January 13 2017

Energias Renováveis e o Investimento Chinês

Posted by Camila Sakamoto

Nos primeiros dias de 2017, várias cidades chinesas, incluindo a capital Pequim, foram invadidas por nuvens de poluição. O problema, tão comum na China, está diretamente relacionado com o anúncio que a Administração Nacional de Energia da China fez na semana passada: o país pretende investir mais de 360 bilhões de dólares em energias renováveis até 2020.

 

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Um trabalhador na Usina Fotovoltaica de Xinyi, em Songxi, na China.

 

O plano de investimento da China em energias renováveis

O plano de investimento chinês em recursos renováveis de energia, tais como a eólica e a solar, foi anunciado em um momento chave, em que a indústria de tecnologia em energias renováveis é uma das que mais crescem atualmente. Esse plano pode, não só remediar as grandes consequências da poluição sobre a população e o meio-ambiente, mas também é capaz de fomentar o domínio chinês na indústria de energias renováveis, aumentando o crescimento econômico nacional e criando novos empregos para o país.

A Administração Nacional de Energia da China afirmou que, com a implantação desse plano, o país criaria mais de 13 milhões de empregos no setor de energias renováveis até 2020. Além disso, o plano diminuiria a emissão de gases de efeito estufa, os quais contribuem para o aquecimento global e, consequentemente, reduziria as nuvens de poluição que tanto atingem as cidades chinesas e prejudicam a saúde de sua população.

O momento do anúncio chinês é especial se pensarmos que os Estados Unidos, maior competidor da China nesta indústria, estão tomando um caminho contrário em relação às mudanças climáticas, à poluição, ao efeito estufa e às energias renováveis. Donald Trump, que assumirá a presidência dos Estados Unidos no próximo dia 20, já se mostrou cético às evidências científicas do efeito estufa e é a favor do desmantelamento do Acordo de Paris, aprovado na ONU em dezembro de 2015, o qual determina medidas de redução de emissão de dióxido de carbono a partir de 2020. Em suas redes sociais, o futuro presidente norte-americano já declarou que o conceito de aquecimento global foi criado pela China com o objetivo de tornar a produção dos Estados Unidos não competitiva no mercado internacional.

 

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Em 2012, através do Twitter, Trump disse que o conceito de aquecimento global foi criado por chineses para prejudicar a competitividade da indústria americana.

 

O fato é que, com a implementação desse plano de investimento em recursos renováveis, a China fez uma afirmação ousada sobre a liderança na indústria de energias renováveis, na qual as empresas nacionais chinesas, impulsionadas pelo enorme mercado doméstico, já figuram entre os principais players do mundo. Os investimentos e a produção chinesa diminuem gradativamente os custos de energias renováveis, como a eólica e a solar, tornando-as cada vez mais competitivas diante de combustíveis fósseis como carvão e gás natural. Os gastos em construções de plantas solares em larga escala, por exemplo, caíram aproximadamente 40% no país desde 2010, transformando a China no maior gerador solar do mundo no ano passado.

Caso o afastamento dos Estados Unidos em relação à indústria de recursos renováveis realmente se confirme sob o governo de Donald Trump, os norte-americanos correm o risco de perderem para a China a liderança neste setor industrial extremamente importante atualmente. Além disto, os altos investimentos chineses, juntamente com o posicionamento de Trump, podem significar que os empregos que seriam criados nos Estados Unidos na indústria de energia limpa sejam transferidos para os trabalhadores chineses.

No entanto, mesmo diante de um plano ousado e extremamente importante para o país e para o mundo, especialistas do Greenpeace apontam informações ausentes no anúncio realizado pelos chineses. A Administração Nacional de Energia da China não disponibilizou mais detalhes de onde tais fundos serão investidos. Além disso, faltam ainda, por exemplo, informações sobre os cortes de emissão de gases poluentes e a quantidade de energia que seria gerada com a implementação do plano, a qual parece nunca encontra seu caminho para a rede elétrica do país.

 

A China e as energias renováveis

Segundo a Forbes, no ano de 2012, a China investiu mais em energias renováveis que todos os países europeus juntos. A tendência de crescimento dos investimentos chineses nessa indústria continuou em 2013, quando a China liderou mundialmente os investimentos em energias renováveis, gastando um total de 56,3 bilhões de dólares. Além disso, entre os países em desenvolvimento, os investimentos chineses significaram, ainda em 2013, 61% do total de investimentos globais nesta indústria. Tais investimentos entre 2011 e 2015 fizeram parte do 12º Plano de Cinco Anos para o Desenvolvimento Econômico e Social do governo chinês, o qual previa um gasto de 473,1 bilhões de dólares em energia limpa até 2015.

Em 2014, o país investiu 90 bilhões de dólares em recursos renováveis, mais que qualquer outro país. A indústria de energia solar no país vem crescendo em grande velocidade, e, a China tornou-se também o maior produtor de energia eólica do mundo, implantando milhares de turbinas no oeste da China e construindo inúmeras fazendas solares no Deserto de Gobi. Além disso, a China também é a maior produtora mundial de energia hidrelétrica, com suas represas representando metade do total mundial.

 

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Um caminhão de óleo passa pelas turbinas eólicas em Dafancheng, na China.

 

O novo plano anunciado na última semana pela Administração Nacional de Energia da China faz parte do contínuo investimento chinês no segmento de energias renováveis. O objetivo chinês é ter, em 2020, 20% de sua demanda total de energia proveniente de energias renováveis. No ano de 2015, o investimento chinês em recursos renováveis de energia excedeu o total de investimento da Europa e dos Estados Unidos juntos. O Greenpeace estima que a China instalou uma média de mais de uma turbina eólica a cada hora de cada dia em 2015, além de cobrir o equivalente a um campo de futebol a cada hora com painéis solares.

 

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Usina termoelétrica em Baotou, na China.

 

No entanto, embora os números de investimento chinês em energias renováveis sejam expressivamente impressionantes, o interesse da China em limpar seus ares e reduzir a emissão de gases poluentes de efeito estufa enfrenta uma grande pressão política da indústria de carvão, ainda muito forte politicamente no país. Além disso, nos últimos anos o país construiu muitas usinas de carvão, embora este crescimento tenha desacelerado recentemente juntamente com a economia chinesa. Com muitos desafios pela frente, a China continua investindo massivamente na indústria e em tecnologia de energias renováveis, buscando não só a melhora nas condições ambientais e sociais domésticas, como também o crescimento econômico nacional.

 

Por Ana Yamashita, diretamente de Americana, SP, Brasil

Fontes: Business Insider; The Guardian, The New York Times; Forbes; Renewable Energy World; Trend in Tech; Wolfestone; Veja

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