Dezembro 21 2018

China e Estados Unidos: paz ou guerra entre as nações?

Posted by Victor Fumoto

Como acompanhamos durante o ano, as tensões entre a China e os Estados Unidos, com suas idas e vindas, pareciam que iriam se atenuar após o acordo de trégua entre o presidente norte americano Donald Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, a qual fora feito no dia primeiro de dezembro deste ano, durante o encontro da cúpula do G20, em Buenos Aires. Segundo o que foi acordado, ambas as partes decidiram não mais aplicar tarifas adicionais previstas para o dia primeiro de janeiro, o que significaria congelar o plano norte americano de subir as tarifas de produtos chineses de 15% para 25%  e, em troca, a China aumentaria as compras de “produtos agrícolas, energéticos, industriais e de outro tipo”, como colocou Xi.

Entretanto, no mesmo dia, a vice presidente financeira e filha do fundador da Huawei Technologies, Meng  Whanzou, foi presa no Canadá, sob ordens americanas. A Huawei é a maior empresa de telecomunicações e a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, o que pode ter grande repercussão na cadeia global de fornecimento de tecnologia.

O motivo da prisão, segundo o que foi divulgado, é a suspeita de que a Huawei estaria enviando produtos de origem norte-americana ao Irã e países associados, o que violaria as leis de exportação e sanções dos Estados Unidos. Do lado chinês, foi confirmada a prisão pela própria Huawei, em um comunicado, deixando claro que “não tem conhecimento de qualquer irregularidade da Sra. Meng”. Em breve, a senhora Meng deverá ser deportada aos Estados Unidos e, se condenada, poderá enfrentar décadas atrás das grades.

Em resposta, a China deteve dois canadenses, um ex-diplomata, Michael Kovrig, e um escritor. Além disso, também ameaça continuar as retaliações, caso a vice presidente da Huawei não seja libertada.

 

Barreira Comercial

Image by Thomas Peter Pool.

 

 

Em quê isso implicaria?

A primeira coisa a se temer é que seja desfeito o que fora acordado na capital argentina, que implicaria em dar continuidade às hostilidades no comércio entre Washington e Pequim.

Porém, como alguns especialistas já vêm apontando e que acaba se tornando cada vez mais evidente, a guerra comercial entre as potências é apenas uma faceta de um conflito ainda maior: a disputa pela liderança tecnológica mundial entre Estados Unidos e China.

 

Filha do fundador da Huawei é presa no Canadá, por ordens americanas.

A disputa tecnológica entre a China e os Estados Unidos

A posição de “líder em tecnologia global” ocupado pela potência norte americana há quase um século se encontra ameaçada através da ascensão da dominância econômica e militar chinesa. E, claro, ao perceberem isso, os americanos não perderam tempo em tentar combater tal ameaça à sua hegemonia.

Um exemplo recente que demonstra isso é o Made in China 2025, o plano elaborado pela China com o objetivo de tornar o país uma potência industrial e tecnológica, deixando pra trás a reputação de fornecedora de artigos baratos e de baixa qualidade, além de se tornar um país de engenheiros, e não mais apenas de mão de obra barata. A resposta norte americana imediata foi de classificar como “roubo de tecnologia”, que ameaçaria a segurança nacional e livre concorrência, uma vez que a aquisição de empresas e propriedade intelectual estadunidense é um dos pontos estimulados pelo plano. Ademais, como também vimos em um encontro realizado este ano entre uma delegação de oficiais norte-americanos enviada a Pequim, o principal ponto defendido pelos oficiais seria o abandono da estratégia chinesa Made in China 2025, pois, a possibilidade de que corporações chinesas compitam injustamente em mercados internacionais levaria, eventualmente, ao domínio de indústrias estratégicas, das quais muitas são dominadas por empresas norte americanas.

Além disso, como vimos durante o ano, os Estados Unidos fizeram uma série de restrições em relação a empresas chinesas de tecnologia avançada, chegando a exigir que empresas cortassem relações com a própria Huawei, alegando ser uma questão de segurança nacional, e proibindo o uso de equipamento de empresas chinesas por parte de qualquer agente governamental. Como consequência disso, um grande número de transações internacionais bilionárias entre os dois países foi bloqueado por parte dos Estados Unidos, causando inúmeros prejuízos.

Pequim, embora tendo alegado várias vezes querer o fim das tensões entre a China e os Estados Unidos, não aceitou passivamente as decisões tomadas pelos americanos. Além de revidar na mesma moeda, ao longo do ano, às tarifas impostas pelos Estados Unidos, o gigante asiático também declarou firmemente que não abandonará seus planos de ascensão tecnológica.

 

tecnologia

A hegemonia tecnológica americana ameaçada pela China

 

E agora?

Com a prisão da executiva da Huawei, no mesmo dia em que uma suposta trégua foi acordada, o que fica claro são a fragilidade das relações e as enormes dificuldades que serão enfrentadas pelas potências ao tentar estabelecer um acordo (se é que querem isso de verdade). No jogo de tomada de reféns que está se dando atualmente, é importante analisarmos que o que se esconde por trás de tais prisões e detenções é muito mais profundo do que aparenta, sendo desenhado sutilmente antes mesmo das discordâncias recentes mais explicitas.

A guerra comercial travada até então pode ser apenas a ponta de um conflito muito maior, no estilo de como foi a guerra fria. Embora recheado de acordos incertos e declarações duvidosas, onde ficamos perdidos para entender quem é o culpado do quê, a única coisa que podemos ter certeza é: um alto preço será pago por isso, e seremos nós, o mundo todo, que o pagaremos.

 

guerra

Guerra ou paz?

 

Fontes: Opera Mundi, Carta Capital, BBC, Gazeta do Estado.

Por Caroline Malheiros Costa, diretamente de Bauru- São Paulo.

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