Consumo de Carnes na China e o Brasil

A recente polêmica da Operação Carne Fraca trouxe efeitos até mesmo na China, o maior comprador de carnes brasileiras. Mas como funciona o consumo de carnes na China? Quais são as mais consumidas? E quais são as expectativas desse mercado no gigante asiático para os próximos anos? Saiba mais a seguir e entenda quais aspectos podem influenciar na relação com o Brasil e também em sua economia.

 

O Consumo de Carnes na China

 

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O consumo de carnes na China sofre grande influência cultural e econômica

 

Há poucas décadas atrás, o consumo de carnes na China era considerado baixo, já que esses produtos eram considerados de certa forma escassos, e, por isso, eram apelidados de “refeição de milionário”. Para se ter uma ideia, em 1982, o consumo médio por pessoa no país girava em torno de 13 kg por ano. A ascensão do gigante asiático nos últimos anos como potência econômica mundial veio a trazer, ainda, modificações em vários aspectos uma população mais enriquecida. E o consumo de carnes na China também foi influenciado.
Segundo o último relatório sobre a dieta dos chineses, produzido a cada 10 anos pelo Ministério da Saúde da China, e liberado em 2016, atualmente, os chineses consomem 63 kg de carnes por pessoa por ano. E, além disso, a expectativa aponta que esse consumo aumentará 30 kg por pessoa até 2030, caso nada seja feito para frear essa tendência.
Com isso, a China era responsável já em 2016 por consumir 28% da carne de todo mundo, incluindo metade do consumo de carne de porco de todo o globo. Presume-se que, até 2020, o aumento do consumo de carnes e de laticínios por ano girará em torno de 20 milhões de toneladas na China.

Os Diferentes Tipos de Carne

A China se destaca mundialmente na produção de diversos tipos de carnes, mas, com uma enorme população e certa escassez de recursos ambientais, o consumo da população vem superando a oferta no país. Com os novos hábitos alimentares dos chineses nos últimos anos, essa diferença acaba por salientar ainda mais a necessidade de buscas por outras fontes dos produtos, principalmente através da importação de outros países produtores, como o Brasil.

 

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A carne suína é a mais consumida na China

 

O consumo de carnes na China é diferente quando comparadas as variadas formas de proteína animal mais comuns no país e também se mostra bastante influenciada por certas tradições nacionais. Por exemplo, entre os chineses, os suínos são os mais consumidos pela população, e o frango e os peixes, também são tradicionalmente optados. Considera-se que metade dos porcos do mundo estão na China, sendo esse o país que mais consome a carne suína no mundo. Os animais são tão culturalmente importantes para a população que, até mesmo o símbolo em mandarim para designar  a palavra “lar” 家é representado por um “porco” sob um “telhado”. Já os frangos e peixes ainda têm o significado cultural de “abundância”, sendo considerado como auspicioso consumi-los em algumas datas comemorativas, como no Ano Novo Chinês. Ainda em relação a peixes e frutos do mar, cujo consumo triplicou a nível mundial nos últimos 30 anos, também os chineses (somando com o consumo de Hong Kong) são considerados os maiores consumidores do mundo. A liderança de produção também cabe à China.

 

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A figura do porco está representada até mesmo na palavra “lar”

 

Já a carne bovina demorou bastante a se tornar popular no país, tendo em vista o seu custo mais elevado. Mesmo que menos consumida em termos comparativos, vem ganhando cada vez mais espaço nos hábitos alimentares dos chineses, tendo o crescimento mais rápido entre as demais proteínas nos últimos anos. Para se ter uma ideia, na China, o mercado de carne bovina entre 1996 a 2014 aumentou 4,8%, enquanto a suína cresceu 3,5% e a de frango, 3,4%, no mesmo período. Assim, esse tipo de carne acaba constituindo um nicho de mercado de grande potencial, principalmente a grandes produtores, como o Brasil.

Em junho de 2015, as importações de carnes bovinas brasileiras pela China foi retomada depois de uma suspensão iniciada em 2012, após um caso de vaca louca no Paraná ser registrado. Na época da suspensão, os chineses representavam apenas cerca de 1% das exportações brasileiras do produto. Porém, com as negociações retomadas, a China surpreendeu ao, em apenas oito meses, se tornar o primeiro destino das carnes bovinas do Brasil no exterior.

 

Carnes Exóticas?

É muito comum em países ocidentais a veiculação de informações e notícias relacionadas ao lado exótico dos hábitos alimentares dos chineses. E uma das ideias apresentadas está ligada ao consumo bastante controverso de carnes não usuais na maioria dos países do mundo. ” É verdade que os chineses comem carne de cachorro?” torna-se uma pergunta bem comum.
Na verdade, carne de cachorro e até mesmo de gatos são consumidos no país, mas não de maneira geral, como muitos podem pensar. Esses consumos – que geram muita polêmica e debates até mesmo internacionais- são específicos apenas de algumas regiões da China, como na cidade de Yulin, onde ocorre anualmente o maior festival de carne de cachorro do mundo. O governo chinês, inclusive, diante de petições e protestos, chegou a afirmar oficialmente em 2016  que nunca organizou eventos como o festival de Yulin, salientando que essa é uma tradição muito isolada.

 

Vegetarianismo e Veganismo

 

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Mexido de vegetais fritos ( chao qingcai): prato tradicional chinês e um dos mais apreciados

 

Mesmo a gastronomia chinesa sendo composta por uma variedade imensa de pratos, incluindo muitas opções vegetarianas, a população do país, em sua grande maioria, é adepta ao consumo de proteínas animas em suas alimentações. Não há um censo oficial, mas organizações estimam que, na China, há cerca de 50 milhões de vegetarianos e veganos no país, um número que representa apenas 4% da população total. Para se ter uma ideia comparativa, a Austrália, por exemplo, aponta 11% de sua população como não consumidora de carne ou produtos de origem animal; enquanto a Índia lidera o ranking mundial, atingindo a casa do 40%.
Acredita-se que o vegetarianismo e o veganismo (quem não consome quaisquer produtos de origem animal, como ovos e leite de vaca, por exemplo) são mais praticados na China devido a fatores religiosos – uma influência dos ensinamentos do Budismo. Além disso, moradores do interior do país também teriam uma maior tendência a participar dessa parcela – ainda pequena – de chineses adeptos a uma vida sem carne ou de alimentos de origem animal.

 

 

Problemas Ambientais?

 

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Problemas ambientais vêm sendo destaque nas preocupações do governo chinês

 

Especialistas afirmam que esse aumento considerável do consumo de carnes na China trarão impactos ao meio ambiente: estima-se que esse “boom” chinês levará a um crescimento de 233 milhões de toneladas de gases causadores do efeito estufa na atmosfera a cada ano. Além disso, haveria a preocupação com questões de abastecimento hídrico no país, a degradação de solos aráveis, além da possibilidade de aumento de problemas como obesidade e diabetes em sua população.
Com as expectativas numéricas previstas para os próximos anos, concluiu-se que uma mudança na dieta dos chineses será essencial para evitar os limites estabelecidos para frear o aquecimento global no Acordo de Paris, firmado em 2015.
Tendo em vista as questões ambientais, o governo já vem buscando medidas para tentar diminuir o crescimento acelerado do consumo de carnes na China. As novas diretrizes governamentais querem diminuir o consumo de carnes na China para uma média de 14 kg a 27 kg por pessoa por ano. Uma das estratégias utilizadas foi a utilização de campanhas com celebridades de Hollywood, como Arnold Schwarzenegger e o diretor James Cameron, tentando encorajar os chineses a consumirem menos alimentos de origem animal, cuja produção contribuiria para problemas ambientais. Mas, mesmo com o comprometimento das autoridades chinesas para frear esse consumo no país, especialistas preveem que será muito difícil diante de uma população com maior renda e com hábitos culturais que priorizam o consumo de carnes.

 

Importação de Carnes Brasileiras

 

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A China é principal comprador das carnes brasileiras

 

Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o Brasil, em 2016, exportou cerca de US$ 13,77 bilhões em carnes para 137 diferentes países. Desse total, US$ 5,95 bilhões seriam de frango e seus miúdos; US$ 4,34 bilhões a bovina; Us$ 1,35 em carne suína e US$ 2,13 bilhões em outros tipos, como de pato, peru, cavalo, embutidos, etc. Desse total, a China encabeça a lista de maiores compradores, tendo comprado cerca de US$ 1,75 bilhão em carnes brasileiras, representando 13% do total exportado nesse período. Em segundo lugar, encontra-se a Região Administrativa Especial de Hong Kong, com US$ 1,51 bilhão, representando 11,2% do total das carnes brasileiras exportadas ao globo durante 2016. Ou seja, a importância do mercado chinês para as exportações brasileiras é enorme e extremamente essencial até mesmo para a balança comercial do país, já que, em 2016, as exportações de carnes brasileiras representaram 7,4% de tudo o que exportamos durante o ano.

 

Os Efeitos da Operação Carne Fraca

 

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Delegados da Polícia Federal durante coletiva sobre a Operação Carne Fraca

 

A importância das carnes não somente para as exportações brasileiras, mas para a economia do país como um todo, é inegável. Por isso, quaisquer polêmicas ao redor dessas mercadorias preocupam não somente seus produtores e compradores, mas também as autoridades governamentais. Assim, não foi novidade que a chamada Operação Carne Fraca, deflagrada em 17 de março, apresentou um esquema de corrupção entre fiscais e frigoríficos brasileiros com a finalidade de “escapar” de determinados controles sanitários. A Operação já é considerada atualmente como a maior realizada pela Polícia Federal brasileira e afetou de maneira muito negativa as exportações de carnes do Brasil: países suspenderam importações desses produtos, uma lista que incluiu grandes compradores internacionais. China e Hong Kong, os dois maiores importadores de carnes brasileiras, também decidiram suspender temporariamente as compras, chegando até mesmo a barrar a entrada de produtos já comprados e que aguardavam apenas o desembaraço para entrar no território chinês.  Diante das polêmicas nesse comércio com o Brasil, a China ainda decidiu  retirar as restrições que mantinha à carne bovina da Austrália, realizando um acordo que permitia que 11 companhias australianas exportassem ao país asiático, gerando, assim, uma nova parceria nesse mercado.

Após muitas negociações e uma atenção especial do governo brasileiro aos principais compradores de carnes do país sul-americano, a China, no dia 25 de março, e Hong Kong, no dia 28 de março, decidiram rever as suspensões e abriram seus mercados novamente a tais produtos brasileiros. Entretanto, a restrição ainda permanece sobre mercadorias provenientes dos 21 frigoríficos que são alvos da investigação. Mesmo a China e Hong Kong, e outros parceiros comerciais, como Egito e Chile, tendo revisado os embargos, 14 países ainda mantêm restrições às importações das carnes brasileiras.

 

Projeções de Importação

 

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As projeções mostram mercado favorável na China para países produtores de carnes

 

De acordo com o Rabobank, as importações da China de carne bovina, suína e de aves irão aumentar nos próximos três anos, tornando o país o principal comprador desses produtos a nível global. Estima-se que a produção no gigante asiático irá diminuir ou apresentar um crescimento muito pequeno nos anos seguintes, ainda mais quando comparado ao aumento da demanda pelas carnes na China durante o mesmo período. Assim, a única solução para suprir esse consumo será o crescimento de importações. Sobre a carne bovina, por exemplo, espera-se que cerca de 20% desses produtos na China em 2020 seja proveniente de outros países. Por isso, os chineses serão o grande destaque mundial para os exportadores desses produtos, como o Brasil.

Diante da importância constatada numericamente do mercado chinês para as carnes brasileiras, juntamente com as projeções otimistas para esse nicho nos próximos anos no gigante asiático, é inegável que o Brasil continuará visando – e muito- à manutenção dessa parceria comercial. Com os abalos sofridos pela Operação Carne Fraca, formam-se desafios a serem superados para que o promissor consumo de carnes na China não escape das mãos brasileiras nos próximos anos.

 

 

Fontes: Exame, Istoé Dinheiro, El País, Folha de São Paulo, Ministério da Indústia, Comércio Exterior e Serviços  , G1, Economia UOL, Exame, Beef Point, O Globo, The Guardian, ABC, The Times of India, Rabobank

 

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