May 07 2018

Etanol: entenda o embate entre China e EUA

Posted by Victor Fumoto

A China notificou a Organização Mundial do Comércio (OMC), no último mês de abril, sobre a imposição de  tarifas retaliatórias equivalentes a 611,5 milhões de dólares sobre importações dos Estados Unidos que somam 2,75 bilhões de dólares, o que inclui carne de porco, nozes e etanol, como uma resposta às sobretaxas dos EUA sobre as importações de aço e alumínio. O embaixador da China em Washington, Cui Tiankai, afirmou que o governo de Xi Jinping adotará contra-medidas de “igual proporção” contra os Estados Unidos, caso o país imponha novas tarifas contra os produtos chineses.

 

 

Em relação ao etanol, as tarifas para os americanos aumentaram de 30% para 45%, levando empresas chinesas a abandonar, por enquanto, a compra dos EUA. O aumento representa um contra-ataque do governo chinês à política de Donald Trump, com a aplicação de novas alíquotas a 128 produtos americanos, dentre eles, o etanol.

A guerra comercial entre Trump e Xi Jinping uma vez mais obrigou o setor a repensar sua estratégia. Antes mesmo da entrada em vigor das novas tarifas chinesas, os exportadores americanos já temiam o impacto negativo desta política. “A resposta da China era esperada, dada as recentes ações de nosso governo (Trump) em implementar novas tarifas”, disse Bob Dinneen, presidente da Associação de Fabricantes de Combustíveis Renováveis dos EUA. “Espero agora que a Casa Branca entenda o impacto que suas ações têm sobre a indústria do etanol americano e de seus fazendeiros.”

 

Conjuntura atual da comercialização de etanol

Nos últimos anos, a China aumentou de forma substancial suas compras de etanol. Em 2015, ela havia importado 686 mil metros cúbicos, um aumento de 2.700% em relação a 2014. Em 2016, as compras aumentaram em mais 51%. Mas, em 2017, com uma primeira elevação de tarifas de 5% para 30%, as importações desabaram. Elas começaram a ser retomadas apenas em janeiro de 2018, com um total de 280 mil metros cúbicos de compras dos EUA, nos dois primeiros meses do ano. A retomada das compras havia ajudado a exportação mundial de etanol americano a bater um novo recorde.

A produção média de etanol nos Estados Unidos foi de 1,009 milhão de barris por dia na semana encerrada em 13 de abril, volume 2,41% menor do que o registrado na semana anterior, de 1,034 milhão de barris por dia. Os números foram divulgados em 18 de abril pela Administração de Informação de Energia do país (EIA, na sigla em inglês).

 

etanol

Produção diária de etanol dos EUA (Image by NovaCana).

 

O etanol é produzido geralmente a partir de milho ou cana-de-açúcar, e, muitas vezes, é misturado à gasolina para reduzir a poluição causada por emissões dos veículos. Dado o aumento na taxação do produto estadunidense, o plano chinês é usar os estoques de milho do país para produzir domesticamente o etanol.

Contudo, para atingir as metas do governo de ter 10% do mix energético composto pelo biocombustível até 2020, a avaliação é de que a China terá de voltar a importar e deve buscar novos fornecedores para abastecer seu consumo doméstico e cumprir a meta estabelecida.

 

Nova estratégia norte-americana

Como uma alternativa a taxação do produto pelo governo chinês, os EUA avaliam a possibilidade de elevar o nível de etanol da gasolina nacional. É uma tentativa de garantir outro mercado para os seus produtores. O que se comenta nos corredores da Casa Branca e no setor sucroalcooleiros é que o percentual de etanol permitido na gasolina estadunidense, que hoje é de 10%, passaria a ser de 15%, com a finalidade de gerar mais consumo de milho e etanol dentro do próprio território estadunidense.

“A China criou restrições à soja e ao etanol norte-americano. Então, Trump quer ajudar o produtor norte-americano. A ideia é produzir menos soja para fazer mais milho, que é usado na produção do etanol. Afinal, nos Estados Unidos, esses produtos normalmente são feitos pelas mesmas pessoas e essa medida geraria um mercado adicional potencial de 70 milhões de toneladas de milho”, explicou o membro do Conselho Nacional de Políticas Energéticas (CNPE), Plínio Nastari.

 

 

Além disso, indiretamente, tal medida também poderia beneficiar os produtores brasileiros, pois ao elevar o consumo interno nos EUA, poderiam reduzir a exportação do seu etanol para o Brasil, dando mais oportunidade à produção local do biocombustível.

 

Impacto para o Brasil

Antes da constatação do aumento do percentual de etanol na gasolina norte-americana, a União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica) acreditava que o Brasil não teria muitas vantagens nessa disputa, tendo em vista que o país não teria álcool excedente para exportar e o etanol que a China deixaria de importar dos EUA “sobraria” no mercado e poderia ser desviado para o Brasil.

O aumento percentual de etanol na gasolina estadunidense não seria obrigatório, como no Brasil, que exige uma participação de 27% de álcool na gasolina nacional. “Nos EUA, não existe uma obrigação. O governo autoriza determinado nível e mistura de acordo com os critérios técnicos. Eles avaliam se a frota de automóveis suporta um teor mais elevado de etanol. E o que Trump pretende é estender essa autorização para 15%”, explicou Nastari, dizendo que a medida ainda pode ser temporária e, inicialmente, vigorar apenas neste ano.

Dessa forma, a elevação da mistura ficará a cargo do mercado. Contudo, a expectativa é que os distribuidores de gasolina norte-americanos sejam receptivos à ideia devido à vantagem competitiva do etanol, como argumentou o conselheiro do CNPE, dizendo que, caso se consolide, isso poderá trazer boas perspectivas para o Brasil.

“Se toda a gasolina norte-americana tiver 15% de etanol, haverá um consumo adicional de 27 bilhões de litros, o que equivale a aproximadamente toda a produção anual de etanol combustível do Brasil. E, ao criar esse mercado adicional tão significativo, a medida vai absorver os excedentes norte-americanos”, explicou Nastari, lembrando que, atualmente, parte desse excedente é exportado para o Brasil.

Segundo o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool (Sindaçúcar-PE), apesar de a produção brasileira ser suficiente para atender a demanda nacional, quase dois bilhões de litros do etanol dos EUA, que é mais poluente que o brasileiro por ser produzido com milho ao invés de cana-de-açúcar, têm sido exportados anualmente para o país, mesmo depois da imposição pelo Governo Federal de cotas e taxas sobre o produto norte-americano. O presidente do Sindaçúcar-PE, Renato Cunha, avalia a medida norte-americana de maneira positiva por diminuir a concorrência, o que, consequentemente, preserva os empregos brasileiros.

 

Por Jéssica Mensalieri Amaral, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: Último Instante; Isto É Dinheiro; NovaCana.com; Estadão.

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