Missão Espacial Chinesa e seus Motivos

No último dia 17, a China lançou um foguete com dois astronautas a bordo, marcando a sexta missão espacial chinesa tripulada, que é, também, a mais longa da história do país. Às 7h30 no horário local, o foguete Longa Marcha 2F, contendo a nave Shenzhou-11,decolou do centro de lançamentos de Jiuquan, no deserto de Gobi. A cápsula foi então acoplada dois dias depois ao laboratório espacial Tiangong 2, onde os astronautas passarão cerca de 30 dias, voltando à Terra após esse período. Mas o que significa esse lançamento? E quais os planos da China e os motivos de seu interesse no espaço?

 

missão espacial chinesa
Lançamento da mais recente missão espacial chinesa

 

Missão espacial chinesa: a mais longa do país

A missão espacial chinesa tripulada do último dia 17 será considerada a mais longa da história da China. Jing Haipeng e Chen Dong, os dois astronautas a bordo, permanecerão em órbita terrestre por 33 dias. Desses, os dois primeiros dias foram gastos para que a cápsula fosse acoplada ao módulo, 30 dias serão para a permanência em seu interior, e um dia para o retorno dos astronautas à Terra. Esse tempo total é mais que o dobro da última missão espacial chinesa em 2013, que teve a duração total de 15 dias.

Jing Haipeng, de 49 anos, é o mais experiente da dupla, sendo essa sua terceira viagem espacial. Já para Chen Dong, de 37 anos, essa missão espacial chinesa é a sua primeira experiência no espaço. A meta dessa viagem é a de que os dois astronautas façam a verificação do funcionamento do laboratório espacial Tiangong 2, que foi lançado há cerca de um mês. A mídia chinesa afirma que os astronautas ainda terão como objetivo da viagem a realização de “experimentos no âmbito da medicina e das tecnologias espaciais”.

 

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Jing Haipeng e Chen Dong os dois astronautas chineses

 

A China no Espaço: um ambicioso futuro

Com essa recente missão espacial chinesa da Shenzhou 11, o gigante asiático determina 2016 como o ano de sua intensa corrida espacial. Somente nesse ano, cerca de 20 lançamentos foram realizados pela China. Além da Shenzhou 11 e do envio do laboratório espacial Tiangong 2 em setembro de 2016, a China fez lançamentos de satélites ao espaço com a finalidade de realizar estudos sobre a matéria escura, os buracos negros, além da comunicação quântica.

Mas os planos futuros do país já estão programados e são muito ambiciosos. A China prevê em 2018 o lançamento de uma sonda ao chamado lado oculto da Lua – a parcela que não pode ser observada a partir da Terra. A meta desse envio seria o recolhimento de amostras para serem examinadas na China. Em 2020, é  planejado o lançamento de outra sonda a Marte, com o intuito de realizar análises sobre a superfície e atmosfera do planeta. Já em 2022, o país ainda quer alcançar um ambicioso objetivo: construir e operar uma estação espacial própria. Já em 2025, a China ainda pretende enviar uma missão tripulada à Lua.

 

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A Lua também faz parte dos planos chineses no espaço

 

Um gigante também no espaço

O recente lançamento da missão espacial chinesa é considerado um passo essencial para o objetivo maior da construção de sua própria estação espacial, prevista para 2022. Esse grandioso objetivo vem como um resultado da não participação da China na Estação Espacial Internacional, um super complexo espacial construído a partir de investimentos dos Estados Unidos, Japão, Rússia e alguns países da Europa.

Mas por que os chineses ficaram de fora? A resposta vem ligada a desavenças com os Estados Unidos. O Congresso Nacional do país americano vetou a NASA de trabalhar com a China, alegando que a parceria poderia envolver problemas de segurança nacional.

Mesmo que o programa espacial chinês seja administrado pelos militares do país, o gigante asiático afirma que ele tem apenas fins pacíficos. Os chineses investem anualmente cerca de 19,3 bilhões de reais em seu programa espacial, mas ainda ficam atrás dos investimentos dos Estados Unidos voltados a essa área. Mesmo com uma acentuada diferença entre os dois países “rivais” nesse âmbito, o crescimento da China no setor espacial é visto por especialistas como surpreendente, ultrapassando até mesmo o Japão e o progresso considerável indiano. Dois pontos diferenciais do gigante chinês que o fazem um competidor direto dos Estados Unidos no espaço seriam o poder orçamentário do país asiático, combinado com sua enorme mão-de-obra.

 

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A rivalidade entre China e Estados Unidos também existe na corrida espacial

 

Uma nova corrida espacial?

A competição para deter a mais avançada capacidade espacial foi algo que marcou o período da Guerra Fria, opondo os dois rivais Estados Unidos e a extinta União Soviética. O conhecido informalmente como Projeto “Guerra nas Estrelas”, do então presidente Ronald Reagan, previa a criação de um sistema de satélites capazes de destruir mísseis enviados contra os Estados Unidos: ou seja, o domínio espacial se tornou sinônimo de maior segurança nacional. Nesse episódio, o lançamento de mísseis não foi concretizado, mas a ideia de importância militar na influência de um país no espaço, bem como a herança tecnológica enormemente desenvolvida na área durante o período, acabaram por se perpetuar até os dias atuais.

Assim, especialistas preveem que o interesse da China, tão perceptível com seu acelerado desenvolvimento espacial, também se baseia no desejo por prestígio em deter tecnologia de ponta nessa área, além da importância que essa mesma tecnologia pode apresentar sobre questões de segurança nacional.

Para as autoridades chinesas, o crescimento do país nesse ramo é visto com prioridade. Há o enorme objetivo de tornar a China uma referência mundial no que envolve a exploração espacial, introduzindo um forte competidor à supremacia herdada pelos Estados Unidos e pela atual Rússia n0s tempos da Guerra Fria.

Os planos chineses são extremamente ambiciosos, mas não se duvida que o país asiático venha em breve competir no mesmo patamar que os gigantes espaciais. A rivalidade com o país mais rico do mundo, que ultrapassa o âmbito da corrida espacial, certamente continuará sendo uma mola propulsora para os futuros lançamentos chineses e para o desenvolvimento de seu poder no espaço nos próximos anos. Mas será que estamos presenciando agora os primeiros passos de uma repaginada inspiração da “Guerra nas Estrelas”? O que aparenta certeza é que veremos um gigante se estender também ao espaço. A grandiosidade da China não cabe mais apenas nesse mundo. A nós, resta apenas acompanhar.

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: El País, Superinteressante, G1

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