Dezembro 21 2018

A crise na Venezuela: uma oportunidade de negócios para a China

Posted by Victor Fumoto

Nos últimos anos, a Venezuela tem enfrentado grandes dificuldades econômicas e políticas. O governo de Nicolás Maduro luta para se manter frente a uma inflação galopante, milhões de desempregados, uma economia em profunda recessão e tensões sociais agravadas devido à falta de bens básicos para consumo da população. Em meio a esse cenário preocupante, somado às barreiras impostas pelos Estados Unidos da América, o governo chinês vê na Venezuela uma oportunidade de negócios promissora.

 

O cenário venezuelano

A Venezuela é um país que possui imensas reservas de petróleo. Tanto que seus sucessivos governos deram cada vez menos atenção a outros setores da economia como setor da agricultura e o industrial para dar atenção e foco exclusivo ao precioso e abundante petróleo presente no país. As exportações do produto compõem aproximadamente 96% de suas exportações, o que é uma dependência excessiva e muito pouco saudável. Afinal, o mercado internacional de petróleo é um setor muito instável e se sujeita às mais variadas decisões e eventos políticos ou econômicos no mundo, fazendo com que o preço dessa matéria prima flutue perigosamente.

Durante o governo de Hugo Chávez, que durou desde 1999 até 2013, ano de sua morte, e nos primeiros anos de governo de seu apadrinhado político, Nicolás Maduro, o governo venezuelano usou os altos lucros do petróleo (entre 2004 e 2015: cerca de 750 bilhões de dólares), para disponibilizar à população venezuelana os serviços públicos de saúde, educação, previdência, e outros programas sociais, além de importar basicamente tudo aquilo que o povo venezuelano precisasse. Apesar do sucesso e da prosperidade iniciais, o preço do petróleo caiu drasticamente nos últimos anos, provocando dificuldades econômicas no país, que foram agravadas pela má gestão e a falta de modernização da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.), empresa estatal que controla a produção e exportação da maior riqueza do país.

 

Image by: Unsplash

 

Somando-se a isso, as repetidas tentativas do governo de Maduro em valorizar a moeda nacional, levaram a um aumento preocupante da inflação, diminuindo drasticamente a qualidade de vida e o poder de compra dos venezuelanos, o que culminou em uma crise social e política. Crise social provocada pela falta dos serviços que a população tinha acesso, como a própria saúde, mas também pela falta de produtos básicos, sejam eles medicamentos, alimentos, ou de higiene pessoal, como papel higiênico. E uma crise política devido aos intensos protestos e a atuação cada vez mais agressiva da oposição de Maduro quanto a sua forma de governar, considerada por seus rivais como uma ditadura.

 

As tensões com os Estados Unidos

Ao longo do governo de Hugo Chávez e no governo atual de Maduro, a Venezuela e os Estados Unidos se confrontam em todas as oportunidades possíveis. Os Estados Unidos acusam o governo venezuelano de ser uma ditadura e uma ameaça à democracia e à paz na América Latina, enquanto que o governo venezuelano acusa os Estados Unidos de realizar uma política imperialista na América Latina, querendo transformar o continente em sua zona de dominação absoluta.

 

aço

Trump em entrevista na semana passada: “Vocês não tem ideia de quão mal nosso país foi tratado por outros países”.

 

As tensões levaram a diversos acontecimentos, como a expulsão de diplomatas, a recusa do governo Bush à oferta de assistência venezuelana em 2004 após o furacão Katrina, acusações de espionagem e assassinato, disputas comerciais, processos, e sanções por parte dos Estados Unidos à Venezuela. Essas sanções provocam grandes dificuldades na economia venezuelana, que já está bastante debilitada devido aos problemas com o petróleo e a inflação acelerada. Mesmo em meio a este cenário pouco promissor, outro país tem demonstrado cada vez mais interesse em parcerias econômicas e investimentos com a Venezuela, esse país é a China.

 

Negócios e aumento da influência chinesa

A China tem demonstrado cada vez mais interesses em investimentos na América Latina, transformando seus lucros no continente não mais com base em importações e exportações, mas com investimentos e negócios presentes no próprio continente. Por exemplo, Chile, Bolívia, Peru e Venezuela, se tornaram membros do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, sendo este uma proposta alternativa ao já conhecido Banco Mundial. Tendo o Banco Mundial uma enorme influência dos EUA e Europa, a proposta de um banco alternativo pode soar como uma potencial ameaça aos interesses destes, assim como uma guinada na influência chinesa ao redor do mundo. Para os Estados Unidos, isso é um alarme, já que o país pode perder sua longa influência sobre os países de seu continente para a China, sua maior concorrente na economia global.

Maduro visitou a China em setembro de 2018 e se reuniu com o primeiro-ministro do país, Li Keqiang, para discutir acordos comerciais e de negócios entre os dois países. O premiê chinês comentou que apesar de todas as dificuldades que a Venezuela está enfrentando, a China está disposta a dar toda a ajuda que o país possa precisar. O interesse chinês na Venezuela não é algo desse ano, afinal, na última década, a China injetou mais de 50 bilhões de dólares no país latino-americano, em setores dos mais diversos, garantindo um aliado próximo no continente.

 

Image by: Veja

 

Das reuniões entre Maduro e Keqiang, foram assinados 28 acordos de cooperação estratégica, o que simboliza um grande investimento chinês. Entre os acordos houve a concessão de 9,9% das ações da empresa petrolífera Sinovensa, e a assinatura de um memorando para o desenvolvimento das empresas de hidrocarbonetos Petrourica e Petrozumano. Foram fechados acordos de cooperação entre a Corporação Nacional de Exploração de Gás da China e a PDVSA, e também um pacto de exploração no setor aurífero, com a empresa chinesa Yankuang Group.

Todas essas medidas demonstram investimentos ativos chineses na Venezuela, e acendem um alerta para os Estados Unidos. Se antes as sanções norte-americanas e europeias eram uma pedra no sapato da economia venezuelana, agora elas se tornaram uma ajuda tanto para Caracas quanto para Pequim. A China possui os recursos para os investimentos necessários na Venezuela, e esta possui uma abundância em matérias primas que são de grande importância para a enorme máquina industrial chinesa. Seriam as sanções dos Estados Unidos um tiro no pé? O que se sabe é que quanto mais se tenta isolar a Venezuela, mais ela se aproxima dos rivais estadunidenses, incluindo a gigante China.

 

Fontes: BBC, USA Today, The Diplomat, G1, Veja.

Por Arthur Bonsaglia, diretamente de Marília – SP.

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