Abril 05 2018

Censura e o acesso à internet na China

Posted by Victor Fumoto

Desde abril de 1994, quando o primeiro cabo conectou a China à internet, o governo de Pequim empenha-se em manter o controle sobre o conteúdo online acessado pela população chinesa. De lá para cá, muitos sites foram proibidos no país. E, quando não são totalmente banidos, sofrem com a censura constante. Quer saber mais sobre como funciona a internet na China? Então leia mais abaixo!

 

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O acesso à rede na China é um dos mais restritos do mundo, devido ao controle por parte do governo (Imagem by Veja.com/Thinkstock).

 

A censura e o acesso à internet da China

Atividades como assistir a um vídeo no YouTube ou buscar um tema no Google fazem parte do cotidiano de muitos internautas brasileiros. O mesmo não ocorre em países como a China, em que há um forte bloqueio do conteúdo online. Além da censura ao acesso a sites, o governo chinês também impede a busca de determinados termos em plataformas de busca, como “Free Tibet“.

O controle da internet e a censura por lá são tão grandes que o sistema de monitoramento do governo chinês, o mais avançado do mundo, aliás, é chamado de o Grande Firewall da China, brincando com a Grande Muralha.

Apenas para se ter uma ideia, a ONG internacional Jornalistas Sem Fronteiras, que mede a liberdade de imprensa nos países de todo o mundo e os classifica dos mais libertários aos mais opressores, coloca a China na posição 176 de 180. Segundo este ranking, o país só consegue ser mais “livre” do que a Síria, Turcomenistão, Eritreia e Coreia do Norte (Brasil está em 103º).  A ideia aqui não é entrar em detalhes de como o ranking mede se os jornalistas do país são livres ou não, mas a liberdade da internet é um dos critérios básicos da avaliação, por isso, o ranking é bem sugestivo para se ter uma noção de como o povo chinês tem acesso à rede.

 

O acesso à rede

 

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Grandes portais usados por todo o Ocidente são bloqueados pelos censores chineses.

 

A China é o país mais populoso do mundo. Quase 20% das pessoas do planeta estão lá, ou seja, a cada 5 pessoas nascidas, 1 será chinesa. Com tanta gente morando lá, é possível imaginar o tamanho da internet chinesa: desde 2008 é o país com mais moradores conectados, mesmo que metade das pessoas ainda não tenham acesso à rede (cerca de 700 milhões). Por ser um país montanhoso e de difícil instalação de infraestrutura, o meio de conexão que mais cresce por lá é o mobile, principalmente por conta dos habitantes das zonas rurais. Estes compreendem uma parcela de quase 180 milhões de habitantes, quase 90% da população total do Brasil.

Hoje, cerca de 60 regulamentações governamentais regem a internet na China interferindo nos serviços de ISP, organizações nacionais e companhias estrangeiras, não somente realizando a censura aos sites, mas também monitorando o que as pessoas fazem quando online e aplicando punições que vão de multa à prisões.

A internet chegou oficialmente lá em 1994 e a repressão começou, de maneira oficial, em 1998, quando o Partido Comunista Chinês resolveu aumentar a vigilância para conter um possível contragolpe da oposição, que poderia ser organizado no novo meio de comunicação. Foi quando lançaram a primeira fase do Golden Shield Project (GSP), ou Projeto Escudo Dourado. Estima-se que, hoje, o GSP tenha mais de 2 milhões de pessoas que fazem algum tipo de verificação de conteúdo e censura. Para se ter uma ideia de como eles levam a sério o GSP, este codinome “Golden” é dado aos temas mais sensíveis do governo chinês. Existem 12 “Golden Projects” ao todo, entre eles Golden Bridge (informações públicas sobre economia), Golden Customs (comércio exterior), Golden Finance (sobre finanças), etc.

Sério e organizado, o Golden Shield é composto por um sistema de gerenciamento de informações sobre segurança, sistema de informações criminais, sistema de supervisão da informação, sistema de gerenciamento de tráfego de dados, etc. Ou seja: a rédea é curtíssima.

 

 

Segundo os artigos 4 a 6 do documento que rege a internet por lá (correspondente ao nosso Marco Civil da Internet):

“Os indivíduos estão proibidos de usar a Internet para: prejudicar a segurança nacional; Divulgar segredos de Estado; Ou ferir os interesses do Estado ou da sociedade. É proibido aos usuários usarem a Internet para criar, replicar, recuperar ou transmitir informações que incitam a resistência à Constituição da República Popular da China, leis ou regulamentos administrativos; Promove a derrubada do governo ou do sistema socialista; Mina a unificação nacional; Distorce a verdade, espalha rumores ou destrói a ordem social; Ou fornece material sexualmente sugestivo ou incentiva jogos de azar, violência ou assassinato. Os usuários estão proibidos de se envolver em atividades que prejudiquem a segurança das redes de informação do computador e da utilização de redes ou da mudança de recursos da rede sem aprovação prévia.”

O pessoal do Golden Shield mantém uma lista de palavras “indesejadas”. Assim, todos os sites que tiverem essas palavras entram em uma blocklist e passam a ser bloqueados pela governança dentro do território chinês. Segundo um estudo feito em Harvard, já são mais de 18 mil páginas bloqueadas por eles.

Como resultado, além de encarcerar pessoas por censura nos “meios tradicionais” (manifestações, política, etc.), a China também encarcera por causa de meios digitais. Entre 2010 e 2012, a China foi o país que mais prendeu usuários da rede. Os crimes cometidos por eles foram: comunicar-se com grupos estrangeiros, pedir reformas políticas, educacionais e o fim da corrupção e, até, assinar petições online.

Em episódios recentes, os donos dos maiores perfis do Twitter do país foram presos por espalhar calúnias e falsos rumores online, e, uma região específica da China – Xinjiang – até já chegou a ficar 312 dias sem acesso à Internet externa, tendo a possibilidade de navegar apenas em sites locais e governamentais.

 

O que pode e o que não pode

A China não impede que nenhuma empresa instale-se ou opere no país, porém, aquelas que o fizerem tem que aceitar a soberania nacional e atuar de acordo com suas leis. Quem não aceita, pode ser banido.

Serviços que estamos acostumados a usar no Brasil podem não ser tão habituais aos chineses, uma vez que a maioria deles sofre censura no país. A própria Wikipédia, por exemplo, faz parte de uma novela grande. Bloqueada desde sempre por ter temas polêmicos, como a libertação do Tibete, era impossível de ser acessada até 2008, quando por conta dos Jogos Olímpicos de Pequim e a necessidade de passar uma imagem internacional um pouquinho melhor, ela foi liberada. Mas não durou muito: desde 2015 a Wikipédia voltou a ser inacessível por lá, já que o sistema passou a usar o protocolo HTTPS, que criptografa as informações e faz com que a censura seja impossibilitada ou dificultada, tudo o que o governo não quer.

Serviços liberados em que você pode ter um nickname, como o Twitter (bloqueado desde 2009), só se você registrar o seu nome “oficial” primeiro. Assim o governo conseguirá identificar, multar, processar ou prender quem desrespeitar ou ofender seus princípios nacionalistas.

Sites internacionais de notícias como CNN, NBC e Washington Post já foram bloqueados e hoje estão acessíveis. Já o New York Times voltou a ser bloqueado após uma notícia desastrosa para a imagem do governo chinês, que foi publicada em dezembro de 2008.

Dentre os mais de 18 mil sites bloqueados, 12 deles estão no top 100 de acessos mundial e, segundo a Xinhua (um órgão oficial de notícias do governo), somente aqueles “supersticiosos, pornográficos, relacionado à violência, jogos de azar e outras informações prejudiciais” estão na lista negra. Será? Confira algum dos sites que os chineses não têm acesso:

  • Google
  • Google Maps
  • Gmail
  • Facebook
  • YouTube
  • Twitter
  • Instagram
  • Pinterest
  • Pirate Bay
  • Dropbox
  • SoundCloud
  • Bloomberg
  • Tumblr
  • Periscope
  • Time

 

O que os chineses usam

 

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A variante chinesa de algumas redes sociais do Ocidente.

 

Como podemos ver, eles não possuem redes sociais nem mecanismos de busca, não aqueles que conhecemos. Praticamente todos os serviços que estamos habituados a usar possuem uma variante chinesa altamente policiada.

Como alternativa ao Facebook, os chineses têm o Renren, popular entre os estudantes, mas que hoje caiu no esquecimento por não ter se adaptado aos acessos mobile. Como alternativa ao Google existe o famoso Baidu, responsável por cerca de 70% das buscas feitas por lá (o Google tem menos de 2%). Graça aos chineses, é o 4º site mais acessado do mundo e vale cerca de 80 bilhões de dólares.

WhatsApp até existe na China, mas às vezes não. Ele vai e vem, bloqueia e desbloqueia. Por isso a alternativa do momento é o WeChat, que além de ser um mensageiro, tem também tarefas diárias como chamar um táxi, fazer pagamentos ou comprar ingressos de cinema. Por lá também não tem Twitter, mas tem o Sina Weibo, que já registra mais de 100 milhões de usuários diários e está entre os 20 sites mais acessados do mundo.

E assim segue: Youku Tudou para alternativa ao YouTube, QQ mail ao Gmail, Hudong à Wikipédia, etc. Os números de acessos, usuários e valores também impressionam, afinal, se 50% dos usuários fizerem somente 1 busca no Baidu por dia já são 350 milhões de buscas.

 

Está indo para a China? Confira as alternativas

Vai para a China continental e não quer ficar sem postar em suas redes sociais? Então você pode usar algum VPN, que custa algo em torno de 10 dólares por mês e garante o acesso ao site desejado.

 

 

Resumidamente, um VPN funciona assim: Quando você acessa um site pelas redes normais, sua conexão passa por protocolos de segurança que autenticam a conexão proporcionada pelo ISP. Esse servidor “seguro” tem a função de barrar os possíveis invasores, as tentativas de ataques, os sites ou conexões sem certificados válidos, etc., mas na China tem o efeito contrário. Serve para impedir que você acesse o que deseja e o que não é permitido pelo governo. Assim, o que o VPN vai fazer é criar um túnel entre sua conexão e o local onde você quer chegar. Como esse túnel consegue simular um IP fictício, seria como se você estivesse não no seu hotel em Pequim, mas em qualquer lugar do mundo, como Austrália, Hong Kong e Japão, por exemplo.

Outro problema é que a internet, mesmo sem VPN, é muito lenta. Não por conta da conexão – que, como vimos, é mais veloz que a nossa –, mas por causa das inúmeras verificações pelas quais a informação leva para sair do seu computador, ir até o servidor desejado e retornar (ou não) com a sua solicitação.

O ponto positivo é que a internet na China é realmente barata, seja acessando em cafés lan-house (existem muitos, pois facilitam um modelo central de vigilância e, por isso, são incentivados pelo governo), dados móveis para o smartphone, ou até mesmo planos mensais para quem está indo morar. Em um desses planos, 30 MB de velocidade de conexão custa 60 Yuan por mês, ou, 30 reais.

E, por fim, cuidado com a segurança das suas informações. Além de ter o governo na sua cola, os maiores hackers do mundo estão na China, prontos para roubar suas informações. Internet em conexões públicas como praças nem pensar.

Agora, se você vai conhecer o sul do país, onde há grande circulação estrangeira, poderá gozar de liberdade de conexão. Nos hotéis de mais de três estrelas da província de Guangdong, jornais e canais de TV estrangeiros, geralmente, não apresentam restrições. Hong Kong e Macau também não possuem restrições devido ao fato de serem territórios autônomos.

 

Por Vinicius Silvestre, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: Terra, Veja, Revista Galileu, Canal Tech, Oficina da Net

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