March 09 2018

Aço e a disputa comercial entre EUA, China e Brasil

Posted by Ana Yamashita

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou recentemente novas medidas protecionistas, que tem tido repercussão internacional. O motivo? A sobretaxação de 25% nas compras americanas de aço produzido em outros países e 10% na importação de alumínio visando atingir a China, mas quem sofrerá com a ação são, principalmente, os países exportadores da commodity, como o Brasil.

 

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Trump em entrevista na semana passada: “Vocês não tem ideia de quão mal nosso país foi tratado por outros países”.

 

O Aço chinês

A China é a maior produtora e consumidora mundial de aço e alumínio, com mais de 50% de todo aço produzido. O país comporta a maior indústria siderúrgica do mundo e, ainda assim, sua produção não é suficiente, sendo portanto, o maior dos países importadores de minério de ferro.

 

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A China tem um peso muito grande sobre os valores mundiais de minério de ferro e aço.

 

A grande questão é que tanta capacidade produtiva ainda não se encontra plenamente explorada, visto que existe um excedente de produção estimado em 500 milhões de toneladas. Entretanto, a China tem buscado reduzir sua produção sob promessa de combater a poluição do país. Em 2017, foram reduzidos o excesso de capacidade em aço em 50 milhões de toneladas e estima-se cortar 30 milhões em 2018.

Tal magnitude evidencia como a China é um player dominante no setor. A grande concentração de indústria siderúrgica está instalada hoje no país, de modo que a indústria siderúrgica brasileira, americana ou mesmo europeia, é impactada pelos preços e o rendimento vindo da Ásia. A produção anual brasileira de aço, por exemplo, corresponde à produção de 14 dias na China. Isso significa que o país tem um grande peso sobre os preços mundiais do minério de ferro e, consequentemente, do aço, além de ser altamente competitivo.

 

 

Protecionismo estadunidense

Segundo o Presidente Donald Trump, a China inundou o mercado americano e forçou com que seus produtores reduzissem seus preços. A enorme produção chinesa de aço e a grande disponibilidade dificulta a concorrência de menores produtores, de modo que faz com que esses diminuam muito os seus preços para tornarem-se competitivos. Isso leva as indústrias que dependem do aço – tal como a automobilística – a procurar metais importados mais baratos.

Com um argumento bastante explorado desde sua campanha eleitoral, Trump reagiu exaltando a importância da proteção comercial americana. Na sua conta do Twitter, o presidente estadunidense declarou que “Eles [a China] destruíram a indústria siderúrgica, a indústria do alumínio e outras indústrias. Eles destruíram e levaram as indústrias para outros lugares – a indústria automobilística foi para o México porque nós não sabíamos o que estávamos fazendo, mas estamos trazendo tudo de volta”.

 

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Trump diz em sua conta do Twitter que “guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”.

 

Trump acionou a chamada seção 232, criada nos anos 60, por John F. Kennedy, para dar ao presidente o direito de investigar se há importações que ameaçam a segurança nacional – seja pelo risco de desabastecimento ou pelo impacto econômico de uma concorrência desleal. Nos últimos 54 anos, esse dispositivo foi utilizado 26 vezes, mas em apenas cinco obtiveram alguma resolução.

Frente a esta situação, o governo americano anunciou a sobretaxação de 25% na importação de aço e 10% na importação de alumínio,visando atingir principalmente a China. O objetivo é, portanto, fazer com que os chineses reduzam sua produção e exportação para os EUA, e a medida é posta como necessária diante da competição desleal de outros países, especialmente o Estado asiático. Ainda, é importante lembrar que recentemente o governo reduziu a carga tributária das suas empresas para tornar o produto americano ainda mais competitivo.

 

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Trump anunciando a nova medida em reunião com produtores de aço e alumínio americanos.

 

Entretanto, além do protecionismo aos produtores nacionais, a intenção norte-americana é também reduzir o enorme déficit comercial que tem com o país asiático. O questionamento que se faz é por que os EUA estão atingindo a China na siderurgia se a maior parte das importações americanas não são nesse setor? A China é o 11º país que mais exporta aço para o mercado americano, de modo que não representa um dos principais parceiros nessa área. Em contrapartida, produtos eletrônicos, brinquedos e têxteis correspondem, por exemplo, a 48% das importações. O fato é que, ao barrar esses produtos, outras repercussões significativas ocorreriam na cadeia de produção global de alguns países aliados – como o Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Assim, tem atingido outros setores, como recentemente as barreiras à importação de painéis solares – setor em que a China é a maior produtora e instaladora do mundo – e ameaçado o setor siderúrgico, que é extremamente importante para qualquer país que busca desenvolvimento.

A assinatura oficial da medida ocorrerá na próxima semana, mas já tem sido motivo de atenção não só pela China, mas por todos os principais exportadores de aço aos EUA, incluindo o Brasil.

 

As consequências para o mundo

Mas, se o foco é a China, essa não é a única afetada. O Canadá fornece 16,7% do aço importado pelos EUA, seguido pelo Brasil com 13,2%, Coréia do Sul 9,7% e Rússia com 8,1%. Isso significa que esses sim são os reais países a sofrerem com a medida. Frente a isso, os Estados tem reagido de formas adversas.

A China pediu ao governo americano que contenha o uso de medidas protecionistas e “respeite as regras” do comércio internacional. Liu He, que deve ser nomeado vice-primeiro-ministro chinês, esteve nos EUA em reunião com autoridades do governo americano para discutir a situação. A China declarou que tomará medidas de retaliação necessárias caso os Estados Unidos ajam dessa forma e ainda poderá restringir as remessas de soja dos americanos por “taxas de reciprocidade”, o que pode prejudicar o apoio de alguns estados agrícolas ao presidente Trump. A China absorve mais da metade das exportações norte-americanas desse setor; em 2017, foram 12,4 bilhões de dólares em soja.

 

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Liu He se encontra com membros do governo Trump para discutir as disputas comerciais envolvendo o mercado de aço.

 

Tanto a Europa, quanto o Canadá, também se manifestaram frente a essa decisão. A União Europeia ameaçou taxar empresas americanas, como a Harley-Davidson e Levi’s. México e Canadá receberam essa notícia com muita preocupação, principalmente por estarem em negociações de reformulação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). O Fundo Monetário Internacional (FMI) relatou que essa medida será muito danosa à economia global e do próprio país.

Diante da indignação de todos, há o discurso de se adotar formas de represália contra a medida, mas a realidade é que existe também o medo de maiores sanções americanas em resposta, afetando ainda mais o comercio bilateral. Além disso, toda essa situação refletiu negativamente nas bolsas de valores do mundo, derrubando ações de siderúrgicas, inclusive brasileira.

 

E o Brasil?

 O Brasil também será bastante afetado com a nova medida neste setor, pois é o segundo maior exportador de aço para os EUA e primeiro em aço semiacabado (matéria-prima para produtos laminados). Mas, tal qual qualquer outra nação com menor poder econômico, o Brasil se porta com maior cautela em fazer ameaças de sanções. Nesse sentido, tem buscado trabalhar mais através da diplomacia para reverter a decisão.

Os esforços brasileiros tem sido, nos últimos meses, em dissuadir a decisão americana ou, pelo menos, deixar o Brasil de fora. Ainda nesta semana, reuniram empresários, políticos e lobistas juntos à embaixada brasileira em Washington para buscar alternativas à essa medida. A negociação deve ter como principal elemento de barganha o carvão, isso porque o carvão americano é um dos principais motores da indústria brasileira e, caso a produção de aço brasileira diminua, consequentemente diminuirá a compra deste produto dos EUA. Todavia, Trump ainda não fez nenhuma referência à exclusão de alguns países da aplicação da nova tarifa.

A preocupação brasileira está no fato de que o comércio com os EUA nesse setor é muito importante para o país. Em 2017, o faturamento brasileiro foi de R$8,3 bilhões, em 4,7 milhões de toneladas de aço vendidos aos americanos. E a sobretaxação inviabilizará as vendas brasileiras, uma vez que, em um mercado tão competitivo quanto este, a sobretaxa representa um entrave muito grande para a competitividade da indústria brasileira.

 

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Segundo o presidente da AEB, algumas empresas ainda optariam pelo produto brasileiro, seja pela qualidade, preço, fidelidade ou por contratos que ainda estivessem em andamento.

 

Segundo o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, caso a medida seja realmente adotada, o país terá uma queda de 30% nas exportações de produtos para os EUA e deverá concorrer com a China e a Rússia por novos mercados. Mas, ambos os países também se portarão de maneira mais agressiva buscando mercados alternativos. Quanto aos aços semiacabados, ele acredita que não estariam inseridos na nova taxação, uma vez que são uma matéria-prima essencial para as siderúrgicas americanas.

Com isso, se a tensão entre EUA e China tem preocupado muito o setor siderúrgico nacional, por outro lado representa uma oportunidade para o setor agrícola brasileiro. Isto porque o Brasil é o principal concorrente dos EUA no fornecimento de soja para a China e, caso haja realmente a restrição de compras da soja americana, o Brasil pode se beneficiar nessa área, inclusive porque, segundo analistas, a produção de soja brasileira tende aumentar nesta próxima colheita.

Para saber mais sobre a China e importação, fique ligado no blog!

 

Por Anna Carolina Monéia Farias, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: BBC Brasil, Deutsche Welle, Valor Econômico, Estadão, Exame, Globo Rural, G1

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