February 13 2018

Mercedes-Benz se envolve em uma grande polêmica com China

Posted by Ana Yamashita

Há algumas semanas, a, mundialmente conhecida montadora alemã, Mercedes-Benz se envolveu em uma grande polêmica com os chineses, logo após publicar em suas redes sociais, mais especificamente o Instagram, uma foto que traria como legenda uma citação de Dalai Lama.

 

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A propaganda demonstra a grande imersão da empresa alemã na China.

 

Apesar de ser um ato aparentemente inofensivo para o mundo em geral, a frase “Observe uma situação de todos os ângulos, abra sua mente!”, claramente se referindo ao líder espiritual tibetano, citada pela montadora no dia 6 de fevereiro deste ano, gerou uma quantidade gigantesca de fúria por parte dos nacionalistas chineses nas redes sociais do país, justamente pelo fato do vencedor do Prêmio Nobel da Paz, Dalai Lama, ser encarado pelos chineses como um símbolo do separatismo tibetano, atribuindo ao líder até mesmo a denominação de “um lobo disfarçado” e obrigando-o a se exilar na Índia, após exigir maior autonomia para a região chinesa do Tibete.  Embora o Instagram seja bloqueado pelo governo chinês, a própria Mercedes-Benz apagou a publicação diante da polêmica, retratando-se, em mandarim, logo na terça-feira, dizendo estar consciente da gafe cometida e reconhecendo “lamentar profundamente a publicação de informações extremamente incorretas“, estando igualmente determinada a aprofundar seu conhecimento da cultura chinesa.

 

Os porquês por trás da polêmica criada pela Mercedes-Benz

Apesar de, aparentemente, a polêmica ser uma verdadeira “tempestade em copo d’água”, a montadora alemã, como grande aliada no mercado chinês de automóveis, não teria como se posicionar senão neutra à situação, uma vez que também, por toda a história envolvendo a região do Tibete e da China, exista uma grandessíssima problemática envolvendo a região e o país, que merece ser analisada a fundo.  A polêmica em que se envolveu a Mercedes-Benz e outras grandes empresas se inicia, de fato, no ano de 1912, quando o 13º Dalai Lama – líder político e espiritual do Tibete – fez uma proclamação reafirmando a independência do Tibete como uma nação pequena, religiosa e independente.

 

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O atual regime chinês invadiu o Tibete no ano de 1950.

 

O país tibetano tinha, inclusive, própria bandeira nacional, moeda, selos, passaportes e exército, assinando diversos tratados internacionais que mantiveram as relações diplomáticas com todos os países vizinhos. No ano de 1950, a situação foi alterada quando o atual regime comunista, recém-estabelecido na China, invadiu o Tibete, justificando sua ocupação ao alegar que o Tibete faz parte da China há cerca de 800 anos. Mesmo que tal reivindicação não seja suportada por vias de legitimidade plena, o governo chinês se manteve até os dias de hoje na região porque o Tibete é rico em recursos naturais e faz uma fronteira estrategicamente importante com a Índia.

 

Mas afinal, podemos considerar o Tibete um país ou não?

Legalmente falando, a gafe cometida pela montadora alemã Mercedes-Benz não pode ser examinada necessariamente como uma gafe, uma vez que o Tibete, apesar da condição se manter por quase 70 anos, foi ocupado de maneira ilegal pela China, configurando-se, até hoje, em um Estado independente, sob ocupação do governo chinês. Localizado no sudoeste da China, entre esse a Índia, Nepal, Birmânia e Butão, o Tibete manteve uma cultura única, linguagem escrita e falada, religião e sistema político durante séculos.

Hoje, como ocupação da China, foi dividido, renomeado e incorporado às províncias chinesas. Uma vez que é negado aos tibetanos dentro do Tibete o direito de falar livremente, não é possível dizer exatamente quais são seus objetivos, mas esses estabelecem, de forma clara, a oposição às regras da atual China. As manifestações tibetanas exigem repetidamente a proteção da identidade tibetana, da liberdade, dos direitos humanos e do retorno do Dalai Lama ao Tibete, tendo tal movimentação política, inclusive, nome próprio: Rangzen (como pode ser visualizado em diversos lugares do mundo, também como nome de restaurantes e até mesmo filme!), que significa “independência da China”.  No exílio na Índia há décadas, a décima terceira reencarnação de Dalai Lama estabeleceu um governo democrático que defende, atualmente, a “abordagem do caminho do meio”, propondo que o Tibete continue sendo parte da República Popular da China, mas com definitivo controle sobre suas próprias manutenções. Apesar do posicionamento, fica clara a reação chinesa em relação à publicação da Mercedes-Benz.

 

Reações na China

Embora a montadora alemã tenha se retratado prontamente no dia seguinte, a versão digital do Jornal do Povo, porta-voz do Partido Comunista, dedicou um editorial inteiro ao ocorrido logo na quarta-feira, encarando a Mercedes-Benz como “um inimigo do povo chinês” e acusando-a de obter lucros expressivos no país no setor automobilístico, e, ainda assim, humilhar o povo chinês.

 

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A reação chinesa à polêmica causada pela Mercedes-Benz classificou a montadora como “inimiga do povo chinês”.

 

A porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying, reafirma, como nos muitos outros casos de desrespeito de empresas ocidentais à cultura e política chinesa, que o país demonstra um imenso prazer em receber as empresas estrangeiras, mas uma vez que essas se fixam no altamente lucrativo mercado da China, todas devem respeitar a soberania e a integridade territorial do país.

 

A montadora entra para uma lista de empresas envolvidas em polêmicas com a China

No entanto, não é somente a montadora alemã que consta nessa lista de empresas que receberão represálias por parte do povo chinês, uma vez que várias outras foram identificadas, nos últimos anos, por “se esquecerem” da soberania chinesa, seja em casos envolvendo o Tibete, Hong Kong e até mesmo Taiwan. Uma das outras marcas que se destacaram de maneira negativa com a população chinesa ao se envolverem em polêmicas do tipo foram a marca espanhola Zara e a companhia aérea estadunidense Delta Airlines, ao incluírem em suas sedes Hong Kong e Taiwan na lista de “países” independentes, causando a fúria das mídias chinesas.

 

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Não foi somente a Mercedes-Benz que recebeu represálias por parte do povo chinês.

 

A imagem da empresa Zara ficou ainda mais desgastada com a China quando passou a oferecer produtos de péssima qualidade, falhando constantemente nas análises e ainda nem se retratando sobre o ocorrido, uma vez que tal atitude foi encarada como “arrogante” e não correspondente à imagem internacional que a marca espanhola carrega. Juntamente com a Mercedes-Benz, outra das marcas que se destacou negativamente foi o grupo de hotelaria Marriott Internacional, reagrupando o país em quatro territórios diferentes e sugerindo Macau, Hong Kong, Taiwan e Tibete como países independentes. Por isso, a rede foi acusada pelos nacionalistas chineses de incitar uma divisão da China. Logo após a identificação pelos internautas chineses, iniciou-se uma campanha de boicote e pedido de retirada da Marriot da China através das redes sociais que existem no país.

 

Por que as empresas citadas reagiram assim?

A reação comum destas empresas se assemelha grandemente à reação da Mercedes-Benz. É inegável que, para tais marcas, o mercado consumidor existente na China é uma mina de dinheiro, e, por isso, é óbvio que elas prontamente se retratariam para evitar danos multimilionários. No entanto, devemos aprofundarmos um pouco mais em tal reflexão.

De um lado temos a China em um constante cabo de guerra com regiões que passaram por períodos históricos tão diversos que não conseguiriam se sentir parte do país como uma unidade. Entretanto, a China é quem, nesta briga de forças, “dá as cartas” em relação a esses países, seja financeiramente ou até mesmo por questões bélicas. Dessa forma, devemos encarar a China como uma grande vilã que se apodera de áreas estratégicas? A resposta rápida é “com certeza”, mas, infelizmente, acabaríamos por nos encontrar em uma situação de igual peso, uma vez que diversos outros países, independente de seus sistemas políticos ou de sua longitude, historicamente agiram e até hoje agem desta maneira quando se trata de suas relações internacionais; muitas vezes gerando conflitos imensamente danosos para os civis, que nada tem a ver com tal problemática.

Assim, nunca poderíamos encarar qualquer país como vilões ou heróis em suas histórias, mas apenas como grandes organizações que disputam entre si o melhor para elas, independente de uma real satisfação de suas população. Da mesma forma, as empresas, conforme tomaram proporções multinacionais, tiveram que, simplesmente, entrar nesta grande dança.

E você? O que você acha sobre essa polêmica envolvendo a Mercedes-Benz? Compartilhe sua opinião conosco nos comentários!

 

 

Por Lucas Fortes Mulati, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: SwissInfo, FreeTibet, FashionNetwork, DN

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