mas nasce e floresce.

 

Fontes: China Daily, The Economist, The Guardian, El País e BBC

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