Novembro 01 2017

Um país, dois sistemas: Diferenças entre China e Hong Kong

Posted by Victor Fumoto

Se você já visitou Hong Kong (香港) e a China, ou já conhece um pouco sobre os dois, certamente já percebeu que parecem mundos diferentes, apesar de estarem muito próximos. Diferente sistema político, idioma, moeda, estilo de vida e cultura bastante diversa da continental costumam causar dúvidas sobre a relação de Hong Kong com a China. Mas afinal, Hong Kong é ou não parte da China? É uma cidade ou um país? Qual é a verdadeira relação entre os dois? Hoje, falaremos um pouco sobre a história de Hong Kong e apresentaremos as principais diferenças em relação ao resto da China para que você possa compreender, de uma vez por todas, como funciona uma das regiões mais famosas da Ásia!

 

Hong Kong e China: Um país, dois sistemas

hong kong

O território de Hong Kong pertenceu à China até 1842, quando o Império Qing perdeu a Guerra do Ópio para os ingleses e Hong Kong tornou-se uma colônia britânica. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, foi ocupada pelos japoneses, e só foi devolvida para o governo chinês em 1997, há apenas 20 anos. Desde então, tornou-se Hong Kong Special Administrative Region, uma Região Administrativa Especial da China, assim como Macau.

Em 1997, foi adotada a política conhecida como “um governo, dois sistemas”: embora continue sob o controle direto do governo comunista chinês, Hong Kong conquistou a liberdade de manter várias características capitalistas. A “Lei Básica” (Basic Law), a Constituição de Hong Kong, atesta que a região deve coexistir com a China dentro desses padrões por 50 anos após a devolução para a China em 1997. Ou seja, até o ano de 2047 nenhuma alteração poderá ser feita neste sistema de governo e seu estilo de vida, e a cidade deve “salvaguardar os direitos e liberdades de seus residentes”.

A ideia de adotar esse sistema partiu de Deng Xiaoping, na década de 1980, e, devido a ela, a cidade conta com um alto grau de autonomia política, com os poderes executivo, legislativo e judiciário mais independentes do controle do governo chinês do que o resto do país. Um dos princípios contidos na Lei Básica e reafirmado por Lu Ping, o principal oficial da China em Hong Kong, era o direito de desenvolver a sua própria democracia sem nenhuma interferência do governo central. Apesar disso, Beijing já reinterpretou o documento diversas vezes afirmando a sua jurisdição completa sobre Hong Kong, o que causa um atrito político constante entre os dois pólos.

 

Cultura e Estilo de vida

 

hong kong

 

 

Depois de quase dois séculos separados, é natural que Hong Kong e o resto da China não sejam uniformes linguística, social e culturalmente. Na realidade, poderiam ser – e muitas vezes são – facilmente confundidos com dois países completamente diferentes.

Os contrastes começam pelo idioma: na China, embora existam diversos dialetos regionais, a língua oficial é o Mandarim e os documentos oficiais utilizam o chinês simplificado. Já em Hong Kong, o Inglês (herança da colonização britânica) e o Cantonês (falado também na província de Guangdong) são os idiomas oficiais, e todos os documentos oficiais, avisos, sinais de tráfico, entre outros, são obrigatoriamente bilíngues. A escrita chinesa em Hong Kong utiliza os caracteres tradicionais, divergindo também da China.

Por cultivarem hábitos e estilos de vida bastante diferentes, os habitantes de Hong Kong e da China continental – chamamos assim o território chinês além das Regiões Administrativas Especiais – também demonstram certo estranhamento entre si e, por vezes, uma postura preconceituosa. Em vários episódios famosos, os hongkongneses mostraram sua insatisfação com a presença de chineses continentais na cidade, principalmente pelo impacto que os visitantes causam, segundo um jornal local, “lotando desde maternidades a boutiques e inflando os preços do mercado imobiliário”. Já entre os chineses continentais, a sua opinião sobre os vizinhos de Hong Kong varia entre a admiração e o desprezo, chamando-os até mesmo de “puxas-saco imperialistas”.

 

Economia

hong kongHong Kong conta com a sua própria moeda, o dólar de Hong Kong, emitido em conjunto pelos bancos HSBC, Standard Chartered e Banco da China, e mantém uma paridade fixa com o dólar dos Estados Unidos. O sistema “capitalista” da cidade também está assegurado na Lei Básica e não pode sofrer intervenção do governo central chinês.

Já na China continental, a moeda utilizada é o Renminbi (Moeda do Povo), que é emitida pelo Banco do Povo da China. A sua cotação em relação ao dólar de Hong Kong aumentou consideravelmente nos últimos anos (a relação entre as moedas de 1 para 1,2 se inverteu).

O chamado “milagre econômico chinês” está, ao menos em parte, relacionado à influência de Hong Kong. Além da presença do seu livre-mercado ter sido uma grande influência para as reformas econômicas no final dos anos 1970 e 1980, o empreendedorismo, energia e investimentos de Hong Kong beneficiaram o resto da China de incontáveis maneiras.

No entanto, conforme cresce a influência econômica chinesa, cresce também a dependência de Hong Kong desta: a cidade funciona como um centro de logística e a “entrada para a China” para o resto do mundo e depende muito da reexportação de mercadorias produzidas na China, e o turismo interno e a demanda de varejo da China continental também são ganchos importantes para a economia hongkongnesa. Também há o agravante de a China promover algumas das suas cidades como concorrentes de Hong Kong, como Shanghai, como um centro financeiro e de livre-mercado na China continental.

 

Sistema Legal

Hong Kong se orgulha abertamente do seu quase universal respeito ao Estado de Direito. A cidade carrega uma reputação de honestidade que pode ser uma das razões a atrair tantas grandes empresas para o seu território e, para muitos, é o que mais contrasta com o resto da China. Mas nem sempre foi assim: até a década de 1960, quando foi criada a Comissão Independente Contra a Corrupção (ICAC), a corrupção era um problema tão grande em Hong Kong quanto ainda é na China.

O sistema legal de Hong Kong reflete de perto o estilo britânico, outra herança do período colonial, e é considerado referência em transparência e justiça, além de ser amplamente aceito pela população. O Partido Comunista chinês tem o controle de todos os aspectos dos processos judiciais na China, mas a Lei Básica garante a independência do poder judicial das RAE (Região Administrativa Especial).

 

Outras diferenças importantes

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Passaporte

O passaporte utilizado pelos habitantes das duas regiões não é o mesmo. O passaporte do Território Administrativo Especial de Hong Kong, de capa azul, é emitido pelo Departamento de Imigração de Hong Kong desde 1997 e tem visto livre em vários países, inclusive os que seguem o Acordo de Schengen. Já o da República Popular da China, emitido pela Chancelaria da China, de capa vermelha, exige visto para entrar na Zona Schengen e em quase todos os países ocidentais.

 

Custo de vida

O custo para viver nas duas regiões também é bastante distinto. Em Hong Kong, o custo de vida é geralmente mais alto, mas os artigos de luxo podem ser mais baratos – uma garrafa de água mineral custa aproximadamente 3 reais; um iPhone 5S (32GB), 1.600 reais. Na China, os produtos de marcas estrangeiras ou importados são geralmente 20% mais caros que em Hong Kong – uma garrafa de água custa cerca de R$1,2 em cidades como Pequim; o mesmo iPhone 5S custa 1.944 reais.

 

Internet

A internet é um dos pontos mais discrepantes entre as duas regiões. Os hongkongneses possuem liberdade para acessar páginas ou produtos de qualquer parte do mundo, assim como utilizar o Facebook, WhatsApp e outros aplicativos ocidentais, o que contribui para o crescimento de um mercado local de aplicativos e serviços de internet. Já os chineses são usuários de versões autônomas de redes sociais e aplicativos, como o WeChat e o QQ. A Grande Cibermuralha impede o acesso a várias páginas, contribuindo para o desenvolvimento de produtos similares de companhias chinesas. Para acessar e utilizar esses apps, os chineses recorrem a redes VPN.

Ainda tem dúvidas sobre a China e Hong Kong? Gostou de saber mais sobre a organização e o estilo de vida das duas regiões? Deixe seu comentário, compartilhe o artigo nas suas redes sociais e continue acompanhando o blog para saber tudo sobre importação e China!

 

Por Laís Barbosa, diretamente de Andirá, PR, Brasil

Fontes: China Link Trading Blog, CNN, El País, The Guardian

 

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