Bilhete secreto leva chinesa a reencontrar pais biológicos

Por causa da política do filho único na China, os pais biológicos de Kati tiveram de abandonar a menina, que acabou sendo, mais tarde, adotada por um casal americano. Durante 20 anos, os pais chineses tentaram reencontrar a criança – até que um dia, em uma ponte da China, o sonho deles se tornou realidade, graças a um bilhete que deixaram aos pais adotivos. Quer saber mais sobre essa história emocionante? Continue lendo o artigo!

 

Bilhete secreto leva chinesa, adotada por americanos, a reencontrar pais biológicos

No ano de 1995, quando Qian Fenxian descobriu estar esperando uma segunda filha, ela e seu marido, Xu Lida, ficaram muito preocupados, e logo consideraram a hipótese de interromper a gestação, já que ambos eram muito pobres, e a política de filho único que vigorava na China daquela época os impediria de criar uma nova criança. “Minha mulher estava grávida de sete meses, e nós estávamos considerando fazer um aborto. Mas eu conseguia, frequentemente, sentir o bebê se mexendo. Eu me sentiria mal se tivéssemos abortado. Pensei que, mesmo que a gente não tivesse condições de criá-la, poderíamos entregar para alguém”, conta Xu Lida para a BBC. Assim, o casal chinês desconsiderou a possibilidade de aborto e optou por abandonar a filha em um mercado, na cidade onde viviam.

Ao deixar a filha na rua, o pai biológico também deixou um bilhete endereçado a quem viesse a adotar a menina. Kati foi encontrada pouco depois por transeuntes e entregue a um orfanato. A carta dizia: “Minha filhinha nasceu em 1995, de manhã, em Suzhou. Por causa da pobreza e de outros problemas, não tivemos outra escolha senão abandonar nossa filha nas ruas. Se vocês tiverem simpatia por nós, pais, por favor, nos encontrem na Broken Bridge (Ponte Quebrada), em Hangzhou, daqui a dez ou vinte anos“. O bilhete estava assinado da seguinte forma: “dos pais sem coração”. Xu Lida explica que sugeriu o encontro para dali a dez ou vinte anos por achar que os pais adotivos não iriam permitir que vissem a criança quando ela ainda fosse bebê.

 

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O bilhete estava assinado da seguinte forma: “dos pais sem coração”.

 

Durante anos, o casal chinês passou se perguntando qual seria o paradeiro da filha. Acontece que a decisão de ambos acabou levando Kati para o outro lado do mundo: a menina foi adotada, ainda bebê, por um casal estadunidense, Ken e Ruth Pohler.

Os pais americanos de Kati haviam recebido o bilhete do orfanato. O pai, Ken, diz que compreendeu a aflição dos pais biológicos. “Nós queríamos dar a eles alguma garantia de que ela estava em uma boa família, de que estava sendo cuidada e de que nós a amávamos muito. Queríamos que os pais biológicos soubessem disso, embora não pudéssemos ir até lá nos encontrarmos com eles.”

 

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Kati foi adotada, ainda bebê, por um casal estadunidense, Ken e Ruth Pohler

 

A Ponte Quebrada de Hangzhou é um famoso ponto de encontro na China. Todo ano, no dia 7 de julho, as pessoas vão até lá para se reencontrarem com entes queridos. Quando Kati completou dez anos, Ken e Ruth enviaram uma mensageira à ponte, com a missão de dizer aos pais biológicos que a filha deles estava bem. Contudo, ela acabou se atrasando, e não conseguiu chegar a tempo para encontrá-los. Para compensar, a mensageira decidiu conversar com alguns repórteres que estavam na ponte naquele momento, e uma emissora de TV pediu para que os pais biológicos se manifestassem. Qian Fenxian e Xu Lida resolveram então dar uma entrevista à TV. Logo, a história ganhou visibilidade em toda a China, dando esperança aos pais chineses.

Apesar disso, a repercussão assustou os pais adotivos, que não queriam que a filha passasse por tamanha exposição. Naquela época, Kati tinha apenas dez anos e os pais não achavam que ela estava preparada. Além disso, estavam receosos: “O meu medo era que eu pudesse perder a minha filha. Talvez pudessem levá-la de volta, porque agora sabiam quem eram os pais. Eu tinha criado laços, ela era minha filha. Nós a adotamos. Não queria qualquer conexão (com a família biológica)”, admite Ruth.

Enquanto isso, durante anos, os pais biológicos de Kati continuaram a ir à ponte todos os anos, no mesmo dia 7 de julho. “Desde 2004, eu visitei a ponte anualmente. Sabia que não havia muita esperança. Muitas vezes eu passava o dia olhando para o lago, esperando que a minha filha aparecesse”, relata Xu Lida.

 

O reencontro

A primeira dúvida da criança quanto a sua origem surgiu bem cedo. “Kati devia ter cinco anos quando me perguntou de que barriga ela veio”, conta a mãe adotiva, que respondeu: “Você não veio da minha barriga. Você veio da barriga de uma moça na China, mas você veio do meu coração. Você nasceu do meu coração”. “Ela então saiu para brincar e fazer outras coisas. Era tudo o que precisava saber, e ela estava satisfeita com isso”, diz.

Contudo, a satisfação de Kati quanto às informações reveladas pela mãe durou somente alguns anos, pois quando completou 20 anos, perguntou a mãe sobre a sua história. Foi nesse momento que Ruth decidiu entregar a filha o bilhete em mandarim e contar tudo a ela, incluindo a entrevista que os pais biológicos deram à TV. Kati, então, descobriu que seus pais chineses apareceram em um documentário chamado “Longa Espera pela Volta para Casa”, que contava a saga de Qian Fenxang e Xu Lida em busca da filha, e também os motivos que os levaram a abandoná-la. Assim, Kati, comovida com o relato dos pais biológicos, decidiu voar até a China para encontrá-los na ponte, da forma como eles haviam planejado.

 

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Kati descobriu que seus pais biológicos apareceram em documentário

 

O encontro, registrado pelo cineasta Changfu Chang, o mesmo que dirigiu o documentário citado, é emocionante. A mãe de Kati chorava copiosamente, e não parava de pedir perdão à filha. “Finalmente eu te vi, finalmente te encontrei. Mamãe sente muito, sente muito”, dizia Qian à filha.

Depois de finalmente conhecer os pais biológicos e a irmã mais velha, Kati passou alguns dias com a família. Após esse período, o segundo adeus foi bem menos difícil que o primeiro, vinte anos atrás. Todos carregavam consigo a certeza de que os laços não seriam mais rompidos.

Hoje, Kati está de volta à faculdade nos Estados Unidos, e resolveu começar um curso de mandarim. A mãe biológica envia mensagens de “bom dia” e “boa noite” todos os dias.

 

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Emocionante reencontro registrado pelo cineasta

 

“O amor é imenso. Eu sei que meus pais adotivos me amam, e agora tenho todo esse novo amor que eu nem sabia que existia, mas que sempre esteve aí”, resume Kati depois da jornada em busca de suas origens.

 

Por Lys Brittes, diretamente de Marília, SP, Brasil

Fontes: BBC, G1

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