May 08 2018

Espionagem chinesa dos últimos anos

Posted by Ana Yamashita

Há algumas semanas atrás, a empresa de assuntos relacionados à eletrônica e tecnologia, Bloomberg,  demonstrou preocupação com a vulnerabilidade que os Estados Unidos se encontram em relação à sua dependência de produtos eletrônicos e softwares fabricados pela China. Tal situação dá margem à dúvidas, não somente dos Estados Unidos, mas também de todo o mundo, que também está à mercê da possibilidade de espionagem e de ciberataques chineses, em razão dessa dependência.

 

 

Segundo o autor do texto, David J. Lynch, essa dependência não garante que o país literalmente já faça isso, mas sim que a busca da China por uma estabilidade ainda maior no cenário tecnológico global indica uma intensificação do risco de espionagem na mesma proporção. Tal preocupação parece absurda, uma vez que, igualmente à fábula do “João e o Lobo”, a China já havia sido responsabilizada e culpada por grandes meios da mídia internacional pela mesma acusação de espionagem em diversos outros âmbitos. Essas acusações deixam transparecer que talvez exista uma tendência de demonização, por parte destes meios, do Estado chinês, principalmente por ser um grande adversário de forma global para vários países. Analisaremos alguns dos principais e mais recentes casos que envolvem a China em tais polêmicas.

 

Estados Unidos ameaçado pela espionagem chinesa

O primeiro dos casos a serem analisados é justamente o citado pela Bloomberg, que acusa a teórica vulnerabilidade dos Estados Unidos à espionagem e aos ciberataques chineses ocasionada pela dependência norte-americana de produtos eletrônicos e softwares fabricados na China. Segundo o relatório Security Review Commission, citado por David J. Lynch, os produtos fabricados por empresas de propriedade ou promovidos pela China podem ser modificados para operar de maneira irregular, possibilitando que terceiros obtivessem informações de todos os tipos, podendo interferir diretamente até mesmo em operações governamentais.

 

espionagem

Tecnologia de reconhecimento facial, apresentada na Conferência Global Mobile Internet, em Pequim (Imagem by Damir Sagolj/Reuters, retirada de Estadão).

 

Vale salientar que o seguinte estudo foi divulgado em plena disputa comercial entre os Estados Unidos e a China, com Donald Trump, presidente estadunidense e Xi Jinping, presidente chinês, trocando ameaças de aumentos de tarifas, a ponto de o presidente americano acusar os chineses  de promoverem uma “agressão econômica”, qualificando o país asiático de potência econômica “hostil”. Com uma relação externa entre os países tão intensificada, a preocupação dos 90 bilhões de dólares estadunidenses  anuais gastos pelo governo dos Estados Unidos em tecnologia da informação se tornam, no mínimo, legítima, uma vez que oferecem a Pequim a possibilidade de colocar em escritórios do governo americano softwares de espionagem e as chamadas backdoors.

A tensão entre os países aumenta ainda mais com o grande incentivo chinês ao desenvolvimento de tais tecnologias avançadas. Com o programa chinês “Made in China 2025”, o governo vem canalizando cerca de 300 bilhões de dólares para dez outros setores estratégicos, que incluem áreas como inteligência artificial, semicondutores e robótica. Assim, a China é capaz de promover grandes avanços em diversos pontos também de sua própria segurança interna e externa, como a tecnologia de reconhecimento facial, apresentada na Conferência Global Mobile Internet em Pequim. Com isso, o objetivo da China é diversificar seu papel como fabricante de brinquedos e roupas, tornando-se líder global nas tecnologias necessárias para alcançar o domínio militar e comercial.

 

O caso entre a China e a União Africana

Um dos casos que mais representa a demonização promovida, principalmente, pela mídia de países europeus em relação à China, é o caso da conclusão de uma investigação do jornal francês, Le Monde.

 

espionagem

Sede da União Africana, em Addis Abeba, na Etiópia (Imagem by T. Negeri/Reuters, retirada de DW).

 

Segundo a reportagem promovida pelo jornal francês, existem evidências que indicariam que Pequim estaria promovendo uma grande espionagem à sede da União Africana, em Addis Abeba, na Etiópia, pelo menos entre os anos 2012 e 2017. A reportagem cita diversas fontes internas da União Africana e assegura que os informáticos da organização foram transferidos para outros servidores, na cidade chinesa de Shanghai. Segundo o Le Monde, as mesmas fontes dizem que essas transferências ocorreram desde 2012, depois de concluída a construção do novo edifício da União Africana, que foi oferecido pela China. O esquema só teria sido descoberto no ano de 2017, quando os servidores da organização foram refeitos, apontando a falha que demonstrava a espionagem.

Além de toda essa situação, o Le Monde acrescentou que especialistas em segurança descobriram microfones escondidos nas mesas e paredes das salas da sede. Apesar de todas as “provas” apontadas pelo jornal francês, o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, negou de forma enfática as informações publicadas pelo Le Monde, insistindo na importância das relações de confiança que o país tem com a China. Da mesma forma fez o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, dizendo que as acusações de que a China estaria espionando a União Africana são apenas rumores e que a organização entre os países africanos está disposta “a cooperar de forma mais estreita com a China para beneficiar as pessoas africanas”. Para Mahamat, tais rumores não distrairão os trabalhos conjuntos entre a União Africana e o povo chinês.

 

Retaliação do Governo chinês a CIA

Semelhante ao caso da reportagem do Le Monde, o jornal estadunidense, The New York Times, publicou que a China estaria “mutilando” as equipes de espionagem da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, ou, como é mais conhecida, CIA. Segundo a matéria exposta pelo jornal no ano de 2017, a agência estaria sofrendo um grande desmonte em sua rede de espiões no solo chinês ocasionada por diversas prisões e penas de morte para aqueles que foram identificados pelo governo chinês como espiões desde o ano de 2010.

 

espionagem

A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos tem sua sede em Lagley (Imagem by Larry Downing/Reuters, retirada de Business Insider).

 

A conta da CIA para o número de agentes perdidos indicava, pelo menos, 12 espiões mortos entre os anos de 2010 e 2012, juntamente com outros 8 agentes presos no mesmo período. A queda do número de agentes se tornou proporcionalmente decrescente em relação à qualidade da informação obtida sobre o governo chinês. Assim, para o então presidente Barack Obama, tal situação é a pior perda na rede de espionagem na China, desde a traição de Aldrich Ames e Robert Hanssen, dois dos agentes duplos estadunidenses e soviéticos, durante a década de 1980 e 1990, como informaram as consultas feitas pelo The New York Times.

Tal desmonte prova o sucesso chinês em impedir o avanço da inteligência estadunidense e o sucesso em “atacar” o rival, quando em 2015, segundo as fontes do jornal, os agentes de Pequim teriam tido acesso a documentos confidenciais da Casa Branca através de uma brecha de sistemas. Embora todas essas informações tenham sido repassadas a um jornal de renome como o The New York Times, o governo chinês não se manifestou de forma alguma, assim como fez com o caso da União Africana e o jornal Le Monde.

 

Estamos sendo observados?

É inegável que exista um grande imaginário quando se trata de assuntos relacionados à espionagem, principalmente por que há uma grande tendência de se tentar refazer a história da Guerra Fria, agora com os agentes dos Estados Unidos e da China. Esse imaginário é constantemente usado como temática para criação de obras de entretenimento como filmes, séries, quadrinhos e qualquer outro meio da cultura pop internacional em geral.

Da mesma forma, é perceptível que tal Guerra Fria implantada favorece o lado ocidental, uma vez que a China se mostra como uma grande concorrente econômica dos Estados Unidos, fazendo-nos entender também o posicionamento do presidente Donald Trump, que sugere a China como um dos maiores problemas estadunidenses, no que tange à hegemonia na balança de poderes internacional. Tal demonização não torna a China um anjo na terra, uma vez que o país também se envolve de maneira predatória em diversas outras ocasiões, mas isso só prova que, quando se trata da disputa entre os países por poder, muitas coisas são verdades, muitas outras coisas são mentiras, e, muitas vezes, existem fatores por trás dessas verdades e mentiras que favorecem algumas das diversas partes em favor de outras.

E você? O que acha de todos estes casos? Você se sente vítima de espionagem chinesa? Deixe seu comentário para que possamos saber!

 

Por Lucas Fortes Mulati, diretamente de Rio Verde, GO, Brasil

Fontes: Estadão, Observador, People, Folha de São Paulo, Bloomberg

Gostou desse artigo? Então confira mais conteúdos e acompanhe as novidades em nossas redes sociais:

Facebook  |  Canal do Youtube  |  LinkedIn   |  Instagram   | Twitter |  Google +