Mao Zedong: a História do Líder Chinês

A presença de Mao Zedong na China vai muito além de seu icônico retrato na Praça Tiananmen, em Pequim. Seu Mausoléu, na mesma localidade, que abriga o corpo embalsamado do líder chinês, atrai diariamente não somente turistas, mas verdadeiros adoradores do fundador da República Popular da China. A história do revolucionário vem acompanhada de conquistas, de períodos de progresso econômico, mas também manchada por medidas polêmicas e perseguições políticas a opositores. O mais conhecido dirigente chinês no mundo e o líder mais sanguinário da História: Mao continua despertando, até hoje, as mais variadas opiniões e demonstra que, mesmo após 40 anos de sua morte, sua herança ao gigante asiático ainda se demonstra profundamente presente.

 

Mao Zedong
Icônico retrato de Mao Zedong, localizado na Praça Tiananmen

 

Mao Zedong

Mao Zedong, ou Mao Tsé-Tung, nasceu em 26 de dezembro de 1893, no vilarejo de Shaoshan, na Província de Hunan, centro da China. Seu pai previa ao filho o destino de se tornar um produtor agrícola, mas ele buscava para si um diferente caminho. Saiu de casa cedo para estudar e, no fim da adolescência, durante o colapso da Dinastia Qing, se juntou a uma unidade do exército revolucionário da província por seis meses. Acredita-se que a experiência tenha sido fundamental para aumentar os seus interesses militares, tendo, desde novo, se inspirado em personalidades como George Washington e Napoleão, além de guerreiros chineses.

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Foto do jovem Mao Zedong

Após a experiência, Mao Zedong encontrou dificuldades em decidir sobre o que gostaria de estudar. Considerou Direito, Negócios e História, mas acabou por graduar-se em um colégio de formação de professores em 1918, partindo para Pequim para estudo universitário e, ao mesmo tempo, trabalhou como assistente bibliotecário.

Foi nesse período de estudos que demonstrou grande interesse por política, estudando muitos pensadores ocidentais e, particularmente, foi inspirado pelas ideias de Karl Marx e Lênin. Também durante essa época, Mao criou laços com jovens que dividiam com ele um espírito revolucionário, que viam o socialismo como um caminho para os problemas chineses da época, marcada por grande pobreza, corrupção governamental e interferências estrangeiras.

 Demonstrava aptidão para a liderança desde jovem, chegando a atuar como líder estudantil nos locais em que estudou. E em 1921, foi o delegado de Hunan no encontro de fundação do Partido Comunista Chinês, ocorrido em Shanghai.

 

Mao como líder chinês

Em 1923, o Partido Comunista Chinês (PCC) se aliou ao partido nacionalista Kuomintang (KMT) para derrotar lideranças militares que controlavam, na época, grande parte do norte da China. Mesmo assim, em 1927, a aliança se quebrou e o KMT, sob a liderança de Chiang Kai-shek,  deu início a um período de perseguição aos comunistas. Assim, Mao e simpatizantes acabaram recuando até o sudeste da China, nas zonas rurais.

Lá, Mao e os membros do PCC criaram uma espécie de governo de inspiração soviética, além de dar início á construção de um exército de guerrilha. Eles acabaram ganhando cada vez mais apoio na região, muito influenciado pela redistribuição de terras que promoveram.

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Mao durante a Longa Marcha

As perseguições do KMT acabaram aumentando, culminando na chamada “Longa Marcha”, quando Mao e seus seguidores foram obrigados a fugir em uma viagem de 6.000 milhas ao noroeste chinês,  buscando o estabelecimento de uma nova base para o grupo. Estima-se que apenas um décimo dos 80.000 seguidores sobreviveu ao episódio. Nessa época, já era considerado indiscutível que a liderança do Partido Comunista Chinês cabia a Mao Zedong.

Posteriormente localizados na montanhosa cidade de Yan’na, Mao e seus seguidores se reorganizaram na região. Ali, o líder acabou por desenvolver suas ideias. Utilizando como molde os pensamentos de Marx e Lênin, mas adaptando-os à realidade chinesa da época, ele criou uma vertente que ficou conhecida então como Maoísmo. O Maoísmo tornou-se, então, a marca do PCC, tendo seus seguidores que seguir seus ideais.

Uma pausa no conflito entre o PCC e o KMT ocorreu durante o cenário da Guerra Sino-Japonesa( 1937-1945),  quando, após a invasão dos japoneses ao país, os dois partidos atuaram momentaneamente como aliados. Encerrado o conflito, as diferenças se reacenderam  e a disputa entre os partidos levaram a uma guerra civil no país.

 

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Mao proclamando a fundação da República Popular da China, na Praça Tiananmen, em 1949

 

Fundação da República Popular da China

Os comunistas, sob a liderança de Mao Zedong, alcançaram a vitória, expulsando os seguidores do KMT, liderado por Chiang Kai Shek, que se estabeleceram na região de Taiwan. A vitória do PCC foi então oficialmente celebrada em 1 de outubro de 1949, quando Mao anunciou oficialmente a formação da República Popular da China. Quando o líder assumiu o poder, se deparou com uma economia fragilizada pelos anos de guerra, sem uma moeda unificada e com altos índices de inflação. Seu objetivo tornou-se, então, a reestruturação do país, social e economicamente, o mais rápido possível.

Assim, foram instauradas séries de medidas que visavam à transformação da sociedade chinesa da época. Produtores rurais se organizavam em coletivos e o desenvolvimento industrial vinha representado sob as figuras de empresas estatais. Solicitando empréstimos à antiga URSS de Stálin, Mao Zedong estava conseguindo reerguer a economia chinesa em um período consideravelmente curto. Os camponeses chineses, por exemplo, de 1949 a 1956, conseguiram aumentar em mais de 70% a produção de grãos do país. Em 1956, Mao afirmou o apoio a intelectuais chineses, incentivando a livre troca de pensamentos e visões no país. Entretanto, alguns desses “pensamentos livres” acabaram levando a críticas ao governo e alguns intelectuais acabaram sendo enviados às zonas rurais, com a finalidade de uma “reeducação”.

 

Propaganda da época que estampava a
Propaganda da época trazia o “Grande Salto à Frente” como um plano de progresso chinês

 

Um “salto” que deu errado

Mesmo com as transformações iniciadas por Mao trazendo consideráveis resultados ao país, o líder deu início a um plano que culminou em desastres. Em 1958, foi anunciado o chamado “Grande Salto à Frente”, um plano que previa modernizar a indústria chinesa, desejando transformá-la em uma potência industrial mundial, além de aumentar o rendimento da produção rural do país. Para tentar alcançar essas metas, milhões de chineses tiveram que abandonar produções de subsistência e migrar a fazendas coletivas e indústrias estatais. Entretanto, desastres naturais e o encerramento da ajuda financeira soviética auxiliaram a catástrofe dos planos do governo chinês. Os resultados do projeto de Mao culminariam então na chamada “Grande Fome de 1959-1962”, onde estima-se que 30 milhões de pessoas morreram na China devido à ausência de alimentos suficientes no país.

Sua popularidade sofreu um abalo com esse desastre, mas Mao seguiu um novo plano para reacender o apoio popular com a chamada Revolução Cultural, que, segundo ele, deveria servir para reacender o “espírito revolucionário”, principalmente entre os jovens, diante das cisões internas que o Partido Comunista demonstrava sofrer na época.

 

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Propaganda da Revolução Cultural cultua a imagem de Mao

 

Culto à imagem

Com as diferenças internas do PCC e discussões acerca da eficácia das políticas de Mao, a Revolução Cultural veio como um projeto que almejava solucionar esses problemas. O líder chinês convoca então o combate de “hábitos burgueses”, apontados como os problemas das divergências que surgiam na época. A propaganda chinesa definia que todos os cidadãos tivessem o Livro Vermelho, uma coletânea de citações de Mao Zedong, abordando o Maoísmo.

 

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Mao foi inspiração para o artista Andy Warhol

 

A  imagem  de Mao se alçou também em pôsteres, cartazes, sendo utilizada não somente por jovens chineses, como atravessando fronteiras internacionais. A imagem de Mao passou a estampar quadros do artista dos Estados Unidos Andy Warhol, além de também marcar presença na revolta de maio de 1968, em Paris, e o Livro Vermelho passou a ser lido em cada vez mais locais do mundo.

 

Líder sanguinário?

Apesar de reacender o culto à imagem de Mao, bem como seu poder de influência, a Revolução Cultural também é vista como um período que gerou violência no país e é um dos marcos de um legado de sangue do líder chinês. Dados mostram que Mao é considerado como o líder mais sanguinário da História mundial: é creditada à sua administração a morte de cerca de 78 milhões de pessoas na China – número que seria superior aos causados por Stálin e Hitler.

As mortes creditadas a Mao são relacionadas àquelas fruto da Grande Fome, bem como das perseguições a opositores de seu governo.  Sobre esse item, três momentos são vistos como os mais relevantes:  a tentativa de eliminar a oposição logo após a vitória do PCC, entre 1950 e 1951; a repressão frente às movimentações por autonomia do Tibet, em 1959; e justamente o período da Revolução Cultural, entre 1966 e 1975, considerado o mais traumático. Nesse último, a perseguição aos opositores foi vista como ferrenha, com perseguições, assassinatos e processos de “reeducação”, que previam a mudança de posicionamento contrário ao regime. Ainda é afirmado que milhares cometeram suicídio.

 

Uma surpreendente aproximação

Uma das últimas ações internacionais de Mao Zedong foi a surpreendente aproximação com os Estados Unidos. Crítico ferrenho e opositor do imperialismo do país americano no início da década de 70, Mao começa uma nova forma de se relacionar com os Estados Unidos.  O líder já havia cortado relações com a União Soviética na década anterior, pois percebia que Moscou via a China mais como uma rival à liderança da parcela comunista mundial, do que verdadeiramente uma aliada. Assim, em 1972, Mao recebe Richard Nixon na China: o primeiro presidente dos Estados Unidos a visitar o país asiático.

 

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Mao e Richard Nixon apertam as mãos: uma surpreendente aproximação

 

Foram os primeiros passos da relação entre as duas nações, que seria então desenvolvida nos governos posteriores a Mao. No mesmo período, o líder chinês ainda permite o retorno de Deng Xiaoping, que havia sido expulso durante a Revolução Cultural, e que, anos depois, iria suceder Mao na liderança do país. Seus últimos passos são vistos como responsáveis pelo grande salto econômico que a China conheceria nos anos posteriores. Em 9 de setembro de 1976, Mao acaba por falecer, vítima de um ataque cardíaco.

Mao Zedong é visto como um polêmico líder por conseguir acender discussões sobre sua imagem de dualidade, gerando, muitas vezes, controversas opiniões. Revolucionário, é, provavelmente, o nome de liderança chinesa mais conhecido no mundo, e, cuja importância para o país, é inegável. Mesmo tendo um legado controverso, marcado, ao mesmo tempo, por seguidores apaixonados e muito sangue, Mao conseguiu um lugar de destaque inigualável na história da China.

 

Fontes: BBC, CNN,  Independent, Encyclopaedia Britannica

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