Racismo na China e Padrão de Beleza

Recentemente, uma propaganda de sabão para roupas causou polêmica ao “lavar” um homem negro e transformá-lo em um chinês de pele branca. As intensas repercussões internacionais e as diversas reações no país asiático acabaram por chamar a atenção para o importante debate acerca do racismo na China e um fator que incide diretamente em sua existência: o padrão de beleza chinês. Realmente existe racismo na China? E qual sua relação com os modelos de beleza do país?

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A propaganda de sabão para roupas Qiaobi foi considerada a “mais racista da História”

 

“A propaganda mais racista da História”

No final de maio, um vídeo chamou a atenção da mídia internacional, chegando a ganhar o título de “a propaganda mais racista da História”. A propaganda de 48 segundos é de um sabão para roupas da marca chinesa Qiaobi. O vídeo causou polêmica devido ao seu conteúdo: um homem negro se aproxima de uma mulher chinesa, que coloca em sua boca o produto de limpeza em questão e em seguida joga o jovem no interior de uma máquina de lavar. Quando o eletrodoméstico aponta o fim “da limpeza”, no lugar do homem negro, um jovem homem chinês de pele branca sai de dentro da máquina. A mulher, então, parece encantada com o resultado.

 

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O homem negro é transformado em um chinês de pele branca na propaganda racista

As diversas reações: o racismo na China

A propaganda da Qiaobi acabou ganhando imenso destaque na internet em âmbito mundial, abrindo discussões acerca da inadmissibilidade da produção e veiculação de um comercial dessa natureza. Na China, entretanto, onde o vídeo já havia sendo publicado um mês antes em salas de cinema e na televisão, a propaganda não causou tanto furor e a mídia local não chegou a dar atenção ao assunto. Mesmo com comentários de chineses na internet apontando a presença de racismo na propaganda, também foi possível observar que alguns cidadãos do país não chegaram a ver problemas com o conteúdo publicitário. O proprietário da empresa Qiaobi, por exemplo, chegou a afirmar que não havia percebido o sentido racista do vídeo, dizendo não ter “prestado muita atenção no anúncio”. Outro representante da marca chegou a afirmar que o intuito da propaganda era apenas a de promover o produto, sem qualquer intenção racista. Mesmo veiculando um pedido de desculpas público, o representante acrescentou que “a mídia internacional pode ter sido muito sensível sobre o anúncio”. Comparando as diferentes reações e a gravidade em que o caso foi tratado no mundo, um debate vem à tona: quais as proporções e fatores que influenciam para o racismo na China?

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A antiga Darkie, conhecida como “a pasta de dente dos negros”, faz mudanças na marca


Um histórico de racismo na publicidade chinesa

O comercial da Qiaobi pode ser considerado o de maior repercussão, mas não foi o primeiro a ser associado a conteúdos racistas.  A publicidade chinesa tornou-se um importante meio para se observar a existência e a prática a níveis alarmantes de racismo na China. Há alguns anos, a marca chinesa de cerveja  Harbin convidou o jogador de basquete Shaquille O’Neal para suas campanhas publicitárias devido à popularidade que os jogos da liga dos Estados Unidos têm no país. Mesmo sem problemas em relação ao conteúdo da propaganda em si, a participação do jogador criou debates racistas e discriminatórios no Tianya, um dos fóruns de internet da China mais utilizados. Outro caso conhecido é o da pasta de dente Darkie ( inglês informal para “dark”;  utilizado com tom pejorativo para se referir a negros), que após anos mudou o nome de sua marca para Darlie, pois era conhecida na China como “a pasta de dente dos negros”. Além do nome, o produto também acabou  reformulando sua antiga logomarca, um homem negro.

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Star Wars: à direita cartaz original do filme, à esquerda, o cartaz chinês acusado de racismo 

 

Em um caso mais recente, no ano passado, a campanha publicitária na China do filme Star Wars: o Despertar da Força causou polêmica internacional e acusações de racismo. O problema surgiu devido às comparações entre o cartaz original do filme e o veiculado na China. Na versão voltada ao público chinês, a imagem de um dos protagonistas, Finn, interpretado pelo ator negro John Boyega, foi visivelmente deslocada e diminuída, perdendo em muito sua visibilidade no material de divulgação. As controvérsias ainda apontam como relevantes a total exclusão de personagens como Poe Dameron, de traços latinos, vivido pelo ator Oscar Isaac, e de Maz Kanata, vivida pela atriz Lupita Nyong’o.

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Os “intelectuais de rosto branco” ( baimian shusheng) eram o padrão de beleza na China Imperial


Racismo na China: produto histórico e o padrão de beleza

A questão racial na China estaria muito ligada a fatores sociais historicamente construídos. Durante o período imperial ( século III a.C.- século XX d.C.), surgiram os chamados “intelectuais de rosto branco” ( baimian shusheng), que eram a representação do ideal de beleza masculino, caracterizados, como a própria expressão diz, pela pele branca. Por outro lado, os camponeses eram caracterizados pela cor de pele mais escura, devido aos trabalhos braçais sob o sol. No século XIX, a ideia de hierarquia racial foi influenciada pelo imperialismo europeu em contraposição com  as colônias africanas, vistas como de “desenvolvimento atrasado”. A Revolução Comunista de 1949 veio desestruturando essa ideia, tentando encerrar a associação de classe social com a questão racial. A África e a América do Sul, por exemplo, seriam vistas como territórios favoráveis para uma iniciativa revolucionária. Entretanto, a abertura econômica da China nos anos 1970 e a morte de Mao Tsé Tung trouxeram novamente à tona a antiga ligação entre a posição social e a questão racial na China. Durante o final da década de 70 e durante a de 80, por exemplo, foram variados os incidentes envolvendo conflitos raciais entre chineses e alunos de origem africana em universidades do país.

 

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Pele branca e corpos extremamente magros: um padrão de beleza que influencia no racismo na China


O Padrão de beleza na China

É perceptível, desde os baimian shusheng,  que um fator que está muito associado ao racismo na China é a questão do padrão de beleza no país. Com um modelo bastante específico do que é considerado bonito para os chineses, aqueles que não atendem a esse padrão, portanto, podem acabar sendo vítimas de preconceito. O padrão de beleza chinês aponta como ideal um rosto oval, com uma cor de pele mais branca possível, pois a pele mais escura é vista através da alusão histórica ao trabalho árduo dos camponeses debaixo do sol. Assim, os chineses não só acabam evitando a exposição solar, como é bastante comum a utilização de cremes clareadores para alcançar o tom mais pálido de pele. Os cabelos ideias são os lisos e os olhos vêm ganhando uma influência ocidental: na China, principalmente as mulheres, têm optado por cirurgias nas pálpebras. O corpo considerado como o padrão de beleza chinês é o extremamente magro e fino, chegando até mesmo a apontar um Índice de Massa Corporal (IMC) considerado abaixo dos níveis saudáveis. Para as mulheres, ainda, o ideal é ter quadril bem pequenos. É visível, portanto, que esse injusto padrão de beleza acaba por segregar muitas etnias da China.

 

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Mapa com as principais etnias chinesas


Uma China pluriétnica, mas hierárquica?

A China além de um país extremamente populoso, é dotado de uma grande pluralidade étnica em sua população. Entretanto, cerca de 92% do 1,4 bilhão das pessoas que vivem na China pertencem à etnia dominante Han, enquanto o restante se subdivide em muitos outros grupos considerados como minoritários, como os Zhuang, Uighurs, Hui, Miao e Tibetanos, por exemplo. Já os estrangeiros que vivem na China geralmente moram nas grandes cidades e somariam apenas cerca de 600 mil pessoas.
Dentre os estrangeiros, uma pequena parcela somente seria negra e, em sua maioria, vive concentrada em distritos nas cidades chinesas. Como exemplo, há Guangzhou, conhecida por abrigar a maior comunidade africana da Ásia, que vive na região chamada pelos chineses de “Cidade de Chocolate”. Assim, a questão numérica e a alta concentração seriam dois fatores que contribuiriam para uma insuficiente interação entre as diversas etnias no país, o que pode contribuir ainda mais com a questão do racismo na China.

 

 

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Governo chinês providencia alimentos e remédios a refugiados do Myanmar em Yunnan

A Questão dos Refugiados na China

Uma pesquisa da Anistia Internacional publicada em maio apontou a China como o país mais acolhedor para refugiados, em um total de 27 países analisados. De acordo com o resultado, 70% dos chineses entrevistados afirmavam concordar que as pessoas devem ter direito de se refugiarem em outros países em casos de guerra ou perseguição e  86% acredita que o governo chinês deveria fazer mais para ajudar os refugiados sob tais condições. O relatório ainda aponta que 94% dos chineses ainda seriam favoráveis a receber refugiados no país e 46% diz que os abrigaria em suas próprias casas. A pesquisa havia sido produto de entrevista com cerca de 1000 chineses de 14 cidades do país. Os resultados do relatório foram alvo de controvérsias. No mesmo dia em que foi publicada, um site de notícias chinês iniciou o debate acerca do assunto no Weibo, uma rede social cujas características seriam uma mescla do Facebook e do Twitter. As discussões e pesquisas realizadas no Weibo acabaram sendo bastante diferentes das apontadas pela ONG. Os resultados de uma enquete na rede social demonstrou que 90,3%  dos seus usuários chineses não aceitariam refugiados em suas casas, enquanto 73,6%  não os aceitaria nem em sua vizinhança nem em sua cidade.

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Resultados da controversa pesquisa realizada pela Anistia Internacional

O país,segundo o ACNUR, recebeu desde junho de 2015 cerca de 300.000 refugiados provenientes de vizinhos como o Vietnã e o Myanmar. Um número considerado abaixo das médias globais e da capacidade territorial da China. A considerada incipiente recepção de refugiados, bem como as reações contrárias da população estariam muito ligadas à situação econômica e demográfica da China atual. Os chineses afirmam ainda no Weibo que devem na verdade tratar com atenção a questão de refugiados internos e que o país não poderia se comprometer com casos internacionais, que não seriam, portanto, de sua responsabilidade. Os comentários online apresentam ainda em sua maioria a ideia de que “contanto que os refugiados não se dirijam a China, tudo bem”. O debate acerca de refugiados provenientes de questões religiosas ou do terrorismo demonstra posicionamentos ainda mais radicais na China, em que os nativos demonstram até mesmo relutância na expansão do islamismo no país. Assim, a questão dos refugiados também vem a causar preocupação quando se discute preconceito e racismo na China.

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Xi Jinping e Filipe Nyusi, presidente de Moçambique em encontro em Pequim para em encontro para estreitamento de laços entre os países


O Racismo na China e Interesses Comerciais

A China realmente apresenta a ocorrência de debates e demonstrações de racismo ao longo do tempo, demonstrando uma triste e inaceitável herança, que se perpetua por bases de cunhos históricos, sociais e econômicos diante, destacadamente, de uma imposição inescrupulosa de padrões de beleza.
Ao se analisar ocorrências específicas, além das movimentações nas redes sociais, a preocupação com o racismo na China ganha contornos ainda mais reais e palpáveis. Entretanto, os interesses do país em não querer se vincular à imagem de uma nação racista também têm raízes estratégicas internacionais. Oficialmente, o governo de Xi Jinping vem realizando declarações criticando práticas racistas no país, apontando-as como casos pontuais e inaceitáveis. Essa postura contribuiria para o posicionamento da China em sua busca para acentuar as relações amigáveis com os países africanos, cujas parcerias comerciais com o gigante asiático vêm crescendo nos últimos anos – e é de interesse do governo que assim continuem.
Mesmo com as alianças comerciais e dos discursos oficiais, é visível a longa caminhada necessária para a real extinção, na prática, das questões de racismo na China, um problema que, infelizmente, não é da exclusividade do país asiático. Há muito ainda o que se desconstruir acerca de padrões de beleza, o que se reeducar e o que respeitar acerca das diversas etnias presentes na China. De fato, a veiculação da propaganda da Qiaobi trouxe à tona a necessidade da sociedade de um sabão mais potente, mas que venha, na realidade, limpar a persistência da prática do racismo não somente na China, mas no restante do globo.

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

FONTES: BBC, CNN, Al Jazeera, Global Times, Shangaiist, Folha, What’s on Weibo

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