Relações Bilaterais entre China e Cuba

A notícia do falecimento do ex-presidente cubano, Fidel Castro, no dia 25 de novembro, pegou todo o mundo de surpresa. Embora há dez anos já afastado do governo de Cuba, o líder socialista de noventa anos ainda era o último ícone ainda vivo da Guerra Fria. À luz desse recente acontecimento, é interessante estudar as relações bilaterais entre China e Cuba, ambos países socialistas, e analisar quais têm sido os interesses chineses ao estabelecer uma relação de parceria com Havana.

 

relações bilaterais entre china e cuba



Os investimentos chineses na América Latina têm aumentado desde o início do século XXI. Em 2000, o total de transações comerciais entre China e os países dessa região equivalia a 10 bilhões de dólares. Já em 2011, o valor subiu para 183 bilhões, tornando clara a importância econômica latino-americana para o governo chinês. As relações bilaterais entre China e Cuba também são importantes, visto que o país asiático é o segundo maior parceiro comercial de Havana, atrás apenas da Venezuela, com um montante de 1,8 bilhões de dólares em transações comerciais em 2010. Ademais, os dois países estabeleceram acordos nas áreas de biomedicina, turismo, manufaturas, níquel e petróleo.

 

Histórico das relações bilaterais entre China e Cuba

O vínculo entre os dois países data de meados do século XIX. Em 1847, chegou na ilha o primeiro grupo de chineses contratados para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar. Estima-se que um total de cento e cinquenta mil chineses, vindos majoritariamente do sul da China tenham vindo. Em Havana, inclusive, há uma Chinatown, a mais antiga da América Latina. Houve inclusive a participação de chineses durante o movimento pela independência da Espanha e também na Revolução Cubana de 1959.

 

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Quando Castro assumiu o poder, ele rapidamente buscou estabelecer uma relação diplomática com o governo comunista da República Popular da China, sendo o primeiro país latino-americano a fazer isso. Assim, em 1960, Cuba deixou de reconhecer o governo em Taiwan como legítimo, cortando suas relações diplomáticas com a ilha.

 

Parceria econômica sino-cubana

As relações bilaterais entre os dois países foram crescendo nos últimos anos, principalmente depois da dissolução da União Soviética. Com o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, Cuba precisava de um aliado que satisfizesse suas necessidades econômicas. Esse período coincide com o início do rápido crescimento econômico chinês e a expansão dos investimentos externos do país asiático.

A China buscou a construção de indústrias no país caribenho. Uma das primeiras iniciativas foi a constituição de uma fábrica de bicicletas, construída com capital e tecnologia chinesa. Com o sucesso dessa iniciativa, outras instalações foram sendo construídas, visto que o próprio governo chinês abriu linhas de crédito e financiamento, além de empréstimos para incentivar o consumo de produtos chineses.

 

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Já durante o governo de Raul Castro, irmão de Fidel, novos acordos foram assinados entre os dois países. Assim, por exemplo, componentes eletrônicos passaram ser fabricados na ilha quando o Ministério de Informação e Comunicação do país entrou em uma parceria de joint venture com uma grande empresa chinesa do ramo de eletrônicos.

 

Disputa hegemônica entre EUA e China

A crescente presença chinesa não apenas em âmbito cubano, mas em toda a América Latina, desperta a preocupação da principal potência hegemônica na região: os Estados Unidos. A vantagem comparativa das indústrias chinesas, devido à mão-de-obra barata, além da iniciativa do governo chinês na construção do Canal da Nicarágua, tem aumentado a influência do país asiático no continente.

Soma-se a isso o fato de que as relações bilaterais entre China e Cuba também tem um objetivo militar. Durante a visita do vice primeiro ministro chinês à ilha em 2015, Raul Castro demonstrou interesse em estabelecer uma cooperação para renovar o seu armamento, o qual encontra-se defasado, pois provêm da era soviética.

A China é a segunda maior economia global, atrás apenas dos EUA. É a maior potência econômica dos BRICS e já tem projetos de ampliar sua esfera de influência no continente asiático com o projeto da Nova Rota da Seda. Os Estados Unidos, país que está se recuperando da crise financeira de 2008, têm enxergado essa expansão chinesa como perigosa aos seus interesses, ainda mais quando eles já estão muito próximos geograficamente ao território d0s EUA, como o caso de Cuba e o restante da América Latina. Os discursos proferidos por Trump durante a campanha à Casa Branca, demonstram a hostilidade e o ressentimento de uma parcela da população americana ao crescimento chinês, que prejudicaria a economia do país.

Durante a administração Obama, houve a reaproximação política e econômica entre os dois países, após mais de 50 anos de distanciamento. Sob o governo Trump, há muitas incertezas sobre o rumo que a política externa dos Estados Unidos em relação à Cuba tomaria, mas, de qualquer forma, é esperado que nos próximos anos o mercado cubano seja cada vez mais aberto ao capital estrangeiro e à presença dos EUA, contrabalanceando assim a influência chinesa na ilha caribenha.

 

Por Victor Fumoto, diretamente de Marília, SP, Brasil.

Fontes: Journal of Current Chinese Affairs, Reuters, The Diplomat

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