China nas Olimpíadas

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 chegaram ao fim. A cidade maravilhosa foi palco das despedidas do maior medalhista olímpico da história, o nadador Michael Phelps, e também do recordista que não conhece derrota, Usain Bolt, que conquistou seu triple-triple em terras cariocas. Para os Estados Unidos, essa Olimpíada representou mais um primeiro lugar no ranking dos competidores, garantindo o maior número de medalhas do país desde 1984. Para o anfitrião, forneceu o recorde de medalhas entre todas as participações do Brasil nos Jogos. Mas para a China, foi considerada uma decepção, alcançando seu pior resultado nas competições desde 1996. Mas afinal, como são as participações da China nas Olimpíadas?

china nas olimpíadas
Atletas chineses durante a cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio 2016


Participação da China na Rio 2016

Para a China, a Olimpíada do Rio de Janeiro foi considerada decepcionante. Os chineses, tão acostumados a variar entre as duas primeiras posições no quadro geral de medalhas nos últimos anos, ficaram, nessa edição com o terceiro lugar – algo que não acontecia desde os Jogos de 2000, em Sydney. A expectativa do país era a de alcançar 36 pódios durante os Jogos, objetivo que ficou bem aquém das 26 medalhas de ouro conquistadas no Rio. O total de conquistas chinesas, inclusive, apresentou 18 medalhas a menos que as conseguidas durante a edição antecessora de Londres em 2012.

A decepção chinesa foi considerada ainda maior por ter levado ao Rio de Janeiro a segunda maior delegação da história do país (atrás apenas dos Jogos sediados em Pequim). Ao todo, foram 410 atletas, com uma média etária de 25 anos. Ou seja, as conquistas não foram proporcionais ao aumento do número de participantes, uma demonstração de queda de rendimento dos atletas da China nas Olimpíadas.

china nas olimpíadas
Modalidades e respectivas medalhas conquistadas pela China nos Jogos Olímpicos de 2016

 

No Rio de Janeiro, os chineses obtiveram, ao todo, medalhas em 20 modalidades, sendo o levantamento de peso (5 ouros), os saltos ornamentais (7 ouros) e o tênis de mesa (4 ouros) as que mais lhes renderam o primeiro lugar do pódio. Em contrapartida, reviravoltas da Olímpiada de 2016 trouxeram grandes decepções em modalidades que eram tidas como chances garantidas de medalhas para o país, como o badminton e a ginástica artística. Enquanto na primeira os pares de duplas mistas e femininas chineses foram eliminados, na última, o “baixo” desempenho – com duas medalhas de bronze- foi visto como o pior da ginástica artística da China nas Olimpíadas desde 1984.

china nas olimpíadas
Campeão mundial em 2015 nas barrass paralelas, You Hao cai nesse mesmo aparelho na Olimpíada

 

Rio: uma Olimpíada menos dourada para China

Acostumada a disputar acirradamente a liderança no quadro de medalhas com os Estados Unidos, a China ficou não somente atrás do rival norte-americano, como também se viu superada pelo Reino Unido. Os britânicos levaram de volta à Europa um total de 67 medalhas, contra 70 dos chineses, mas ficaram uma posição acima do gigante asiático por suas 27 medalhas de ouro, uma a mais que os chineses.

china nas olimpíadas
O desempenho da China no Rio teria sido uma decepção

Das 70 medalhas obtidas pela China em 2016, 26 foram de bronze, 18 de prata e 27 douradas. Já os Estados Unidos, lideraram a competição com o total de 121 medalhas, sendo 46 de ouro. Com esses números, o Rio foi o cenário do pior desempenho da China nas Olimpíadas desde a edição dos Jogos de 1996, em Atlanta, quando totalizaram 50 medalhas, sendo 18 de ouro, e ficaram na quarta posição no quadro geral.

O presidente do Comitê Olímpico Chinês, Liu Peng, afirmou em uma coletiva no Rio, que as causas da decepção chinesa não foram a falta de experiência olímpica da maioria dos jovens atletas- 73% da delegação era estreante nos Jogos- mas pela melhoria do desempenho dos outros países, e, principalmente, pela falta de treinos por parte dos chineses.

Após esse resultado inesperado, tanto as autoridades quanto a mídia chinesa demonstraram uma mudança no tom sobre o sucesso no esporte como um exemplo de demonstração de força nacional, afirmando que, na verdade, a China não tem necessidade de provar nada a ninguém.

 

china nas olimpíadas
EUA fica com o ouro no tiro, enquanto as favoritas chinesas Du Li ( à esquerda) e Yi Siling (direita) ficam com a prata e bronze,respectivamente.


Surpresas Olímpicas

Antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a China já dava sinais de inquietação. Autoridades esportivas do país já vinham realizando afirmações que poderiam ser vistos como prenúncio do que viria: alertavam publicamente que a delegação chinesa estava atravessando muitos desafios para essa edição, como a falta de familiaridade com a América do Sul e as mudanças de regras de alguns esportes. No começo de agosto, atletas chineses faziam duras críticas às instalações da Vila Olímpica do Rio de Janeiro, chamando-as de “precárias”, além de ressaltarem em redes sociais o medo com a violência da cidade. Por esses problemas, na internet, a Olimpíada do Rio era chamada de a “pior Olimpíada da história” na China, antes mesmo das competições terem início.

No primeiro dia dos Jogos, a decepção chinesa com a Olimpíada começou a tomar formas menos infundadas, quando Du Li e Yi Siling, ex-campeãs olímpicas, alcançaram apenas a prata e o bronze no tiro esportivo, e ainda, o nadador Sun Yang não conseguiu se classificar para a final dos 1500 m livre e ficou em segundo lugar nos 400m – duas provas que ele havia vencido em Londres.

china nas olimpíadas
A orientação errada (esquerda) das estrelas da bandeira chinesa utilizada no Rio

Outro episódio que movimentou as redes sociais chinesas na Olimpíada do Rio foi o uso de uma versão errada da bandeira do país durante a premiação das medalhas do tiro esportivo. Mesmo com o pedido de desculpas dos organizadores, a atitude surpreendeu outra vez, quando a bandeira errada foi alçada novamente durante o pódio que consagrou o ouro da China no vôlei feminino. No Sina Weibo, uma espécie de twitter chinês, o caso foi citado mais de oito milhões de vezes pelos usuários.

china nas olimpíadas
Pedido de casamento entre atletas chineses no pódio olímpico

Mas nem tudo surpreendeu negativamente os chineses. Nas piscinas, além de conquistar a prata  nos 3 metros dos saltos ornamentais, a chinesa He Zi foi pedida em casamento ainda no pódio pelo noivo, o também chinês Qin Kai, que, no mesmo esporte ganhou o bronze no Rio.

Mas a nadadora Fu Yuanhui foi o grande foco dos holofotes da delegação chinesa durante os Jogos. Dona de declarações bem-humoradas, chamou a atenção ao apontar seu ciclo menstrual como a justificativa de seu mau desempenho em uma das provas, além de criticar a falta de maturidade dos homens chineses de sua idade, o que contribui para sua decisão de nunca ter tido namorados.

china nas olimpíadas
Fu Yuanhui, a queridinha chinesa da Olimpíada do Rio

Afirmando ainda que utilizava “forças místicas” para vencer provas, faturou a medalha de bronze nos 100 m costas. O resultado, entretanto, foi uma surpresa para Fu Yuanhui, que pensava ter alcançado apenas o quarto lugar. A conquista só foi percebida durante uma entrevista logo após a prova, na qual uma repórter lhe informou sobre a medalha, arrancando uma reação da nadadora que viralizou na internet pela graça e carisma. O humor, a simpatia e a espontaneidade da nadadora, quebraram com o estilo mais tradicional da postura dos atletas chineses, alçando Fu Yuanhui, merecidamente, como um ícone da China nas Olimpíadas.


Histórico da China nas Olimpíadas

Inicialmente, a China participou, sob o nome de República da China, das Olimpíadas entre 1932 e 1948, aparecendo através da atual nomenclatura de República Popular da China (RPC) pela primeira vez somente em 1952, durante os Jogos de Helsinki, Finlândia. Nesse ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI) permitiu tanto a participação da República Popular da China, quanto da República da China – que veio a se tornar Taiwan, depois da Guerra Civil Chinesa. Os conflitos políticos sobre o status do uso do nome “China”entre as duas partes, entretanto, levou à RPC a se retirar das competições, como uma forma de protesto a tal medida do COI. Em 1979, o Comitê designou Taiwan sob a denominação de Taipé Chinesa, nomenclatura que perdura até hoje. Assim, a RPC voltou às competições em 1980, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Lake Placid, Estados Unidos. Na versão de verão, sua reaparição se deu apenas nos Jogos Olímpicos de 1984 de Los Angeles.

china nas olimpíadas
Delegação chinesa na cerimônia dos Jogos Olímpicos em 1984

Hong Kong também apresenta um diferente Comitê Olímpico Nacional, competindo nos Jogos desde 1952. Com a criação da Região Administrativa Especial de Hong Kong em 1997, a região continua competindo independentemente do restante da China até os dias atuais, sob a nomenclatura de Hong Kong, China.

Assim, em 1984, em Los Angeles, a China retornou aos Jogos Olímpicos levando ao todo 32 medalhas, sendo 15 de ouro, 8 de prata e 9 bronzes, atingindo o 4º lugar no quadro de medalhas.

A edição seguinte, de 1988 em Seoul,  teve o pior rendimento da China nas Olimpíadas, onde o país despencou para a 11ª posição, com 28 medalhas totais, sendo apenas 5 de ouro. Em 1992, na Olimpíada de Barcelona, a China voltou à 4ª posição, subindo ao pódio 54 vezes, 16 delas, para receber a medalha dourada. Já na edição seguinte, de Atlanta em 1996, a China não somente estacionou na 4ª posição, como diminuiu a quantia total de medalhas para 50, sendo 16 delas, novamente, de ouro. Em 2000 em Sydney, a China começou a demonstrar o início de sua aceleração como potência olímpica. Foi em terras australianas que alcançou o até então inédito 3º lugar no quadro geral,com 58 medalhas, sendo 28 ouros!

china nas olimpíadas
Yi Siling conquista o ouro no tiro esportivo em Londres 2012.

Em Atenas 2004, chegou ao segundo lugar da competição, com 63 medalhas, sendo 32 de ouro. Já a edição seguinte, em Pequim 2008, veio a coroar a melhor participação da história da China nas Olimpíadas. Além de alcançar o 1º lugar no quadro geral, com um total de 100 medalhas, o país conseguiu 51 ouros, ou seja, de todas as vezes em que subiu ao pódio, mais da metade estava no lugar mais alto. Já na edição seguinte, conquistou a segunda posição, levando 38 ouros das 88 medalhas conquistadas em Londres em 2012.

 

As Olimpíadas como símbolo de poder?

Os Jogos Olímpicos são considerados, além de uma celebração do esporte e do espírito olímpico entre as nações, como um interessante “palco” para demonstração de poder dos países. Isso se dá não somente pelas disputas diretas entre atletas representantes de diversas nacionalidades, mas também à enorme visibilidade na mídia que possui a nível mundial, sendo considerados como a maior competição esportiva do planeta.

china nas olimpíadas
China garante o pódio completo no tênis de mesa masculino individual em Pequim

É fácil perceber que os países que figuram entre as primeiras posições do quadro geral de medalhas geralmente coincidem com as economias mais ricas e poderosas do globo, evidenciando o peso do investimento econômico e apoio governamental para o melhor desenvolvimento do desempenho de atletas nas mais diversas modalidades.

A busca pelo sucesso nos Jogos, como uma forma de sinônimo de poder dos países que detêm as melhores colocações, é uma prática comum há décadas. Assim, não foi à toa que a China, ao despontar como uma potência econômica mundial, começou a buscar com maior afinco as primeiras colocações no quadro de medalhas das Olimpíadas, iniciando uma disputa direta pelo primeiro lugar com os Estados Unidos nas últimas edições.

china nas olimpíadas
Dos EUA, Katie Ledecky, Simone Biles e Michael Phelps: multimedalhistas e três dos principais nomes da Rio 2016

Desde 1896, os Estados Unidos vêm se afirmando como a grande potência olímpica. Das 27 participações nos Jogos, somente não ficou em primeiro lugar em 10 edições. Sua pior colocação foi o 3º lugar em Montreal (1976), repetido em Seoul (1998). Além de conflitos de ordem política e de interesses militares, China e Estados Unidos são protagonistas em uma competição muito mais pacífica, mas que não deixa de ter extrema importância simbólica de poder para ambos. Com a ascensão da China nas Olimpíadas, o gigante asiático se tornou o principal concorrente dos Estados Unidos no lugar mais alto do quadro de medalhas, tornando a disputa entre eles mais acirrada desde Atenas em 2004. Na capital da Grécia, os Estados Unidos terminaram em 1º lugar, seguidos pela China. A liderança estadunidense só foi perdida na edição seguinte, em Pequim.

china nas olimpíadas
China nas Olimpíadas: grandiosidade consolidada em Pequim


As Olimpíadas de Pequim

A edição dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim veio como uma oportunidade única para mostrar ao mundo e consolidar a ascensão do gigante chinês. Demonstrando até então uma economia de crescimento estrondosamente acelerado, de aproximadamente 10% anual, a China quis provar todo o seu poder como potência mundial na qual foi a segunda Olimpíada mais cara da história, com o orçamento estimado em 40 bilhões de dólares (ficando atrás apenas da edição de Inverno de Sochi, na Rússia em 2014). O país asiático maravilhou o mundo com a construção de estádios de beleza arquitetônica surpreendente, como o Ninho dos Pássaros, e com cerimônias que utilizavam grandes efeitos visuais, show de luzes e coreografias apresentadas com perfeição.

china nas olimpíadas
Ouro na ginástica artística em 2008, no melhor desempenho da China nas Olimpíadas

A ascensão da China demonstrada na grandiosidade do evento, foi ainda mais notada no desempenho de seus atletas. A maior conquista de medalhas da história da China nas Olimpíadas lhe concedeu o inédito primeiro lugar em Pequim, superando, finalmente, os Estados Unidos. Na época, o sucesso veio como consequência visível do maciço investimento nos representantes olímpicos do país. Para aqueles Jogos, foram contratados 29 técnicos estrangeiros para treinar atletas chineses, passando por modalidades como futebol, esgrima, basquete, atletismo e nado sincronizado, por exemplo.

Na edição de Pequim, havia certo sentimento de pressão sobre o país para a realização de uma boa organização dos Jogos Olímpicos. O desenrolar da Olimpíada, juntamente com o resultado do quadro de medalhas, atingiram a expectativa chinesa e vieram a consolidar o gigante asiático também como potência olímpica.

china nas olimpíadas
No encerramento da Rio 2016, primeiro-ministro japonês aparece vestido de Mario e convida à edição de 2020, em Tóquio


2020: o futuro é em Tóquio

Mesmo decepcionados com o rendimento aquém do esperado dos atletas chineses nos Jogos do Rio, agora o que resta é olhar adiante. A próxima edição ocorrerá no vizinho asiático, a capital japonesa de Tóquio, no ano de 2020. Ainda é muito cedo para saber ao certo quais serão as mudanças colocadas em prática pelo gigante chinês para voltar a brigar pela primeira posição no quadro geral de medalhas, mas é provável que a pressão aumente principalmente nas modalidades em que os chineses eram vistos como favoritos, mas que decepcionaram, como a ginástica artística. Sobre o futuro, o presidente do Comitê Olímpico Chinês apenas afirmou a necessidade de mais treinos, além de prever que o país precisará desenvolver suas habilidades especialmente em modalidades coletivas com bolas, através de parcerias internacionais.

china nas olimpíadas
Logo dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim de 2022

Além de Tóquio, a próxima década ainda virá com mais uma oportunidade para a reafirmação da China nas Olimpíadas, já que Pequim sediará os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Sob a posição outra vez de anfitrião, os chineses poderão surpreender novamente com um evento grandiosamente organizado, e, quem sabe, subir no quadro de medalhas dos esportes de inverno, onde não possui muita tradição.

Mas quando se fala da China nas Olimpíadas, uma coisa é certa: já não se espera do gigante chinês outro lugar que não seja a briga pela liderança. Por isso, seu desempenho nos Jogos do Rio foi visto com tamanha surpresa ao redor do mundo. Será que a China conseguirá responder às expectativas e tornará a Ásia ainda mais dourada em 2020? Somente resta esperar. E torcer, é claro.

 

Por Camila Sakamoto, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: G1, Exame, UOL, Folha de São Paulo, O Globo, ESPN, BBC, Wikipedia

Gostou desse artigo? Então veja muito mais em nossa página do Facebook, em nosso blog e em nosso site


Veja Também


Deixe seu comentário