May 22 2018

Mar do Sul da China: disputas políticas e a instalação de mísseis

Posted by Ana Yamashita

O governo chinês instalou mísseis em três dos seus postos avançados no mar do sul da China, de acordo com o canal de televisão americano CNBC, citando fontes dos serviços de Inteligência dos Estados Unidos. A emissora informou que as Forças Armadas chinesas teriam instalado mísseis de cruzeiro antinavio e sistemas de mísseis terra-ar no último mês. A China não se pronunciou sobre as possíveis novas instalações, mas diz que seus equipamentos militares nas Ilhas Spratly são puramente defensivos e que possui autonomia em seu próprio território.

Tal atitude é reflexo do contínuo e consistente crescimento econômico verificado nos últimos vinte anos, que tem possibilitado à China promover a modernização de suas Forças Armadas e o aumento de sua capacidade bélica, que, por sua vez, garante uma defesa mais enfática de seus interesses nacionais, notadamente aqueles relacionados à soberania.

 

 

O Mar do Sul da China

O mar do sul da China localiza-se entre os oceanos Pacífico e Índico e abrange uma área de aproximadamente 3,5 milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se dos Estreitos de Singapura e Malaca até o Estreito de Taiwan. Em sua extensão, tem cerca de dois mil quilômetros no sentido Norte-Sul e mil quilômetros na direção Leste-Oeste.

Alguns fatores conferem relevância regional e global ao mar do sul da China, quais sejam, as rotas de comércio marítimo; os recursos energéticos; e as atividades pesqueiras. Mais da metade da tonelagem da frota mercante mundial e um terço do volume do comércio marítimo global trafegam por essas águas. Tais aspectos evidenciam o foco de tensão entre os interessados na região. A China reclama boa parte do território, que também tem demandas de Brunei, Vietnã, Filipinas, Malásia e Taiwan.

A dependência de petróleo importado, majoritariamente transportado por via marítima, é motivo de grande preocupação dos dirigentes da China, pois configura-se como vulnerabilidade crítica da economia do país. Afinal, mais de 85% desse petróleo importado flui por Linhas de Comunicação Marítimas (LCM), com pontos focais controlados por outros Estados, muito especialmente o Estreito de Malaca, que liga o Oceano Índico ao mar do sul da China. Esse estreito, com cerca de três quilômetros de largura, estende-se ao longo do litoral da Indonésia, Malásia e Singapura. Isso significa que a China tem suas LCM vitais passíveis de estrangulamento por obra de eventuais adversários em situações de crise ou de conflito militar.

Quanto à pesca, o mar do sul da China responde por cerca de 10% da produção global de pescado, atividade que proporciona a subsistência de milhares de pessoas. Segundo o instituto de pesquisa chinês National Institute for South China Sea Studies (NISCSS), existem cerca de 400 mil chineses engajados diretamente em atividades de pesca no mar do sul da China.

 

 

Em 1947, o Ministério do Interior do Governo Chiang Kai-shek elaborou um mapa das ilhas do mar da China que foi publicado em fevereiro de 1948. Este mapa apresentava 11 linhas tracejadas que delimitavam a soberania chinesa por quase toda a extensão do mar do sul da China. Devido à forma das linhas que definem as reivindicações chinesas, o mapa se tornou conhecido como “U-Shape Line”. Após a vitória de Mao-Zedong na guerra civil chinesa e a proclamação da República Popular da China, os chineses revisaram o mapa e reduziram as linhas demarcatórias de onze para nove.

As disputas políticas no mar do sul da China envolvem vários Estados com reivindicações superpostas de soberania, cujo cerne do conflito é essa “linha dos nove pontos” apresentada pela China em 2009 e rejeitada pelos demais países da região, que afirmam a violação das zonas econômicas exclusivas (ZEE), que, por sua vez, impõem o limite de 200 milhas náuticas (370Km) assegurado pela Convenção da ONU sobre o Direito do Mar.

Apesar disso, a China reivindica seu direito sobre a região e, por essa razão, tem aumentado, nos últimos anos, a sua presença militar no mar do Sul da China, através da construção de ilhas artificiais e de infraestruturas militares adicionais.

 

mar

Mapa oficial chinês do mar do sul da China com as nove linhas pontilhadas. (Image by South China Sea. 9 Dash Line MAP – PRC).

 

O caso dos mísseis

A CNBC disse que os mísseis de cruzeiro antinavio YJ-12B permitirão que a China ataque embarcações dentro de 295 milhas náuticas. Segundo a emissora, os mísseis terra-ar de longo alcance HQ-9B podem ter como alvo aviões, drones e mísseis de cruzeiro a 160 milhas náuticas. Estes seriam os primeiros mísseis instalados nas Ilhas Spratly — um território reivindicado por vários países asiáticos.

Greg Poling, especialista em mar do sul da China no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, disse que tais desdobramentos são esperados, já que a China construiu abrigos antimísseis nos arrecifes no ano passado e já implantou esses sistemas de mísseis em Woody Island, mais ao norte. Além de ser um passo importante  no plano de Xi Jinping de dominar o mar do sul da China, dada a sua importante rota comercial global.

 

 

No mês passado, o almirante norte-americano Philip Davidson, nomeado para chefiar o Comando do Pacífico dos EUA, disse que as “bases operacionais avançadas” do mar do sul da China pareciam completas e que a China poderia usar essas bases para desafiar a presença regional dos EUA e “facilmente submergiria as forças militares de quaisquer outros demandantes do mar da China meridional”.

Os Estados Unidos, preocupados com a influência crescente do país asiático na região da Ásia-Pacífico, começaram a conduzir operações de liberdade de navegação (FONOP, na sigla em inglês), tentando garantir a segurança dos países vizinhos.

Os analistas militares advertem que o posicionamento dos sistemas de mísseis chineses nas ilhas disputadas pode vir a aumentar as probabilidades de confrontos entre os EUA e a China, se Washington decidir continuar as FONOPs na região no futuro.

A instalação dos mísseis pode provocar novas tensões entre os países da região, pois influencia na disputa sobre quem possui a soberania da região de 3,5 milhões de quilômetros quadrados de mar (quase três vezes a área do Estado do Amazonas), por onde passam anualmente US$ 5 trilhões do comércio internacional e um terço do tráfego marítimo global.

Continue ligado no blog!

 

Por Jéssica Mensalieri Amaral, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: BJIR; Sputnik; O GLOBO.

Gostou desse artigo? Então confira mais conteúdos e acompanhe as novidades em nossas redes sociais:

Facebook  |  Canal do Youtube  |  LinkedIn   |  Instagram   | Twitter |  Google +