June 25 2018

Clima controlado: uma possibilidade para a China?

Posted by Victor Fumoto

O governo chinês vem trabalhando na criação de um sistema que seja capaz de controlar o clima. O projeto é denominado de Tianhe, que significa Rio do Céu (Sky River), e pretende abranger a área do Planalto do Tibete, localizado no oeste da China, onde se encontram as nascentes do Rio Yangtze, do Rio Mekong e do Rio Amarelo; as principais fontes de água do país.

 

 

Controle do Clima: Projeto e funcionamento

O Projeto Tianhe tem como objetivo promover chuvas nas nascentes dos três principais rios da China — Yangtze, Mekong e Rio Amarelo — que percorrem uma distância de 16 mil km, montante 60% maior que o Amazonas; a ideia é fazer chover na região para tornar as fontes ainda mais abundantes. As máquinas estão sendo instaladas na porção chinesa do planalto tibetano, uma extensa área de 1000 km de largura, 2500 km de extensão e 4500 metros de altitude média, e que compartilham a região autônoma do Tibete, da China e da Índia.

Alguns podem apontar como uma medida desesperada para tentar solucionar um problema desesperador, pois apenas 40% das águas chinesas não estão poluídas, o que na prática, cria racionamentos notáveis. Em 2015, por exemplo, cada morador de Pequim poderia usar, no máximo, 1.700 m³ de água — 70% a menos do que a ONU considera viável. Caso a operação dê certo, a região passará a pingar 10 bilhões de m³ por ano — o equivalente a 7% do consumo anual chinês de água, ajudando a China a saciar a sede de seus 1,4 bilhão de pessoas.

O que o governo chinês está instalando são dezenas de estações meteorológicas desenhadas pelos cientistas da Academia Chinesa de Ciência, com a finalidade de controlar o clima daquela região. Estas máquinas produzirão partículas de iodeto de prata muito finas que são então levantadas para a atmosfera com ventos ascendentes. À medida que essas partículas são dispersas na atmosfera, elas atuam como o ponto de nucleação da água condensada. Para que o vapor de água (umidade) no ar forme nuvens e eventualmente chova, é necessária uma partícula nucleante. Normalmente, esta é uma minúscula partícula de poeira que, em massa, produz as nuvens que vemos no céu. Ao artificialmente “semear” o planalto tibetano com partículas de iodeto de prata, pretende-se induzir a formação de nuvens onde antes não havia nenhuma, e uma vez que as nuvens se tornam instáveis, são produzidas chuvas induzidas artificialmente.

Isso ocorre porque o iodeto de prata é uma substância insolúvel em água e tem uma estrutura cristalina semelhante à do gelo, o que faz com que seja amplamente utilizado no bombardeamento de nuvens, também chamado de semeadura ou nucleação artificial, para induzir a desnaturação dos cristais de gelo e gerar chuva artificial. Em outras palavras, as moléculas prateadas funcionam como uma espécie de ímã de umidade: elas conseguem centralizar o vapor da água ao seu redor e, consequentemente, formar nuvens.

 

 

Dessa forma, a funcionalidade se baseia em um sistema de 10 mil câmaras instaladas na região em que se quer alterar o clima, ou seja, proporcionar mais chuvas. Um engenheiro envolvido no projeto, que preferiu não se identificar, declarou ao jornal South China Morning Post: “Às vezes, começava a nevar imediatamente após ligarmos as câmaras. Era como um show de mágica”.

Os geradores de iodeto de prata e a tecnologia para alterar o clima não são inéditas, já são utilizados desde algumas décadas para favorecer precipitações em muitas partes do mundo. Durante as Olimpíadas de 2008, por exemplo, os governos dos EUA e da China usaram o iodeto de prata para fazer cair água do céu. O governo chinês querendo evitar a ocorrência de chuvas durante a cerimônia de abertura, utilizou o iodeto de prata no bombardeamento de nuvens nas vizinhanças da cidade para provocar chuva nesses locais e, assim, evitá-la nos Estádios Olímpicos. No entanto, nunca um projeto mirou tais proporções como os 1,6 milhões de km² em vista dessa vez. Uma área superior ao sudeste brasileiro. O projeto está sendo tocado pelo Centro de Tecnologia e Ciência Aerospacial da China, um órgão estatal. Contudo, ainda não recebeu o “ok” do governo central para iniciar as chuvas-forçadas.

 

Impacto Ambiental

As chuvas-forçosas não começaram ainda pois, apesar da implementação estar praticamente pronta, pesquisadores ainda estão analisando o impacto ambiental do projeto. Os ambientalistas expressaram sua preocupação com a utilização das partículas de prata, ainda que até o momento não haja estudos conclusivos sobre seu efeito negativo sobre o meio ambiente. Além disso, não se sabe se, ao alterar as chuvas naquela região, haveria algum prejuízo para outra área da China, ou seja, se eles estariam solucionando o problema ou apenas transferindo-o de lugar.

 

 

Para o professor Augusto Pereira Filho, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, o procedimento de semeaduras em nuvem é incipiente. Segundo o especialista, ao analisar a acumulação de chuva diária entre maio e dezembro de 2004 na bacia do Rio Jaguari, percebeu-se que choveu menos na bacia em 90% dos dias do que em áreas vizinhas e nos outros 10% que choveu mais, teve baixa acumulação em geral, por isso julga o procedimento como incipiente.

Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, também questiona a precisão da técnica de semeadura como forma de controlar o clima. “Não é possível representar a atmosfera em laboratório, então não dá pra saber exatamente como isso vai funcionar no ambiente natural”. Ele destaca a dificuldade em determinar a real contribuição da técnica para a ocorrência de chuva e que, mesmo com a carência geral de chuvas, a operação é arriscada porque pode até provocar chuvas onde não se deseja que ela caia.

 

Por Jéssica Mensalieri Amaral, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: Forbes; China Daily; Super Interessante; Tiempodigital.mx; Exame

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