Desaceleração da economia da China: entenda os motivos

No dia 15 de março de 2013, Li Keqiang foi escolhido para ocupar o cargo de Premiê do Conselho de Estado da República Popular da China, ou primeiro-ministro, como é mais conhecido, sendo assim o chefe de governo e o ocupante do cargo mais alto da função pública chinesa. Logo em sua primeira entrevista após assumir o cargo, Keqiang afirmou que assegurar o crescimento econômico era a principal prioridade do seu governo e também prometeu lutar contra a corrupção. Contudo, desde este primeiro ano (na verdade desde 2010) a China vem apresentando uma desaceleração no crescimento do seu Produto Interno Bruto (PIB), o que não quer dizer que a China deixou de crescer, mas sim que a China está crescendo menos, ou crescendo mais devagar a cada ano, o que não é muito comum para um país que alcançou a taxa de crescimento de PIB de 14,2% em 2007. Mas porque isso vem acontecendo, e quais são as consequências? É sobre isso que trataremos no decorrer do texto.

 

Uma breve retomada do início do mandato de Li Keqiang

Em sua primeira entrevista à imprensa como primeiro-ministro, ao final da reunião do Parlamento que confirmou a sua indicação, Li Kiqiang tratou de temas que têm sido destacados nos recentes discursos do governo, com ênfase na necessidade de reformas para garantir a estabilidade econômica a longo prazo. Logo de início, gravou que a principal prioridade será manter o crescimento econômico sustentável, citando repetidas vezes a necessidade de reformas econômicas, sociais e no governo. O primeiro-ministro prometeu reformar o mercado de capitais, o câmbio e lutar contra a corrupção. Ele disse que representantes do governo, tendo escolhido a vida pública, devem deixar de pensar na possibilidade de riqueza. Segundo ele, as reformas também levarão a melhorias no controle ambiental, a reduções na poluição e a melhora nos padrões de segurança alimentar e da água. Além disso, Li reiterou o seu compromisso com a distribuição de renda e com o maior acesso à seguridade social e à saúde.

Nas palavras do próprio primeiro, ministro: “A chave é a transformação econômica. Precisamos combinar os dividendos das reformas, o potencial da demanda doméstica e a vitalidade da criatividade para que essas coisas juntas formem os novos motores do crescimento econômico. Buscando as reformas, nós agora temos que navegar em águas não conhecidas. Talvez tenhamos que enfrentar alguns problemas. Isso é porque termos que abalar interesses estabelecidos”,

 

Desaceleração da economia chinesa
Li Keqiang, o primerio-ministro chinês

 

Terminou dizendo que: “Às vezes, mexer com interesses estabelecidos pode ser mais difícil do que mexer com a alma, mas independente da profundidade da água, nós vamos chegar lá. Não temos alternativa. Reformas dizem respeito ao destino do nosso país e ao futuro da nossa nação.”

 

E o que aconteceu desde 2013?

Já em 2014, a China apresentou um crescimento de “apenas” 7,4%, o menor percentual até então (o número caiu ainda mais nos anos seguintes, chegando a 6,7% em 2016) das últimas duas décadas e meia, sendo a primeira vez em 16 anos que a meta estabelecida pelo governo não foi alcançada. Mas o que isso significa?

A desaceleração da economia chinesa significa a perda de fôlego de um modelo de desenvolvimento baseado nas exportações e no baixo custo, que valoriza o crescimento acima de qualquer outro critério. Dessa forma, desaceleração da economia chinesa ocorre tanto por influência de fatores estruturais como conjunturais, porque aconteceu o esgotamento dos fatores iniciais que serviram de base para o programa de reformas iniciado em 1978 por Deng Xiaoping, isto é,  o número de trabalhadores que se transferiam do campo para cidade diminuiu concomitantemente com o aumento dos salários devido ao crescimento econômico, o que por sua vez afeta a competitividade de bens intensivos de mão de obra, fazendo com que ela diminua.

Isso aconteceu, porque quando se atinge um determinado nível de avanço econômico, a realocação de recursos de um setor para o outro, no caso do campo para a indústria, e a importação de novas tecnologias acabam por impactar menos no ganho em produtividade, fazendo com que se passe para um novo modelo de desenvolvimento; isso não é fato novo na história, basta olhar para a história de Coréia do Sul ou Japão, por exemplo. E é exatamente por isso, que desde 2014 o governo chinês vem assegurando que um índice menor de crescimento será “a nova normalidade” na economia chinesa, à medida que o antigo modelo de desenvolvimento é substituído por outro, com maior ênfase no consumo interno e na sustentabilidade. Contudo, ainda há pressões negativas “relativamente fortes”, por isso a aplicação de reformas estruturais continuará sendo uma prioridade, a fim de proteger a economia e manter um crescimento sustentável, como o primeiro-ministro já bem havia avisado na entrevista mencionada acima. E essa tem sido a máxima desde então.

 

Desaceleração da economia chinesa
O gráfico de crescimento inverteu, e agora ele aponta para baixo

 

Além disso, mais recentemente, a desaceleração chinesa foi agravada devido às especulações de ameaças de uma disputa comercial com os Estados Unidos, na qual o governo de Trump chegou a declarar que poderia elevar tarifas sobre mais de 250 bilhões de dólares de exportações chinesa. Assim, essa batalha vem fazendo as previsões para o crescimento global serem revisadas para baixo pelos principais bancos e entidades multilaterais

 

Consequências da desaceleração

As primeiras consequências a se citar são as internas, ou seja, para a própria China. Como deve ter ficado claro, a desaceleração se dá também pelo fato de o mercado mundial não estar mais absorvendo tudo o que a China produz, dessa forma, o caminho natural seria a expansão do mercado interno, de modo que, em teoria, o dinamismo econômico seria sustentando pelo consumo interno. Contudo o mercado chinês não tem a capacidade necessária para adquirir todo esse prejuízo, visto que as vendas do varejo também cresceram menos. Sem contar que a população passa a se mostrar descontente com a situação, já que em menos de 10 anos a situação mudou tão drasticamente. Com isso, o governo de Xi Jinping, o presidente chinês, está recorrendo ao modelo antigo, isto é, pesado investimento estatal, o que segundo especialistas pode, no máximo, produzir poucos trimestres de crescimento.

 

Desaceleração da economia chinesa
O preço dos commodities tende a cair com a desaceleração chinesa

 

A desaceleração chinesa tem também consequências que alcançam o nível global. O gigante asiático não só exporta, como também importa muito, e dentre outros produtos, os chineses comprando muitas commodities, como o petróleo por exemplo, de forma que a desaceleração do país influencia e muito no preço internacional desses produtos. Além disso, a situação chinesa afetará os dividendos de várias marcas e industrias transnacionais que tem plantas no país. Marcas como Apple, General Motros, Volkwagen e Starbuksreduziram as expectativas de vendas para o primeiro trimestre de 2019, a Apple inclusive registrou uma queda de 8% de suas ações na Bolsa de Valores. Por fim, as preocupações em torno da economia da China têm abalado os mercados internacionais, provocando uma onda de fuga de ativos considerados mais arriscados e uma derrubada nas principais bolsas de valores do mundo

 

Por Douglas Pazelli, atualizado por João Victor Scomparim Soares, diretamente de Cerquilho, SP, Brasil

Fontes: BBC, El País, Wikipédia, Isto é Dinheiro e China Link Trading

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