A China e a crise na Venezuela

A crise sociopolítica que acontece na Venezuela tem tomado conta dos jornais, noticiários e dividido a opinião pública no mundo inteiro, além de ter afetado a política externa de diversos países com relação aos venezuelanos, o que não foi diferente na China. O gigante asiático tem um duplo interesse especial na situação do país latino-americano. O primeiro deles é o geopolítico referente ao petróleo, além da influência política chinesa na região, sem contar que é sempre bom lembrar que a Venezuela é o país que possui a maior reserva do óleo no mundo. O segundo interesse é o econômico, e que se relaciona diretamente com o primeiro, por conta da imensa quantidade de petróleo, a China fez grandes investimentos estratégicos no país, se tornando o maior credor de Caracas, com uma dívida estimada na casa de 50 bilhões de dólares, no entanto alguns analistas calculam que as cifras podem alcançar a casa dos 67 bilhões. Apesar que 2 terços da dívida já terem sido pagos, Carlos de Sousa, especialista de análise e previsão econômica da Oxford Economics, estima que ainda faltariam cerca de 16 bilhões de dólares a serem pagos, pelo menos, e por isso, a crise venezuelana é muito importante para a China, e é isso que discutiremos na sequência do texto.

 

Entendendo a crise venezuelana

Para entender a crise que acontece hoje na Venezuela é preciso voltar 20 anos na linha do tempo, e chegar em 1998, quando Hugo Chávez foi eleito para o seu primeiro mandato presidencial. Um dos principais objetivos de Chávez era lançar a chamada Revolução Bolivariana, fazendo uma redistribuição de renda igual por todo a sociedade e assim reduzir a pobreza no país. No entanto, na busca de manter os programas sociais financiados pela exportação do petróleo, o governo foi forçado a adotar uma política de desvalorização da moeda, as quais têm surtido pouco efeito na melhoria de vida dos venezuelanos. O governo de Chávez durou até sua morte, em 2013, quando foi eleito o seu sucessor, Nícolas Maduro. Maduro “herdou” um país em meio de uma crise política e econômica, com a missão de dar continuidade a um governo que já havia enfrentando muitas oposições e diversas crises.

Maduro não conseguiu recuperar o país, de forma que a instabilidade só aumentou durante o seu governo, enquanto a oposição, por outro lado, ganhava cada vez mais força, sempre com o objetivo de deslegitimar o governo e tirar o presidente do poder, especialmente após as eleições de 2018, que inclusive deveriam ter acontecido em 2017, quando Maduro foi reeleito. Foi uma votação marcada por polêmicas e de maior abstenção da história do país, na qual apenas cerca de 46% dos eleitores venezuelanos foram às urnas. Assim, desde as eleições, a instabilidade política e econômica na Venezuela só se intensificou ainda mais, chegando ao ponto de que o, então líder da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autodeclarou presidente interino da Venezuela, declarando estar ocupando um cargo que fora usurpado e pedindo novas eleições livres. Diversas manifestações pedindo pela renúncia do atual governo já aconteceram no país, no entanto, Maduro declarou que não renunciará e que “vai ao combate”. Diversos países já reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela.

 

Manifestações na Venezuela em 2018. Fonte: Gospel +

 

As relações entre China e Venezuela antes da crise

Historicamente, as relações entre China e Venezuela começaram apenas em 1974, no entanto, elas só esquentaram mesmo após a eleição de Hugo Chávez em 1998, só aumentando desde então. Para se ter uma ideia desse desenvolvimento, em 1999 as negociações sino-venezuelanas alcançavam a casa dos 500 milhões de dólares, e 10 anos depois, em 2009, as cifras chegaram na casa dos 7,5 bilhões de dólares, fazendo com que a China se tornasse o segundo maior parceiro comercial venezuelano, enquanto a Venezuela se tornou o maior destino de investimentos chineses em toda a América Latina. Além disso, diversos acordos bilaterais foram selados no intuito de garantir os investimentos bilionários chineses, além da exportação de petróleo e outros recursos para a China.

O alinhamento sino-venezuelano, em seu auge, foi além da questão da econômica. Em termos diplomáticos e políticos, a Venezuela passou a apoiar a China em diversas temáticas, dentro do sistema internacional, inclusive na ideia de criação de uma moeda internacional.

Mesmo com a morte de Chávez, em 2013, e a evidente deterioração das condições socioeconômicas e politicas do país, a China não recuou em seus investimentos. Ainda em 2016, a parceria comercial sino-venezuelana continuava quente, sendo que as totalizaram 7,42 bilhões de dólares. Além disso, em 2018, mesmo depois das eleições, China e Venezuela assinaram 28 acordos de cooperação estratégica nos setores de petróleo, mineração, economia, segurança, tecnologia e saúde. Por meios de acordos como esses, o gigante asiático injetou mais de 50 bilhões de dólares a partir de empréstimos, os mesmos que citamos no início do texto, para garantir o suprimento de energia e manter uma zona de influência na América Latina.

 

Chávez e Xi Jinping durante um encontro oficial entre os líderes. Fonte: Business Insider

 

E agora?

Os empréstimos que acabamos de citar foram e são essenciais para as “sobrevivências” dos governos tanto de Chávez, mas principalmente para Maduro, no entanto, sob o comando do atual presidente, a contrapartida venezuelana em relação a essa dívida não tem sido sempre honrada, fazendo com que Caracas ainda deva mais de 16 bilhões de dólares para a China, apesar do país costumar quitar suas dívidas com os chineses por meio de embarques de petróleo, devido a anos de instabilidade política e econômica, nem isso mais a Venezuela tem conseguido fazer.

Por isso, a China passou a questionar se realmente receberia esse dinheiro de volta, e se não seria melhor já ter um plano B na manga, caso fosse necessário, isso quer dizer, considerar uma mudança de poder para o autoproclamado presidente interino Guaidó. Dessa forma, a China mostra que terá uma abordagem diferente daquela, por exemplo, tomada pela Rússia, que alertou claramente os EUA para que não interferissem no interior venezuelano, enquanto a China se limitou a apelos e notas, mostrando como os chineses são muito mais flexíveis e como a estratégia de política externa do país se preocupa e pensa ao longo prazo. Assim, Pequim continuará a desempenhar o papel de um observador atento no pôquer de poder venezuelano, um observador que pode se arrumar com qualquer resultado que saia.

 

Maduro e Xi Jiping durante o último encontro entre os dois, em 2018. Fonte: Venezuela Analysis

 

Em resumo, apesar do apoio declarado a Maduro, a China está pronta e preparada para pôr em ação seu bom e velho pragmatismo, e agir da maneira que mais lhe convier, e que mais lhe traga benefícios, alcançando assim seus objetivos e interesses nacionais. Dessa forma, se Maduro se mantiver no poder, isso será uma vitória política para a China, por outro lado, se Guaidó prevalecer, a vitória poderá ser econômica.

 

Por João Victor Scomparim Soares, diretamente de Cerquilho, SP, Brasil

Fonte:   Guia do Estudante, Wikipedia,Veja, G1,Bol

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