Natal na China e a verdadeira casa do Papai Noel

“Existe Natal na China?”, ou ainda, “como os chineses comemoram o Natal?”. Essas são dúvidas bastante frequentes, tendo em vista que estamos falando de um feriado cristão, e na China apenas 10% da população total é cristã. Quer saber mais sobre o assunto? Continue lendo o artigo!

 

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Decoração de Natal do Niao Chao, um dos cartões postais de Pequim

 

O Natal na China

O Natal existe na China, mas é comemorado de uma forma bem diferente daquela dos países ocidentais, principalmente naqueles que são majoritariamente cristãos. No gigante asiático, o dia 25 de dezembro não corresponde a um feriado nacional. No entanto, isto não significa que o país não seja um entusiasta da celebração cristã! Graças às influências ocidentais na China, muitas características natalinas podem ser observadas nesta época e, cada vez mais, os estabelecimentos nacionais aderem às comemorações.

Apesar de muitos saírem à noite para jantar com seus amigos ou familiares, e de um número cada vez maior de chineses trocarem presentes nessa época – principalmente porque mais e mais estabelecimentos comerciais passam a aderir, anualmente, ao apelo propagandístico do bom velhinho para melhorarem suas margens de lucros -, se o dia cair no meio da semana, praticamente tudo funcionará normalmente no país. No Natal, os chineses trabalham ou vão à escola, como em qualquer outro dia.

 

Por que o Natal é diferente na China?

Um dos principais motivos para o Natal não ser um feriado nacional na China, é por conta da religião. No país, as doutrinas religiosas que se cristalizaram com maior força são: o Confucionismo, o Budismo e o Taoísmo. Sabendo que nenhuma dessas correntes possui origem cristã, o Natal acaba sendo comemorado, não em um nível nacional, mas mais em um ambiente familiar, entre os chineses que correspondem à pequena parcela de cristãos no país.

Além do fator religião, em uma sociedade tão antiga, como a chinesa, influências e costumes pagãos acabaram vigorando na cultura do país, tornando-se mais fortes do que a mentalidade cristã e as influências externas que surgiram depois, como é o caso do Natal.

Apesar disso, recentemente, a China tem recebido diversas influências do Ocidente, ainda que sejam menos contundentes do que seus costumes tradicionais. A chegada da religião cristã nesse país ocorreu logo no primeiro milênio que seguiu a morte de Cristo. E, a partir do século XIII, foi quando o Cristianismo recebeu maior aceitação por parte dos chineses, podendo consolidar, então, as bases de sua comunidade no país. Além disso, com a abertura econômica chinesa, na segunda metade do século XIX, o gigante asiático passou a receber cada vez mais influências externas, processo que continua firme e forte até os dias de hoje, principalmente devido aos avanços tecnológicos nas áreas de comunicação.

 

Como é comemorado o Natal na China e quais suas principais características?

Assim, o Natal vem ganhando cada vez mais espaço na China. As típicas decorações natalinas aumentam anualmente, com maior frequência nos estabelecimentos comerciais, como shoppings e supermercados.

 

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Apesar da grande decoração natalina, o Natal não é feriado na China!

 

O Natal na China é comemorado de maneiras muito diferentes, dada a imensidão geográfica do país. Nas áreas rurais, ou nos mais isoladas centros urbanos, o Natal nem mesmo existe, justamente pela falta de contato com as grandes cidades chinesas e o mundo ocidental.

São, principalmente, nos grandes centros urbanos do nordeste ao sudeste chinês que se concentram as decorações típicas natalinas como bolinhas coloridas penduradas em pinheiros, inúmeros presentes debaixo das árvores de Natal, guirlandas, músicas, os famosos papais-noéis, entre outras referências ao Natal. Por isso, são nas maiores cidades do país, como Shanghai, Hong Kong, Pequim e Shenzhen, que a inevitável influência estrangeira acontece e o Natal é mais presente na vida dos cidadãos chineses.

Percebe-se, principalmente nos estabelecimentos comerciais do país, como shoppings ou lojas em geral, que existe na data um grande apelo comercial. Nos dias 24 e 25 de dezembro, muitas pessoas saem para jantar com seus familiares ou amigos e trocam presentes como forma de demonstrar seu afeto a pessoas queridas, comemorando basicamente a data mercadológica e não necessariamente o nascimento de Jesus.

 

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O Natal vem ganhando cada vez mais força na China

 

Enquanto no Brasil existe o costume de se iniciar as propagandas natalinas bem cedo, lá pelo mês de outubro, e de terminar com as decorações natalinas logo no começo do ano seguinte, no gigante asiático, as coisas são um pouco diferentes. A decoração natalina na China, bem como os anúncios de Natal, começam mais perto do mês de dezembro e não terminam em janeiro, como estamos acostumados. Lá, as árvores enfeitadas, os papais-noéis e as musicas natalinas saem de circulação em fevereiro, na maioria das cidades, em março, em muitas delas, e até o mês de abril, em pontos específicos do país. Isso se deve ao fato de que o vermelho e o amarelo, cores muito presentes e típicas do Natal, são justamente as cores nacionais chinesas. Desse modo, até fevereiro, quando acontece o Ano Novo Chinês – o principal feriado nacional da China -, é quase como se o Natal ainda não tivesse chegado.

 

A grande demanda por artigos natalinos

Até a metade de 2017, computou-se a venda de mais de 200 milhões de yuans ou 30 milhões de dólares estadunidenses em decorações natalinas destinadas a todo o mundo! Todas essas mercadorias foram feitas na chamada “Vila do Natal” chinesa, ou Yìwū (义乌),  que é uma cidade, com cerca de 1,2 milhões de habitantes, localizada na província de Zhejiang, no leste chinês.

A cidade pode ser descrita como a verdadeira casa do Papai Noel, uma vez que é responsável pela gigantesca demanda que corresponde a uma consecutiva média anual de 77% da produção mundial de artigos natalinos, o que, em consequência, guarda em seu interior situações muito mais obscuras do que se é pintado por toda a aura festiva do Natal por todo o mundo.

Como dito anteriormente, apesar dos chineses festejarem o Natal de forma muito mais contida do que no Ocidente, a China abastece a gigantesca demanda por artigos natalinos em todo mundo. Desde o começo da presente década, a média de vendas dos itens referentes ao Natal atinge cerca de 4,1 bilhões de dólares estadunidenses, tendo a China exportado aproximadamente 77% desta média!

No esquema abaixo ilustram-se as estatísticas da exportação chinesa para artigos natalinos entre 2012 e 2016, a partir dos dados obtidos:

 

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Os Estados Unidos disparam como principais compradores dos artigos natalinos produzidos pela China, com mais de 40% de média de compra anual, seguidos pelo Reino Unido e pela Holanda, com 6% e 4,9% respectivamente, como se vê no gráfico mais abaixo. O Brasil estava, desde 2012, no sétimo lugar desta lista de importadores de itens natalinos, comprando o correspondente a 3,1% até o ano de 2016, quando houve um queda considerável para 1,3% nas importações brasileiras de tais mercadorias, colocando o Brasil na décima-quarta posição desde então.

 

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No mapa acima podemos ver os maiores compradores de itens natalinos produzidos na China

 

A porta de entrada da verdadeira casa do Papai Noel

A verdadeira casa do Papai Noel se localiza a milhares de quilômetros do pólo norte e se divide em mais de 600 fábricas, as quais são responsáveis pela produção de três quartos de todos os itens natalinos, como árvores de Natal, bolinhas brilhantes, entre outras representações do bom velhinho. A cidade símbolo do Natal chinês, conhecida como a “Vila do Natal” da China, é a cidade de Yiwu, localizada a uma hora e meia, de trem-bala, partindo de Shanghai, com destino ao sul.

Faturando uma média anual de 3 bilhões de dólares, de acordo com os números mensais da alfândega de Hangzhou, Yiwu deu início a todo o fenômeno do “Made in China”  na década de 1980, quando a cidade passou a fornecer para todo o mundo todos os tipos de brinquedos, ornamentos, pequenos eletrodomésticos, guarda-chuvas e acessórios natalinos. No entanto, diante de tatnta produtividade, há também uma grande problemática, justamente quando se fala dos mais de 13 mil residentes estrangeiros vindos do continente africano, do Oriente Médio e do sudeste asiático que trabalham nas mais de 600 oficinas!

 

Porta adentro

É impossível ignorar as condições de trabalho destes 13 mil funcionários, que trabalham na verdadeira casa do Papai Noel, as quais são abusivas, e alcançam, até mesmo, situações análogas à escravidão, uma vez que seus salários e jornada de trabalho são dramaticamente incoerentes; sem contar ainda com a extrema exposição destes a materiais tóxicos à saúde.

 

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O artista Anish Kapoor retratou a realidade das fábricas em Yiwu

 

Como retratou o artista Anish Kapoor, a tinta vermelha se espalha por todo o ambiente de trabalho para que se pinte os itens da forma mais rápida possível, sem realmente prezar pela saúde e integridade destas 13 mil pessoas.

O complexo foi declarado pela ONU o “maior mercado de atacado de pequenas commodities do mundo”, o que exigiria um modelo de plano urbano capaz de comportar uma produção de tamanha proporção. Tudo isso por salários tão miseráveis quanto as condição de trabalho, uma vez que os funcionários trabalham cerca de 13 horas por dia, durante sete dias por semana, para receberem o equivalente a 30 dólares por dia. Isso totaliza 4.745 horas das 8.760 horas que se têm no ano todo!

Sem contar que, somando os salários de todos os funcionários, em proporção com o faturamento bilionário destas fábricas, tais equivalem a 4,74%.  Toda essa estrutura existe para que possamos celebrar, do outro lado do mundo, o Natal aos nossos moldes, sem que realmente tenhamos ciência de tais acontecimentos. Talvez seja o momento para repensarmos, como adultos, que Papai Noel não existe e a obrigação de não esquecer ninguém nesse Natal, como dito na música, é nossa.

E aí? O que você achou do Natal na China e da Vila do Natal? Deixa sua opinião nos comentários!
 
 

Por Lys Brittes e Lucas Fortes Mulati

Fontes: China Link Trading, China Minha Vida, TradeMap, The Guardian, People’s Daily China, ABC News

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