Natal na China existe?

Não é novidade pra ninguém que o Natal está chegando. Anúncios na televisão, decoração natalina nos supermercados, nas lojas, Papais Noéis sorrindo e oferecendo as mais variadas ofertas e os descontos mais atrativos. Todo esse bombardeio comercial, somado ao clima familiar que permeia essa data tão especial, faz com que o Natal seja uma das maiores celebrações em dezenas de países, e inclusive a principal celebração em muitos deles. Mas será que o Natal na China também é assim? Neste artigo, analisaremos as principais características do Natal chinês, suas semelhanças e diferenças com relação à maioria dos países ocidentais, bem como os aspectos comerciais e econômicos que a data traz para o gigante asiático.

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Natal na China – Decoração de Natal do Niao Chao, um dos cartões postais de Pequim

 

Principais características do Natal na China

1) Decoração natalina

As decorações típicas do Natal, com bolinhas coloridas penduradas em pinheiros verdes, embrulhos de presente colocados em baixo da árvore de Natal, guirlandas e papais-noéis por todos os lados, podem ser encontrados na China com cada vez maior frequência. Principalmente em estabelecimentos comerciais, como shopping centers, supermercados e lojas diversas. Sim, o apelo comercial dessa data também é forte na China. Já na casa dos chineses isso tudo é bem mais difícil de ser encontrado. Uma parcela muito pequena da população chinesa se dispõe a gastar tempo e dinheiro com todos aqueles enfeites mencionados acima.

2) Feriado

Ao contrário do que ocorre na maioria dos países ocidentais, e principalmente nos países em que a maioria da população segue religiões cristãs, o Natal na China não é feriado. Mas então, o que fazem os chineses nos dias 24 e 25 de Dezembro? Bem, de noite muitos saem para jantar com familiares ou com amigos, frequentemente em restaurantes de estilo internacional. Um número cada vez maior de chineses também troca presentes nesses dias, o que explica, em parte, por que cada vez mais estabelecimentos comerciais aderem ao apelo propagandístico do bom velhinho cheio de presentes para as crianças (e também para os adultos, claro). Mas se o Natal cai em dia de semana, muitos estrangeiros na China podem nem se lembrar de que milhões de pessoas em outros países estão reunidas com suas famílias, celebrando o nascimento de Jesus. Isso porque os chineses trabalham normalmente, e vão à escola normalmente no Natal.

3) Lugares diferentes, celebrações diferentes

Falar em Natal na China é um pouco complicado, já que o país é um dos maiores do mundo. A imensidão geográfica chinesa faz com que, muitas vezes, cada região, cada província, tenham costumes próprios e diferentes uns dos outros. Assim, nota-se, por exemplo, a quase inexistência de referências ao Natal nas áreas rurais e mais isoladas do país. Por outro lado, é nas cidades que se concentram todas aquelas decorações natalinas citadas anteriormente, além de musiquinhas natalinas e demais referências ao Natal. As cidades que mais se destacam nesse aspecto são as que mais sofreram influência estrangeira, como Shenzhen, Shanghai, Guangzhou, Hong Kong e Pequim, entre outras.

4) Tempo de duração

No Brasil, grande parte dos anúncios natalinos começam a ser transmitidos bem cedo, a maioria já em outubro, fazendo com que os brasileiros entrem cada vez mais no clima de Natal conforme a data se aproxima. Na China, isso não é muito diferente. O que muda bastante é o mês em que os pinheiros enfeitados, os papais-noéis e as musicas típicas saem de circulação: fevereiro na maioria das cidades, março em muitas delas, e até abril em pontos específicos do país. Isso se deve ao fato de que o vermelho e o amarelo, cores muito presentes e típicas do Natal, são justamente as cores nacionais chinesas. Desse modo, até fevereiro, quando acontece o Ano Novo Chinês (o principal feriado nacional da China), é quase como se o Natal ainda não tivesse chegado. Depois disso, muitos comerciantes preguiçosos não se apressam nem um pouco em retirar as decorações natalinas de suas lojas.

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Típica torre chinesa enfeitada com decoração de Natal. Um dos sinais de que o Natal na China ganha cada vez mais força

 

Por que o Natal na China é assim?

1) História chinesa

Quase todo mundo sabe que a História da China é uma das mais longas e antigas do mundo. Indícios dos primeiros povoados remontam a até 5000 anos antes da Era cristã, e quando o Novo Mundo ainda passava do período paleolítico ao neolítico, a China já possuía armamentos sofisticados, uma rede de comércio pujante, e era comandada por um governo unificado, sob a figura do imperador. Em uma sociedade tão antiga, influências e costumes pagãos tiveram muito tempo para se consolidar na mentalidade dos chineses, tornando-se mais fortes do que influências externas, como é o caso do Natal.

2) Religião

Ao longo de todos esses anos de História, três doutrinas se cristalizaram com mais força na sociedade chinesa: o Confucionismo, o Budismo, e o Taoismo. O primeiro, considerado uma doutrina filosófica e comportamental, e os dois últimos considerados como sendo religiões.  Como podemos notar, nenhuma dessas correntes de pensamento tem origem cristã. Por isso, o Natal na China é celebrado em casa, com a família, apenas entre a população cristã do país, que gira em torno aos 10% dos chineses, de acordo com a maioria das fontes.

3) Influência estrangeira

Mas a China também tem recebido influências externas em muitos aspectos, no decorrer de toda a sua História, mesmo sendo menos contundentes do que as raízes locais chinesas. Particularmente importantes para o Natal na China foram:

a) A chegada dos primeiros cristãos

A chegada da religião cristã à China se deu mais cedo do que muitos imaginam. Ainda no primeiro milênio depois de Cristo, missionários Nestorianos chegaram ao país, que na época vivia sob o comando da dinastia Tang, e que corresponde ao período de ouro da prosperidade chinesa antiga. No entanto, foi a partir do século XIII que o cristianismo recebeu maior aceitação por parte dos chineses, momento em que também se deu a consolidação das bases da comunidade cristã do país hoje em dia.

b) A influência ocidental recente

Até o início do século XX, a China se manteve fechada ao Ocidente, principalmente se comparada ao Japão, que iniciara sua abertura em meados da segunda metade do século XIX. Entretanto, a partir do século XX, o gigante asiático tem recebido mais e mais influências externas, processo que continua ainda hoje, e com muito mais força, graças aos avanços tecnológicos nas áreas da informática e das comunicações.

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Anúncio publicado por loja durante o Natal na China

 

Aspectos econômicos do Natal na China

Essas influências vindas de outros países nem sempre entraram na China de forma suave. Mesmo no ano passado, manifestações da população, e até medidas adotadas pelo próprio governo chinês, contrárias à celebração do Natal na China têm ocorrido, considerando-o como algo alheio à cultura chinesa. Mas, como muitas vezes acontece, o fator econômico tem falado mais alto do que diferenças culturais e divergências políticas.

O fato é que o Natal atrai compras. E os comerciantes chineses cada vez mais se dão conta disso. Não apenas os pequenos e médios comerciantes, mas também diversas grandes empresas, às vezes com considerável poder de influência e lobby nos obscuros bastidores do Partido Comunista em Pequim. Muitas delas, se tomadas em conjunto, ainda exercem certa influência nos rumos econômicos do país, o que aumenta o peso de solicitações.

Sendo assim, mesmo ainda sendo uma data tímida, se comparado a outros festivais, o Natal na China vem ganhando força a cada ano, atingindo mais cidades e mais pessoas. Seu peso econômico também vem em aumento, sendo cada vez mais explorado por vendedores e produtores dos mais variados artigos.

Um feliz Natal a todos os leitores! E caso você venha passar o Natal na China, Shèng Dàn Kuài Le!

 

Fontes: New York Times, China na Minha Vida, livro “As religiões chinesas”

 

 

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