March 01 2018

Censura na China? Governo chinês bane hip hop e tatuagens da TV

Posted by Ana Yamashita

De acordo com o portal de notícias Sina, ainda no início de 2018, a China baniu o hip hop, as tatuagens, a “subcultura” (cultura diferente da dominante) e a “cultura despreocupada” (considerada cultura decadente) da televisão no país. Quer saber o porquê da censura? Confira abaixo!

 

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A Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Cinema e Televisão da República Popular da China (SAPPRFT) – principal órgão regular de mídia do país – exigiu que os programas não devem incluir atores com tatuagens, bem como não exibir artistas relacionados ao hip hop e a culturas que não sejam as dominantes e de acordo com os valores estabelecidos pelo Partido Comunista chinês.

O diretor do Departamento de Publicidade da Administração, Gao Changli, descreveu quatro diretrizes a serem seguidas em todos os programas de televisão da China, que são:

 

> Absolutamente não utilizem atores cujos corações e morais não sejam nobres e não estejam alinhados ao Partido Comunista da China;

> Absolutamente não utilizem atores de mau gosto, vulgares e obscenos;

> Absolutamente não utilizem atores cujo nível ideológico seja baixo e não tenha classe;

> Absolutamente não utilizem atores com manchas morais, escândalos e integridade moral problemática.

 

As diretrizes foram lançadas pelo governo chinês alogo após alguns episódios polêmicos na televisão do país, quando as autoridades chinesas anunciaram a censura ao hip hop e restringiram sua aparição nas mídias. Isso porque a cultura do hip hop vive tempos prósperos no país e desperta o interesse de milhões de chineses.

De acordo com a BBC, a atitude do governo chinês é uma resposta direta a este crescente interesse entre os cidadãos do país, em específico ao reality show chamado The Rap of China. O programa foi ao ar na televisão chinesa em 2017 e muitos de seus participantes foram bem vistos e bem recebidos pelo público no geral. Ainda segundo a BBC, o programa foi visto mais de 2,5 bilhões de vezes em 2017 no IQiyi, a maior página de streaming de vídeo da China.

 

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O programa de televisão chinês The Rap of China fez muito sucesso no país

 

No entanto, embora tenha alcançado boa receptividade por parte da população chinesa, alguns dos participantes do programa enfrentaram reações não tão boas de funcionários do governo. Wang Hao, rapper conhecido como PG One, recebeu críticas por uma de suas faixas que, segundo notícias, era misógina e promovia a cultura das drogas, e, por isso, teve que se desculpar. Além dele, outros rappers também foram removidos de serviços de streaming de música e vídeo do país. Segundo a Reuters, alguns rappers também foram removidos de aparições já agendadas em programas de televisão.

 

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O rapper PG One sofreu críticas e teve que pedir desculpas

 

As medidas do governo chinês ocorreram logo depois da retirada do proeminente rapper GAI do Hunan TV’s Singer, também um programa televisivo de competição musical. Alguns vídeos do rapper GAI, cujo nome verdadeiro é Zhou Yan, foram também removidos do canal oficial do programa no Youtube. Porém, nenhuma destas ações foi justificada oficialmente pela produção do programa, ou pelo próprio governo.

Exemplos da censura do hip hop e das tatuagens na China não faltam. Segundo a Tecent News, o rapper Mao Yanqi, também conhecido como VaVa, foi cortado do programa de variedades Happy Camp. A música de Triple H, um influente rapper da cena underground, foi removida dos principais canais de streaming do país. Além deles, até mesmo um dos competidores do programa de televisão Super Brian, que não pertence ao movimento hip hop, teve seu colar de estilo hip hop “borrado” durante as transmissões.

Mesmo diante de tais medidas, alguns rappers disseram à BBC que não estão preocupados. Al Rocco, um artista de Shanghai, disse à publicação que o governo ainda não entende a cultura hip hop e está assustado, por isso as restrições. Segundo ele, no país há uma lógica diferente, que está evoluindo no momento, pois, cada vez mais, há menos controle sobre as letras de suas músicas. No entanto, a população, em especial aqueles que utilizam as redes sociais, não ficou nada contente com as decisões do governo chinês e reagiu irritadamente no Weibo, o equivalente chinês do Twitter.

 

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Recentemente, a China também proibiu diversos artistas ocidentais de se apresentarem no país. Lady Gaga, Selena Gomez e o Maroon 5 foram banidos devido a seus laços com o Dalai Lama. Justin Bieber, por sua vez, foi banido por seu “mau comportamento” e por, teoricamente, já ter criado “insatisfação pública” com suas apresentações anteriores no país.

 

 

Histórico de censura na TV e os argumentos do governo chinês

De acordo com as diretrizes estabelecidas pela Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Cinema e Televisão da República Popular da China (SAPPRFT), o hip hop, bem como todas as culturas não tradicionais e as tatuagens, deve ser restrito da televisão nacional porque contradiz e enfrenta os valores e a moral do Partido Comunista da China, além de incentivar comportamentos vulgares, obscenos e prejudiciais na população.

 

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Reunião do Partido Comunista da China

 

No entanto, tais restrições, tomadas pelo governo chinês, não são novidade. Em um teórico esforço para melhorar a moral nacional, a China costuma emitir novas diretrizes que proíbem determinados conteúdos de aparecerem em programas da TV nacional.

Conteúdos que abordem bruxas, reencarnações, romances jovens, casais gays, casamentos infelizes, personagens envolvidos com álcool e drogas, entre outras temáticas, já foram restritos anteriormente por ordens governamentais. Além disso, segundo os censores, relações sexuais anormais não devem aparecer nas televisões dos cidadãos chineses.

Dessa forma, as autoridades da Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Cinema e Televisão da República Popular da China (SAPPRFT) classificam como comportamentos sexuais anormais cenas de incesto, abuso sexual, e prostituição; porém, a homossexualidade e a liberdade sexual também são colocadas nesse leque de comportamentos sexuais anormais, e, por isso, são proibidas.

 

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Cenas com casais gays também foram proibidas na televisão chinesa

 

Outros temas também são alvos dos responsáveis pela censura na China, como, por exemplo, programas que glorifiquem o colonialismo, as guerras étnicas e as conquistas dinásticas de outros países. Segundo as autoridades, os programas de TV não devem, sob nenhuma hipótese, prejudicar a estabilidade social.

Por isso, mesmo programas que valorizem vidas luxuosas e mostrem o estilo de vida de celebridades, estrelas e bilionários são considerados prejudiciais, bem como a “promoção” do cigarro, do álcool, das brigas e de outros comportamentos considerados poucos saudáveis. Entram nesta categoria também programas que exponham demasiadamente assuntos privados, relacionamentos, disputas familiares e vinganças. Além disso, a admiração exacerbada do estilo de vida ocidental é censurada, com o intuito de fomentar a criação e inovação de programas nacionais.

Diante disso, é claro que as restrições ao hip hop e as tatuagens não são episódios isolados. Já houve até um episódio de censura à imagem do Ursinho Pooh, quando internautas utilizaram a imagem do personagem em menção irônica ao presidente chinês Xi Jinping.

 

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A imagem do Ursinho Pooh sofreu censura por ser utilizada em memes com o presidente chinês

 

De tempos em tempos, novas diretrizes para a televisão na China são lançadas pela Administração Estatal de Imprensa, Publicação, Rádio, Cinema e Televisão da República Popular da China (SAPPRFT) e devem nortear os conteúdos disponíveis à população chinesa. Embora tais medidas desagradem grande parte da população, que demonstra suas insatisfações nas redes sociais – as quais também são censuradas – , o Partido Comunista da China e os órgãos governamentais devem seguir controlando os conteúdos que vão ao ar na televisão chinesa.

Confira também o nosso vídeo sobre o assunto no canal:

Por Ana Yamashita, diretamente de São Paulo, SP, Brasil

Fontes: Time, The Guardian, Independent, New York Daily News, Reuters, Teen Vogue

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