Julho 18 2018

Pombas e a nova tecnologia de vigilância por drones

Posted by Victor Fumoto

A China vem desenvolvendo a tecnologia de vigilância por drones com a aparência semelhante a de pássaros, mais especificamente, pombas. Ao contrário de veículos aéreos não tripulados com asas fixas ou pás de rotor, os novos drones realmente imitam a ação de bater as asas de um pássaro para escalar, mergulhar e girar no ar, replicando cerca de 90% dos movimentos de uma pomba real. As pessoas ficaram tão obcecadas pela ideia de voo desde o início dos tempos, que até hoje engenheiros e cientistas tentam decodificar os segredos no voo dos pássaros para melhorar o desempenho das aeronaves. Apesar da tecnologia ainda estar em desenvolvimento, sua ampla gama de usos possíveis – não apenas para a polícia e para o exército, mas também nos campos de resposta a emergências e socorro em desastres, proteção ambiental e planejamento urbano – vem atraindo a atenção de pesquisadores e agências militares e governamentais chineses.

 

 

Uma parte que comprova o uso deste mecanismo está localizada na região autônoma de Xinjiang Uygur, no extremo oeste da China. A vasta área, que faz fronteira com a Mongólia, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Afeganistão, o Paquistão e a Índia, abriga uma grande população muçulmana e é vista há muito tempo por Pequim como um foco de separatismo; por isso foram submetidos à forte vigilância do governo central. Além disso, os drones semelhantes a pombas e dispositivos relacionados foram implementados em pelo menos cinco províncias nos últimos anos por agências militares e governamentais.

 

Sobre o Programa e efeitos das Pombas

O programa “spy birds” (pássaros espiões), com codinome “Dove” (Pomba), é liderado por Song Bifeng, professor da Northwestern Polytechnical University (Universidade Politécnica do Noroeste) em Xian, capital da província de Shaanxi, noroeste da China.

Song era ex-cientista sênior do programa de jatos furtivos J-20 e já foi homenageado pelo Exército de Libertação do Povo – o exército da China – por seu trabalho em Pomba, de acordo com informações do site da universidade. Yang Wenqing, professora associada da Escola de Aeronáutica da Northwestern e membro da equipe de Song, confirmou o uso da nova tecnologia, mas disse que ela não é generalizada. Outro pesquisador envolvido no projeto Pomba disse que o objetivo era desenvolver uma nova geração de drones com engenharia biológica que pudesse evitar a detecção humana e até mesmo o radar; eles acreditam que a tecnologia tem um bom potencial para uso em grande escala no futuro e tem algumas vantagens exclusivas para atender à demanda por drones nos setores militar e civil.

Segundo um pesquisador integrante do projeto, que pediu para não ser identificado devido à sensibilidade do programa, foram realizados quase dois mil voos de teste antes de implantar as Pombas em situações da vida real.

Outras informações de um experimento realizado na interior da Mongolia, no norte da China, envolvendo o voo das Pombas sobre um rebanho de ovelhas, animais conhecidos por seu senso aguçado de audição e por serem facilmente amedrontados, demostraram que, mesmo com o seu instinto, o rebanho não se importou com o zumbido dos drones.

Além de replicarem 90% dos movimentos de uma pomba real, os drones também produzem pouquíssimo ruído, tornando-os muito difíceis de serem detectados do solo e tão reais que as próprias aves muitas vezes voam ao lado deles. Por essa razão, o mercado para os drones chega a valer 10 bilhões de yuans (US $ 1,54 bilhão) somente na China, disse o pesquisador.

 

 

Uma avaliação do sistema por um centro de pesquisa militar não especificado concluiu que o drone, com sua capacidade de permanecer no ar por mais de 20 minutos e percorrer 5 km, tinha de fato “valor prático”.

Apesar dos avanços tecnológicos feitos no projeto Pomba, os drones da China ainda estão longe de serem perfeitos, disse Song. Além de serem incapazes de viajar longas distâncias ou manter o curso em ventos fortes, seu desempenho pode ser muito prejudicado pela chuva forte ou neve, disse ele. Contudo, os pesquisadores estão trabalhando duro para resolver os problemas, e com os avanços na tecnologia de inteligência artificial e o aprendizado profundo, Song espera que a próxima geração de pássaros robóticos possa voar em formações complexas e tomar decisões independentes no ar. Quando esse dia chegar, as Pombas poderão “igualar ou superar a inteligência das criaturas encontradas na natureza”, disse ele.

 

Operacional e Estética

Cada máquina é equipada com uma câmera de alta definição, antena GPS, sistema de controle de voo e link de dados com capacidade de comunicação via satélite. O mecanismo de bater as asas compreende um par de manivelas balanceadas acionadas por um motor elétrico, enquanto as próprias asas podem se deformar levemente quando se movimentam para cima e para baixo, o que gera não apenas elevação, mas também impulso para lançar o drone para frente. O software especialmente projetado ajuda a compensar qualquer movimento brusco para garantir que a câmera a bordo obtenha imagens nítidas e vídeo estável.

Gan Xiaohua, engenheiro-chefe do Instituto de Pesquisa de Equipamentos da Força Aérea do PLA, em Pequim, disse que o design exclusivo das Pombas significa que pode converter energia elétrica em força mecânica com “alta eficiência”. E disse ainda, que é “o único micro drone biônico do mundo capaz de realizar uma missão sozinho”, em documento do governo.

O professor Li Yachao, pesquisador de radar militar no Laboratório de Tecnologia de Defesa Nacional do Processamento de Sinal de Radar, em Xian, disse que o movimento das asas da Pomba era tão realista que poderia enganar até mesmo os sistemas de radar mais sensíveis. O uso de camuflagem – talvez até mesmo penas reais – no corpo externo do drone poderia dificultar ainda mais a identificação pelo radar, disse ele.

 

pombas

Protótipo das Pombas.

 

As aves são voadores incrivelmente eficientes. O fuselo ou chalreta (Limosa lapponica), por exemplo, apesar de pesar apenas 290 gramas voa 11.000 km (6.800 milhas) sem escalas do Alasca à Nova Zelândia a cada outono. A jornada épica leva apenas oito dias. Em comparação, os drones da Pomba pesam 200 gramas, têm uma envergadura de cerca de 50 centímetros e podem voar a velocidades de até 40 km/h por um máximo de 30 minutos.

Cientes dos perigos que esses drones secretos representam para os sistemas convencionais de detecção e defesa aérea, os cientistas de radar têm procurado novas maneiras de localizar e rastrear alvos pequenos de baixa altitude voando em baixa velocidade. Estes incluem o radar holográfico, que é capaz de produzir imagens tridimensionais de objetos voadores e foi saudado como um avanço significativo na tecnologia de detecção. No entanto, “não há garantia” de que mesmo um radar holográfico – ou qualquer outra das novas tecnologias em desenvolvimento – seja capaz de detectar um drone com um padrão de asas agitadas quase idêntico àqueles encontrados na natureza, e especialmente se estiver cercado por outras aves, disse Li Yachao.

 

Por Jéssica Mensalieri Amaral, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: South China Morning Post, Sputnik.

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