Crise brasileira e a China

            Qual é a relação entre a atual crise brasileira e a China? Está claro para todos que o Brasil não está passando por seu melhor momento, quando o assunto é a Economia. Inflação acima do normal, insegurança financeira, inadimplência alta no mercado, preocupação com o amanhã, dificuldade na hora de pagar as contas no fim do mês. Estes são apenas alguns dos indícios analisados pelos economistas, e que estão sendo sentidos no bolso por grande parte dos brasileiros atualmente.

            No restante do mundo, entretanto, muitos desses indícios, e ainda outros além deles, já vem sendo sentidos há muito mais tempo em vários países do mundo. A Europa, menina dos olhos de muitas pessoas ao redor do mundo, também não está vivendo seu período áureo, tanto com relação à Economia como à política. O Japão, modelo de desenvolvimento para o mundo todo desde os anos 90, não consegue se livrar de uma deflação que atinge cada vez mais sua Economia. Esta situação começou a ser observada em várias partes do mundo desde 2008.

crise brasileira e a China

            Já o Brasil, parece que demorou um pouquinho mais para começar a sentir os efeitos dessa crise. Hoje, muitos brasileiros se perguntam o que terá acontecido, o que foi feito errado, quando esta situação vai mudar? Independente de “quando” esta situação vai mudar, trataremos aqui de “como” fazer para que ela mude. Por incrível que pareça, a solução para os atuais problemas econômicos do Brasil pode estar do outro lado do mundo, na China. Sim, a relação entre a crise brasileira e a China é muito mais próxima (ou deveria ser) do que muitos imaginam.

crise brasileira e ChinaJustamente por essa relação entre a crise brasileira e a China ser tão próxima, se não for planejada com cuidado, também poderá se transformar em algo ruim, e até perigoso para o Brasil. O que hoje se configura como uma relação promissora e amigável entre os dois países, pode facilmente se transformar em uma relação de dependência do Brasil para com a China, caso os próximos acordos comerciais bilaterais sejam feitos às pressas, no desespero da crise brasileira e da desaceleração econômica da China, como aconteceu com a Venezuela há pouco tempo atrás. Por isso, a partir de agora examinaremos a atual relação Brasil-China, o caso da Venezuela, e as perspectivas para as relações futuras entre o Brasil e a China.

 

Crise brasileira e a China: o hoje e o amanhã

 

Relações Brasil-China atualmente

 

            As relações comerciais entre Brasil e China hoje em dia vão de vento em popa. Para se ter uma ideia, em 2014, 16% de tudo o que o Brasil importou do mundo inteiro veio da China apenas. Em contrapartida, 18% de todas as nossas exportações no mesmo ano foram direcionadas para o país asiático. Além disso, as relações financeiras entre os dois países representariam cerca de 1% do PIB brasileiro, o que, em números absolutos, atinge um valor enorme. E a parceria não termina por aí. A quantidade de soja vendida à China pelo Brasil se multiplicou quase que por 3 em novembro de 2015, já que o país do dragão percebeu que valia mais a pena comprar a soja barata do Brasil do que a soja cara dos Estados Unidos.

crise brasileira e a China

            Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), essas relações podem significar a saída da atual crise econômica para o Brasil. Isso porque a intensificação do processo de urbanização na China, e o fortalecimento de sua classe média, podem representar oportunidades enormes para os brasileiros que queiram se inserir no mercado doméstico chinês. Além disso, com a desvalorização do real frente ao dólar, ficou mais barato para outros países investirem no Brasil.

 

Perspectivas para o futuro

 

E a China sabe disso! Há quase um ano atrás, quando já vivíamos a crise brasileira e a China se desacelerava, os dois países firmaram o Plano de Ação Conjunta 2015-2021, conjunto de acordos que propõem investimentos chineses no Brasil nas áreas de mineração, agricultura, ciência e tecnologia, infraestrutura, e outras áreas mais, todas ligadas ao desenvolvimento tecnológico e econômico.

crise brasileira e a ChinaAssim sendo, ainda de acordo com a própria OCDE, o fortalecimento dessas relações, que já são boas, seria extremamente benéfico para o Brasil, que veria os efeitos desse fortalecimento em ambos os sentidos, do Brasil para a China e vice-versa. Acreditamos que a relação entre a crise brasileira e a China, portanto, é clara. Mais acordos bilaterais podem ser realizados, em novas áreas e também nas áreas em que esses acordos já existem, a fim de fortalece-los. Se bem planejados, tais acordos poderão ser extremamente úteis para solucionar a crise brasileira e reaquecer a economia chinesa.

 

O caso da Venezuela

 

Contexto geral

 

Por que falar da Venezuela, se estamos tratando da relação entre a crise brasileira e a China? Pois bem. A Venezuela começou a sentir os efeitos da crise mundial de 2008 mais cedo do que o Brasil, já no final do último governo de Hugo Chávez. Desde que seu sucessor, Nicolás Maduro, assumiu o controle do pais vizinho, a situação política e econômica só se deteriorou. Em 2015, apesar de ainda não se encontrar à beira do caos, como está agora em 2016, os venezuelanos já tinham que enfrentar uma inflação comparada à da República de Weimar, entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais; filas de espera gigantescas em supermercados, farmácias, hospitais e outros estabelecimentos públicos e comerciais; e a falta de suprimentos básicos nesses mesmos estabelecimentos, como leite, papel higiênico, entre outros.

Este cenário caótico tinha, e ainda tem suas causas, primeiramente na crise econômica de 2008, já citada anteriormente, mas também, e principalmente, na queda do preço do petróleo ao redor de todo o mundo. O “ouro negro” chega a representar quase 90% da receita venezuelana. Tendo caído para apenas um terço do que valia há poucos anos, era de se esperar que causasse dificuldades econômicas para nossos vizinhos latinos.

 

A crise venezuelana e a China

 

            Mas petróleo é o que a Venezuela mais tem, e o que a China mais precisa. Em 2015, ambos os países viram um no outro, excelentes oportunidades de negócio. Naquele momento, a Venezuela precisava desesperadamente de dinheiro. A China, por sua vez, considerada o motor do mundo nas últimas três décadas, apresenta uma demanda constante e gigantesca por petróleo, para movimentar seu setor industrial, que mesmo em seu pior resultado nos últimos 25 anos, ainda fez o país crescer quase 7% em 2015, taxa que causa inveja em qualquer país do mundo, desenvolvido ou não.

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Xi Jinping, presidente da China, à esquerda, e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, à direita

            Neste contexto, os dois países firmaram acordos que, pelo menos aparentemente, beneficiaram as duas partes. A China aportou uma quantidade de dinheiro altíssima para a Venezuela, suficiente para salvá-la do colapso iminente durante meses e meses. Em troca, nossos vizinhos se comprometeram a fornecer quantidades igualmente altas de petróleo para os chineses, durante um período de tempo relativamente longo para os padrões da Economia Internacional.

 

Os efeitos desses acordos

 

            Para a China, essa troca obviamente foi extremamente benéfica. O país adquiriu uma quantidade enorme de petróleo para suprir suas necessidades, no momento em que ele se encontrava com o preço mais baixo em anos. Além disso, estabeleceu-se uma relação de dependência da Venezuela para com a China, já que o primeiro era quem se encontrava em situação mais desesperada.

            No caso venezuelano, o país teve, e ainda está tendo que lidar com os dois lados da moeda. De um lado, o dinheiro aportado pela China impediu que uma situação já ruim piorasse ainda mais, a ponto de quebrar o país. De outro, fez com que os venezuelanos entregassem quantidades enormes de sua maior riqueza a preços extremamente baixos para o país asiático. Muitos analistas afirmam que o dinheiro chinês não salvou a Venezuela, mas sim o governo de Nicolás Maduro apenas, já que a situação no país continua beirando o caos, ainda hoje.

 

Perspectivas para o futuro

 

            Será que pode acontecer o mesmo com o Brasil? Atualmente, se guardadas as devidas proporções, a situação brasileira se assemelha muito à situação vivida na Venezuela nos últimos anos. Inflação alta, crise econômica generalizada, crise política causada pela crise econômica, grande insatisfação com o governo. Tudo isso podia ser encontrado na Venezuela, quando os acordos com a China foram firmados. E tudo isso pode ser encontrado no Brasil hoje em dia.

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A soja, um dos principais produtos de exportação do Brasil, e uma de nossas maiores riquezas

            Além disso, a soja, um dos principais produtos de exportação do Brasil para a China, vem sofrendo grande desvalorização nos últimos anos. Atualmente, para conseguir a mesma quantia de dinheiro que conseguíamos com ela há pouco tempo atrás, precisamos vender uma quantidade muito maior dela para o exterior. Exatamente o mesmo que acontecia e ainda acontece com o petróleo na Venezuela.

            Sim, a China representa um leque enorme de oportunidades para o Brasil no instante atual, e também nos próximos anos. Como dissemos, se soubermos aproveitar ao máximo tudo o que as reações bilaterais entre os dois países têm a oferecer, o Brasil pode ganhar muitíssimo. Mas será que saberemos aproveitar? Saberemos a melhor forma de realizar acordos com os chineses? A relação entre a crise brasileira e a China nos fará aprender algo? E o mais importante, ficaremos dependentes da China, assim como a Venezuela?

 

Por Gabriel Condi, diretamente de Wuhan, Hubei, China

Fontes: El País, Itamaraty, China Link, Washington Post, Ministério da Fazenda

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